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Full text of "A côrte da rainha D. Maria I. Correspondencia de W. Beckford"

A CORTE 



DA 



RAINHA D. MARIA I 



A CORTE 



DA 



RAINHA D. MARIA I 



CORRESPONDÊNCIA 



^V. BECKFORD 



LISBOA 

LIVRARIA EDITORA 

TAVARES CARDOSO & IRMÃO 

5 — LARGO DE CAMÕES — 6 

1901 



DP 



VR^ 




A CORTE DA RAINHA D. MARIA I 

Correspondência de W. Beekford 



17&7 



A CORTE DA RAINHA D. MARIA I 



Excursão a Palhavã — O palácio — Tristes labyrinthos no estylo 
dinamarquez — Rosas — Um mestre de picaria anglo-portuguez 
— O interior do palácio — Os moveis com saias — A força da 
educação — Realeza sem poder — Regresso do palácio. 



30 de maio de 1787. 

Apesar da minha reluctancia Horne resolveu-me a que, 
em vez de dar o meu costumado passeio pela beira-mar, 
o acompanhasse na sua sege portugueza a Palhavã, resi- 
dência dos bastardos de D. João v. 

São abomináveis os caminhos que conduzem a esta sum- 
ptuosa quinta, e de todos os que eu conheço os mais infes- 
tados de mendigos, cães, moscas e mosquitos. O palácio, 
que pertence ao marquez de Louriçal, está n'uma cova, e 
o fechado arvoredo, que o cerca, não deixa correr sequer 
uma aragem, a ponto de me sentir suffocado apenas entrei 
á sua sombra. 

Em um grande terreiro na frente da quinta estão dis- 
postos uns tristes labyrinthos de murta tosquiada, d'onde 
se erguem altas pyramides no estylo d'aquelle feio dédalo 
dinamarquez plantado pelo rei Guilherme em Kensington, 



e que ha annos foi mandado arrancar por Jorge iii. Para 
além d'esta intrincada matta vêem-se muitas e extensas 
alamedas d'um vigoroso verde escuro, a que com grande 
propriedade chamam— ruas — e que são mais sombrias, 
e solemnes e não menos empoeiradas do que High-Holborn. 

Affastei-me d'ellas e dirigi-me a uns canteiros frescos 
de plantas e hervas aromáticas, defendidas por uns cani- 
çados muito bem feitos, revestidos das mais frescas e lin- 
das rosas, inteiramente limpas de insectos e de pulgão, e 
dignas de juncar o leito e ornar o seio de Lais, d 'As- 
pasia ou de lady X. . . Sabeis com que delicia todo o 
homem de gosto aprecia estas flores, e quantas vezes, e em 
quão harmoniosas estrophes Ariosto as celebrou. 

Não tem lady X... um quarto todo pintado de rosas? 
não enche ella o banho com as suas folhas, e não é com 
estas flores que de preferencia engrinalda os seus ído- 
los? E não tem ella todo o direito de o fazer? 

Emquanto eu poeticamente devaneava com as rosas, 
Horne travava conversação com uma espécie de anglo- 
portuguez, mestre de picaria de Suas Altezas bastardas. 

Tinha este uma bem empoada e correcta cabelleira, um 
brilhante espadim de prata, a libré toda carmesim, e uma 
guapa e bojuda pança. Com uma das mãos no seio e a 
outra na posição de tomar uma pitada, elle discorria empha- 
ticamente sobre a santidade, a temperança e a castidade 
dos seus augustos amos, que vivem, sequestrados do 
mundo, no silencio c na obscuridade, aborrecem a socie- 
dade profana, e nunca tiveram olhos para uma mulher! 

Curioso de examinar a morada d'estes semi-reaes e 
sóbrios personagens entrei no palácio. Não zumbia um 
insecto, nem se ouvia o mais leve rumor. Os aposentos 



principaes compoem-se d'uma serie de salões de altas abo- 
badas e de nobres proporções* todos forrados de damasco 
carmesim escuríssimo. Um pesado docel de velludo lavrado 
torna ainda mais sombria a parte superior das salas, que 
teem á direita e esquerda duas fileiras de grandes cadeiras 
de braços também estofadas de velludo carmesim. Nem 
espelhos, nem pinturas, nem doirados: nenhuma outra 
decoração, além àVaquellas pesadas tapeçarias. As pró- 
prias mesas estão oceultas com fofos acairelados de velludo 
lavrado, no eslylo dos que as nossas viuvas antigamente 
usavam paia ornar os seus toucadores. Basta a vista des- 
tas mesas assim vestidas para nos fazer transpirar, e não 
posso imaginar que demónio levou os portuguezes a inven- 
tarem tão antiquada moda! 

Este gosto de vestir saias ás commodas e ás mesas é 
qnasi geral aqui, pelo menos nos aposentos reaes. Em 
Queluz não escapou nem uma mesa de jantar ou de jogo, 
e eu até suspeito, que se aproveitaram muitos vestidos de 
curte já usados para se fazerem estas coberturas, que são 
de todas as cores, lisas, floreadas, com desenhos pastoris, 
ou primorosamente bordadas. Não é assim em Palhavã: 
aqui reina só o carmesim, que espalha a sua real tristeza 
sobre todos os objectos. Encostadas á parede, entre duas 
das taes mesas, estão duas poltronas para Suas Altezas, e 
no lado opposto, uma renque de cadeiras para aquelles 
reverendos em Christo que, de tempos a tempos, recebem 
a honra de serem admittidos. 

Quão poderosa é a força da educação! 

Que esforços tiveram que empregar as amas, os escu- 
deiros e os camaristas, para suffocar todos os vividos e 
generosos sentimentos nos principesinhos que elles edu- 



cavam, e para domar a creatura humana aos hábitos d'uma 
impotente realeza ! A dignidade sem o poder é um dos mais 
pesados fardos. Um soberano pode empregar a sua activi- 
dade; tem a escolher o bem ou o mal; mas a uns prínci- 
pes, como os de Talhava, sem poder nem influencia, que 
não tèem para alimentar o pensamento senão a sua imagi- 
naria grandeza, o espirito hade-se-lhes evaporar, e tornar- 
se-hão com o decorrer do tempo tão hirtos e inanimados 
como as pyramides da rachitica murta dos seus jardins! 
Mais felizes foram aquellas creanças que D. João v não 
julgou conveniente reconhecer, e que não são poucas, por- 
que aquelle pio monarcha: 

grande como os seus domínios, 

espalhou a imagem do Creador por toda a terra ! 

Talvez que esses — em quanto os seus irmãos bocejam 
sob os empoeirados dóceis — toquem guitarra em descui- 
dosos passeios por noites de luar, e dancem alegres fandan- 
gos, ou gosem o tranquillo somno, a mesa rústica e as 
distracções campestres, na posse d'um curato em alguma 
bonita aldeia. 

Senti um grande prazer ao sair do palácio. Aquelle 
silencio, aquella tristeza, obumbravam-me o espirito, e 
aquella atmosphera abafadiça, impregnada de cheiro de 
alfazema, prostrou-me completamente. 

Acabo agora de chegar d' ali, e careço de respirar. Não 
admira, porque tanto vale deitar-se a gente com um esquen- 
tador na cama, como viajar uuma sege com o corpulento 
Horne, que possue um ventre magestoso, e que usa n'esta 
estação um collete de setim recamado de lentejoulas ! 

Preciso ir para Cintra, senão morro! 



II 



O ceu deslumbrante de Portugal — O luxo simiano — O Jardim 
Botânico — As açafatas — Descripção do Jardim e dos terraços. 



31 de maio de 1787. 
Em vão chamo pelas nuvens e pelos nevoeiros, para me 
cobrirem e envolverem. Não podeis fazer uma idéa exacta 
do pereone esplendor d'este afamado clima í Não ha em 
todo o mundo logar mais bem escolhido do que Lisboa 
para nos fazer clamar: 

«Hide me from day's garish eye» 

mas o que não é tão fácil é encontrar onde nos esconder. 
Aqui não ha mattas de pinheiros como nas clássicas villas 
italianas, nem os balouçados choupos e folhudos casta- 
nheiros, que ensombram as planícies da Lombardia. As bai- 
xas dos arrabaldes d ? esta capital são cobertas — com poucas 
excepções, infelizmente — de laranjeiras anãs e de oliveiras 
cinzentas. Ao abrigo dos seus ramos não vemos pastores 
nem pastoras, mas só ossos alvejantes, chinelos velhos, 
cacos, e alguns viandantes muitas vezes acompanhados de 
macacos, que, segundo me disseram, elles alugam para 



8 



calarem a humanidade! Os que não podem ostentar este 
luxo simiano entregam as hirsutas caberás aos cuidados 
dos seus dedicados parentes, e ainda limitem, mesmo 
debaixo da minha janella, vi dois abençoados pequerru- 
chos prestando esse bom serviço ao seu edoso pae. 

Havia eu resolvido não sair da sombra do meu toldo; 
todavia para a tarde, tendo abrandado um pouco o ardor do 
sol, o velho Home — que ainda não tem o dente do sizo — 
arrastou-me a um passeio ao Jardim Botânico, onde não é 
raro encontrar umas certas creaturas novas, do género 
feminino, chamadas em portuguez — açafatas; uma espécie 
entre a creada do quarto e a dama de honor. A Bainha 
teve a amabilidade de levar as mais leias comsigo para as 
Caldas: as que ficaram teem grandes olhos negros em que 
brilha o verdadeiro espirito das aventuras, ondas exube- 
rantes de cabellos pretos, e carnudos lábios da côr e do 
tamanho das rosas no seu pleno desabrochar. 

Dir-me-heis que tudo isto não constitue uma belleza per- 
feita. Eu também não o penso; o que desejo só é que 
fiqueis sabendo que as nymphas, que acabamos de de.xar, 
são a flor do bando da Bainha, e que ella tem no séquito 
da sua Beal pessoa, pelo menos, mais quatro ou cinco dúzias 
com boccas maiores, olhos mais pequenos e tez mais tri- 
gueira. 

Não me sentindo assaz animado para florear em portu- 
guez, a minha conversação dirigiu-se principalmente para 
uma interessante rapariga irlandeza de olhos azues, de 
quinze ou dezeseis annos, recemeasada com um offlcial das 
Alfandegas de Sua Magestade. Emquanto o mando vae a 
uma romaria a Nossa Senhora do Cabo, a noiva passe.a 
no Jardim Botânico com as damas do palácio e com um 



( .) 



rancho de sopranos, que lhe ensinam a gargantear e a 
fallar italiano. Ella é bem digna de aprender Indo o que 
elles poderem ensinar-lhe. Os seus formosos cabellos cas- 
tanhos, a correcção grega das suas sobrancelhas e a bel 
leza da sua cútis, faziam um vigoroso contraste com a tez 
morena e as trancas azevichadas das suas companheiras. 
Parecia uma visão, deslisando pelas alamedas, e deixando 
atraz de si os barrigudos sopranos e as pouco elegantes 
açafatas, admiradas da sua agilidade ! 

O Jardim é muito agradável: está situado 11'uraa emi- 
nência, e plantado de esbeltas arvores cobertas de flores. 
Acima dos seus mais altos ramos ergue-se um largo e 
magestoso terraço com uma balaustrada de mármore de 
deslumbrante alvura e dum estranho estylo oriental. N'este 
paiz desenham mediocremente, porém executam com grande 
perfeição e acabamento. Nunca vi balaustradas mais bem 
cortadas ou cinzeladas do que as que ladeam os degraus 
que conduzem ao grande terraço, cuja vasta superfície é 
dividida em longos compartimentos de mármore, contendo 
poucas variedades de heliotropios, áloes, gerânios, rosas da 
China e outras plantas mais communs das nossas estufas. 
Estes pesados canteiros teem um triste aspecto; fazem-nos 
lembrar um cemitério; e eu fiquei impressionado, como se 
visse sair da terra os defunctos habitantes do palácio visi- 
nho na forma de espinheiros, de figueiras da índia, de pom- 
posos malvaiscos e de copadas pimenteiras f 

O terraço terá mil e quinhentos passos de comprimento. 
Dão-lhe frescura três copiosas fontes e ainda mais o balou- 
çar das altas acácias, expostas pela sua elevada situação 
a todas as brisas do Tejo, cujo delicioso azul se entrevê a 
espaços por entre a tremula folhagem. 



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A menina irlandeza e o vosso fiel correspondente corre- 
ram ambos pelo terraço como creanças, e, quando fatigados, 
foram descançar junto duma fonte, á sombra d'um enorme 
áloes do Brazil. O rancho das trigueiras destacou o seu prin- 
cipal guardião — um frade moço e estúpido — para obser- 
var todas as voltas e paragens da gente branca. 

Era tarde, e já havia alguns minutos que o sol havia 
desapparecido, quando eu saí dali. Os olhos pretos e os 
azues pareciam horrendamente ciosos uns dos outros, Re- 
ceio que a minha joven e espirituosa companheira soffra 
alguma coisa por ter mais viveza do que as açafatas: são 
capazes de lhe dar beliscões, aposto, quando o rancho se 
retirar pelas escuras e tortuosas travessas que conduzem 
do palácio da Ajuda para o Jardim. Triste idéa a de deixar 
tão encantadora creaturinha nas mãos de mulheres altivas 
e despóticas, tão suas inferiores em compleição e delicadeza. 
E fico porque ellas hão de ter um especial cuidado em 
encher os ouvidos do marido de suspeitas menos caridosas 
do que as que lhe inspirou Nossa Senhora do Cabo! 



III 



A sagração do Bispo do Algarve — Musica pathetica — O valle de 
Alcântara — O enorme aqucducto — Visita ao palácio dos Ma- 
rialvas— Grande veneração pelos seus senhores — Uma col- 
lecção de raridades — O vice-rei do Algarve — Polyglottismo — 
Uma scena nocturna — As modinhas — Uma procissão extraor- 
dinária—Venturas do governo patriarchal. 



3 de junho de 1787. 

Fomos assistir, por convite especial, no Real Convento 
das Necessidades, pertencente aos oratorianos, á sagração 
d'um padre d'aquella ordem, elevado a Bispo do Algarve. 
Deram-nos logar em frente do altar, n'uma galeria apinhada 
de personagens importantes esplendidamente trajados, que 
eram das relações do novo prelado. Cobriam o chão ricos 
tapetes da Pérsia e cochins de velludo, e estávamos muito 
bem ajoelhados, mas, apesar d'estas commodidades, jul- 
guei que a ceremonia nunca teria fim. Era extraordinário 
o esplendor das cruzes, dos thuribulos, das mitras e dos 
báculos em continuo movimento, porque áquella ceremonia 
assistiam muitos bispos com toda a sua pompa. 

A musica, extremamente simples e pathetica, pareceu-me 
impressionar profundamente os nobres, meus visinhos, por- 
que nas suas physionomias estava impresso o pesar e a 



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contrição, e batiam nos peitos e pareciam convencidos de 
que eram, como muitos effectivamenle são, uns miseráveis 
peccadores. O calor e o sermão principiaram a mcommo- 
dar-me: retirei-me dissimulada e silenciosamente da esplen- 
dida galeria, e, atravessando alguns corredores estreitos e 
tão quentes como canos de fogão passei para o jardim. 

Porém isto foi apenas trocar uma scena de formali- 
dades e constrangimento por outra. Eu o que queria era 
ce.i.irar, e para alcançar esse bem escapei-me por uma por- 
tinha estreita para o agreste e deserto valle de Alcântara. 
Aqui tudo era solidão, e zumbidos de abelhas, e frescas 
brisas do Tejo, ciciando pelas folhadas copas dos laran- 
jaes. O ranger das noras parece que me refrigerou e deu 

um novo alento. 

Affrontei o sol, e caminhei para aquelle lado do valle 
atravez do qual se ergue o enorme aqueducto, de que ja 
ouvistes fallar como da mais collossal construcçâo do seu 
género. Tem uma só ordem de arcos em ogiva, e o maior 
de todos, por onde passa uma rápida queda d'agua, mede 
para cima de duzentos e cincoenta pés daltura. As pontes 
doGard e deCaserta teem varias fileiras d'arcos sobrepostos, 
que, dividindo a attenção, diminuem o effeito geral do monu- 
mento: aqui ha uma tal grandeza n'esta simples arcana, 
que nos enche de assombro 1 Sentei-me numa pedra, de- 
baixo do arco grande, e puz-me a contemplar aquella abo- 
bada, erguida a tanta altura acima de mim, com um sen- 
timento de respeito não isempto de terror, como se aquelle 
monumento, que eu admirava, fosse obra d'algum ser 
immenso dotado de forças gigantéas, que podesse lem- 
brar-se de sacudir e desmanchar a sua obra, e ter o mau 
gosto de me reduzir a pó! 



13 



Próximo do sitio onde eu estava havia alguns tratos de 
terra cheios de canrias de onze ou doze pés d' altura: 
as suas folhas verdes agitadas pela mais leve aragem pro- 
duziam um murmúrio perenne... Gosto immenso d'este 
rumorejar, e deixei-me ali estar acalentado por elle, no 
oecessario repouso a que me obrigava a fadiga de trans- 
por fragas e precipícios. 

Apenas voltei do meu passeio, Ilorne convidou-me para 
jantar com elle, e fomos depois ao palácio do marquez de 
Marialva fazer uma visita ao Grão-Prior. 

V vi si a do pateo, cheio de seges velhas, fez-me lembrar 
a entrada duma estação da posta em França; recordação 
ainda avivada pelo aspecto de muitos montes de estrume, 
por entre os quaes fizemos a maior parte do nosso tran- 
sito até á escada principal, tendo quasi tropeçado n uma 
enorme porca e na sua numerosa progénie, que se disper- 
sou por entre as nossas pernas com dolorosos grunhidos. 

Este rumor annunciou a nossa chegada, de forma que 
logo appareceu o Grão-Prior, o seu sobrinho, o velho 
Abbade, e uma multidão de creados. Todas as grandes 
famílias portuguezas estão infestadas por catervas d*estes, 
em geral, pouco favorecidos dependentes, e nenhuma tanto 
como a dos Marialvas, que pelo menos distribue todos os 
dias mais de trezentas rações de arroz e outros comestí- 
veis a outros tantos ávidos devoradores! 

O Grão-Prior, já sem os seus hábitos pontificaes, fez-nos 
as honras da casa, e conduziu-nos com muita agilidade 
atravez dos aposentos e do picadeiro, onde o velho Mar- 
quez, seu irmão, a despeito da sua avançada eclade, ostenta 
ainda os primores da mais consummada cavallaria. Parece 
elle ter um gosto decidido pelos relógios, pêndulas e des- 



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pertadores: contei não menos de dez na sua alcova. Qua- 
tro ou cinco estavam trabalhando, fazendo uma grande 
zoada; tocavam menuetes e davam as horas, pois exacta- 
mente eram seis em ponto quando eu, acompanhando o 
meu conductor, subindo e descendo meia dúzia de escadas, 
entrava n'um salão forrado de velho damasco. 

No centro d'este antiquado aposento estava uma mesa co- 
berta com raridades ali postas para nós vermos; curiosos 
trabalhos de conchas, crucifixos de marfim, modelos de 
navios, chaireis com bordados de pennas, e sabe Deus 
quantas coisas mais, tresandando a camphora o bastante 
para entontecer uma pessoa. 

Quando nós examinávamos isto com a maior attenção, 
chegando os lenços ao nariz, deu entrada o conde de Vil- 
la Verde, vice-rei do Algarve, vestido de grande gala— côr 
de rosa e verde, com bordados de prata -alargando as 
pernas, e com feia catadura, como se lhe tivesse acontecido 
algum accidente desagradável. Estava porém muito bem 
disposto de espirito, e recebeu com muito agrado os nos-, 
sos comprimentos acerca do bispo, seu parente, que aca- 
bava de ser sagrado. A nossa conversação arrastou-se 
coxeando numa grande variedade de línguas mescladas, 
succedendo-se rapidamente o hespanhol, o italiano, o por- 
tuguez, o francez e o inglez. 

O assumpto de todo este polyglottismo foram as glorias 
e a piedade de D. João v, o pesar pela extincção dos 
jesuítas, e o sentimento contrario pela morte de Pombal, 
por cuja memoria o conde sente uma coisa, que não esta 
muito longe da execração. Este jorro de eloquência era 
acompanhado por uma grande quantidade de perdigotos e 
pelas mais singulares e truanescas caretas que tenho visto, 



15 



porque o vice-rei tendo a bocca constantemente cheia de 
saliva, baba-se a todo o instante. 

Não se deve ninguém, todavia, decidir apressadamente 
por simples apparencias. Este personagem baboso e affe- 
ctado é um homem d'estado distincto e um bom official, 
avantajando-se entre os poucos que teem servido e dado 
provas de vigor e capacidade. 

Fugindo ás intermináveis historias que já me iam enfas- 
tiando os ouvidos, refugiei-me junto d'um cravo, em que 
Polycarpo, um dos primeiros tenores da Capella Real, es- 
tava tocando para se acompanhar. As cortinas meio cer- 
radas da porta dum quarto próximo e que não tinha luz, 
deixaram-me entrever num relance o vulto de D. Henri- 
queta de Lencastre, irmã de D. Pedro, avançando e re- 
cuando, curiosa de se approximar e de examinar as nossas 
exóticas pessoas, mas não se aventurando a entrar no salão 
na ausência de sua mãe. Pareceu-me que era uma interes- 
santíssima mulher^ com uns olhos cheios de fascinante lan- 
guidez; — mas, de que estou eu fallando? Eu só vi a sua 
pallidez vaporosa, como a gente imagina que vè os objectos 
quando sonha. Um grupo de encantadoras creanças — suas 
irmãs, creio eu — estavam sentadas no chão, aos seus pés,, e 
pareciam génios semi-occultos nas pregas dos panej amentos 
d : alguma grande pintura allegorica de Rubens ou de Paulo 
Veroriez. 

Entrada a noite, as luzes brilharam nas torrinhas, nos 
terraços e em todos os pontos da estranha agglomeração 
de edificações, que compõem este palácio amoiriscado: 
metade da familia recitava as ladainhas dos santos, a outra 
divertia-se com extravagâncias e travessuras, talvez pouco 
edificantes, e o staccato monótono das guitarras, acompa- 



1G 



nhado pelo murmúrio abafado e suave das vozes femininas, 
cantando modinhas, formava uma singular mas não des- 
agradável harmonia. 

' Estava eu escutando-a com avidez, quando o clarão dos 
archotes e o rumor da agua batida pelos remos nos chamou 
às varandas, a tempo de vermos uma procissão raras vezes 
egualada desde o tempo de Noé! Duvido que a sua arca 
contivesse uma collecção de animaes mais heterogénea do 
que a que saiu dum escaler de cincoenta remadores, que 
acabava de pôr em terra o velho marquez de Marialva e 
o- seu filho D. José, acompanhados duma multidão de 
músicos, poetas, toireiros, lacaios, macacos, anões o crean- 
ças de ambos os sexos, phantasiosamente vestidas! 
' Todo aquelle bando, creio eu, voltava d uma romaria á 
capella dalgum santo no outro lado do Tejo. O primeiro 
que saltou foi um anão corcunda, que fazia uma chiadeira 
infernal numa gaitinha dum palmo de comprimento; se- 
ouiam-se depois dois servilôes parasitas apparentemente 
commandados por um velho de uniforme muito usado, e 
d-aspecto singular e fanfarrão, que me disseram ter mili- 
tado como brigadeiro n uma ilha qualquer. A Barataria que 
ella fosse, Sancho tel-o-ia mandado tratar da sua vida. por- 
que, a dar credito á chronica escandalosa de Lisboa, pou- 
cas vezes se tem visto um truão, um parasita e um gatuno 
mais impudente do que elle! 

No encalço d"estes caminhavam um emproado e asselva- 
jado monge, tão alto como Sansão, e dois frades capuchinhos, 
ajoujados não sei com que espécie de provisões. Vinha em 
seguida um magro e paliido boticário, todo vestido de 
preto, correspondendo completamente no trajo e no porte 
á figura que imaginamos do Senor Apuntadw, do Gil Blas, 



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e após este vinha um improvisador meio tonto, disparan- 
do-nos versos, quando passou por baixo das varandas donde 
estávamos vendo desfilar o cortejo. 

Era quasi impossível ouvil-o por causa do confuso tropel 
de barqueiros e creados com gaiolas de pássaros, lanter- 
nas, cabazes de fructa e grinaldas de flores, que vinham 
alegres e saltando, com grande gáudio dum bando de 
ereanças, as quaes, para parecerem mais habitantes do ceu 
do que a natureza as fizera, traziam umas azinhas transpa- 
rentes presas aos seus hombros cor de rosa. Alguns des- 
tes anjinhos de theatro eram extremamente formosos, e 
tinham o cabello garridamente disposto em armeis. 

O velho marquez gosta d^lles doidamente; vivem com 
elle noite e dia, dando-lhe tudo o que a frescura e a inno- 
cencia pode offerecer a uma organisação decadente. 

O patriarcha dos Marialvas tem seguido este regimen ha 
muitos annos, e também alguns outros quasi incriveis. 
Dotado d'uma facilidade mais que romana de devorar uma 
immensa profusão de manjares, e de fazer legar a novo 
supprimento, janta todos os dias sósínho, ladeado por dois 
cangirões de prata de extraordinária grandeza. Ninguém 
em Inglaterra me acreditaria, se eu descrevesse o enorme 
banquete que vi disposto para elle; mas deixae a vossa 
imaginação perder-se em tudo o que se tem imaginado em 
matéria de voracidade, que íí este caso ella ainda ha de 
ficar abaixo da realidade! 

Apenas o conteúdo animal e vegetal do escaler grande 
e de três ou quatro faluas da comitiva ficou depositado 
nos seus respectivos cubículos, recantos e poleiros, recebi 
um convite do velho marquez para merendar com elle no 
seu quarto. Nao eram menos, com certeza, de cincoenta, 



18 



os creados que nos esperavam, e além de seis brandões de 
cera, que por ceremonia nos iam alumiando, mais de cem 
círios de differentes tamanhos ardiam nas salas, onde bra- 
zeiros de prata e cassoletas espalhavam no ar um deli- 
cioso perfume. 

O senhor de todas estas magnificências pareceu-me muito 
cortez, affavel e insinuante. Ha uma tal urbanidade e bom 
humor no seu olhar, nos gestos, e no timbre da sua voz, 
que nos predispõem logo em seu favor e justificam a popu- 
laridade universal de que gosa, e o affectuoso nome de 
Pae, que lhe dá muitas vezes a Rainha e a Família Real. 
Os favores da coroa tèem chovido sobre elle aos montões. 
no presente e nos anteriores reinados -uma corrente de 
prosperidades não interrompidas mesmo durante o grão- 

visiriato de Pombal! 

«-Proceda como julgar mais acertado com o resto dn 
minha nobreza -costumava dizer o rei D. José ao seu 
temido ministro-mas guarde-se de se intrometter com o 
marquez de Marialva.» 

 esta decidida predilecção deveu o palácio de Marialva 
tornar-se em muitos casos um ponto de reunião, um asylo 
dos opprimidos, e o seu senhor, em mais duma occa- 
sião um escudo contra os raios de tão poderoso ministro. 
Ainda parece estar viva a memoria d'esses tempos, porque 
era digno de se notar o respeito cordeal e a filial adoração, 
que vi tributar ao velho marquez. Obedeciam aos seus 
mais leves acenos, e as pessoas a quem elles se dirigiam 
mostravam-se gratas e animadas: os seus filhos, o marquez 
de Tancos e D. José de Menezes, dobravam o joelho sem- 
pre que se approximavam delle para lhe offerecer alguma 
coisa, e o conde de Villa Verde, o herdeiro da grande casa 



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de Angeja, tanto como o vice-rei do Algarve, faziam cir- 
culo de pé com os outros em volta d'elle, acolhendo uma 
palavra graciosa ou affavel com o mesmo reconhecido inte- 
resse de cortesãos pendentes dos sorrisos e do favor do seu 
soberano í Lembrar-me-hei por muilo tempo das gratas 
impressões que me deixou esta scena de reciproco affecto : 
parecia uma troca mutua de sentimentos cordeaes — bene- 
ficência distribuída sem calculo nem affectação, e protecção 
recebida sem malévolo ou abjecto servilismo. 

Quam preferível é um governo patriarchal como este ás 
frias theorias que pretendem estabelecer alguns sophistas 
pedantes, e que, se elles conseguissem realisar os seus 
impios desvarios, solapariam rapidamente os melhores e 
mais seguros esteios da sociedade. Quando os pães dei- 
xam de ser honrados pelos seus filhos, e as édades e as 
condições, que carecem de protecção, desconhecem os sen- 
timentos de grata sujeição, os reis cessarão em breve de 
reinar, e as republicas deixarão de ser governadas pelos 
conselhos da experiência; a anarchia, a rapina e a carnifi- 
cina devastarão a terra, e a morada dos demónios mudar- 
se-ha do inferno para o nosso desgraçado planeta. 



IV 



\ festa do Corpo de Deus — Admirável decoração das ruas — A Sé 
Patriarchal- Saída do Sacramento com grande pompa - A es- 
plendida procissão. 

7 de junho de 1787. 
Accordaram-me hoje, ao romper da manha, os repiques 
sonoros dos sinos, o ruidoso rufar dos tambores e o estri- 
dulo toque das trombetas. Os vossos mui pios sentimentos 
não permittem que ignoreis ser hoje o dia da festa do Corpo 

de Deus. 

Estava eu meio resolvido a ficar em casa, examinando 
uma curiosa collecçâo de Chronicas portuguezas, que o 
Prior d'Aviz acabava de me mandar, porém taes maravi- 
lhas me contaram da annunciada procissão, que nâo me 
pude furtar a um pequeno incommodo para a presenciar. 

Já todos andavam fora quando eu saí, e tanto as ruas 
do subúrbio que habito 1 , como as da cidade que atra- 
vessei, quando me dirigia para a Sé Patriarchal, estavam 
inteiramente desertas. Parecia que a peste tinha assolado o 
Terreiro do Paço e os buliçosos arredores da Praça do 

i Beckford cremos que habitava um palacete da rua da Cova da Moura, 
ás Necessidades, onde morou ha annos o" visconde d' Almeida, camarista da 
Imperatriz do Brazil. 



4 



OVv"* 



21 



Commercio e da Casa da índia, porque até os vadios, os 
varredores das ruas e os pobres no ultimo estado de decre- 
pitude, haviam, todos abalado para o local da festa! Nas 
ruas ermas apenas alguns cães lasarentos farejavam os 
ossos, e não vi nas janellas senão meia dúzia de creanças 
enlahusadas. berrando com toda a força por as terem dei- 
xado em casa. , t 

O murmúrio da multidão, apinhoada em volta da Sé Pa- ^ 
triarcbal, jã se ouvia muito antes de lá chegarmos, e 
foi com difficúldadè que caminhámos entre fileiras de sol- Q - 
dados formados em linha de batalha. Quando dobrámos 
um recanto, ensombrado pelo alto edifício do Seminário 
adjunto á Patriarchal, descobrimos as casas, as lojas e os 
palácios, tudo transformado em pavilhões, e armado de 
cima até abaixo de damasco vermelho, de tapeçarias, de 
colchas de setim, e de cobertas franjadas de luzente oiro. 
Julguei-me transportado ao acampamento do Grão-Mogol, 
tão pomposamente descripto por Rernier! v^J*- 

A frontaria da egreja estava ornada ainda com maior 
magnificência. Ergue-se ella no alto duma vasta esca- 
daria, guarnecida hoje pelos archeiros da Guarda Real com 
os seus ricos uniformes de velludo de cores e por uma 
multidão de sacerdotes cora uma deslumbrante variedade 
de pendões pintados e bordados: bandos de frades maci- 
lentos, com hábitos brancos, cor de castanha e pretos, 
vinham saindo dali successivamente. como perus conduzi- 
dos para o mercado. 

Demorando-se de mais esta parte do sagrado espectáculo, 
principiei a enfastiar-me, sai da sacada, onde estávamos 
muito bem collocados, e dirigi-me para a egreja. Celebra- 
va-se a missa pontifical com grande pompa; nuvens de 



n 



incenso subiam aos ares; e a luz de innumeras velas fazia 
scintillar os diamantes da custodia, que o Patriarcha elevava 
n'aquelle momento com tremulas e devotas mãos para rece- 
ber a mysteriosa hóstia. 

Antes de terminar a ceremonia voltei para a minha ja- 
nella, para gosar todo o conjuncto da saida do Sacra- 
mento. Tudo era espectação e silencio no povo. A guarda 
formara aos dois lados da escadaria em frente da porta da 
egreja. Uma chuva de flores e plantas aromáticas annun- 
ciou finalmente a approxiinação do Patriarcha, que trazia a 
hóstia sob um pallio real, circumdado pela nobreza, e pre- 
cedido por um extenso cortejo de figuras mitradas, com as 
mãos em posição de resar, varrendo o chão com os seus 
hábitos escarlates e côr de purpura, acompanhados pelos 
seus assistentes, empunhando os báculos, as cruzes e outras 
insígnias da grandeza pontifical. 

A procissão desceu vagarosamente a grande escadaria, 
ao som dos coros e do longiquo troar da artilheria, e des- 
appareceu na volta de uma rua ornada de tapeçarias bor- 
dadas, deixando-me aturdido e deslumbrado, como se des- 
pertasse duma visão de celestial esplendor! 

M'este momento ainda sinto vertigens, e latejam-me os 
ouvidos com os sons confusos das vozes, dos sinos e do 
echo da artilheria, repercutido pelos montes e trazido para 
terra sobre as aguas. . . 



V 



Jantar na casa de campo de Mr. Street — Sua mulher brazilei- 
ra— "Um banquete magnifico — Uma donzella trágica. 



11 de junho de 1787. 

Fomos convidados para jantar hoje no campo, em casa 
d" um gmtleman, cuja serie de nomes, proferidos com a ver- 
dadeira pronuncia portugueza, produz o som duma expe- 
ctoração. O nosso hospitaleiro amphitriâo é de origem 
irlandeza, e ostenta com vaidade os seus seis pés (T altura, 
a proporcional corpulência, a tez corada, as pernas hercú- 
leas, e todos os attributos exteriores, pelo menos, (Taquella 
emprehendedora raça, que tem muitas vezes a felicidade 
de fazer ricos casamentos. Ha um ou dois annos conquistou 
uma rica herdeira do Brazil, e hoje está senhor d'uma 
grande fortuna e duma mulher baixa e gorda com uma 
cabeça similhante á dos Holofernes das velhas tapeçarias, 
e uns hombros que representam exactamente umas traves- 
sas. Pobre creatura! Não é decerto nem uma Vénus nem 
uma Hebe, tem os beiços grossos e uma voz masculina, e 
até receio que ella tenha tendências para hydropica, mas 
os seus sorrisos são frequentes e sentimentaes, e ainda 
não esfriou o affecto que seu marido lhe inspirou. 



24 



Elle tem um caracter singular, não acceita emprego, nem 
civil nem militar, e affecta uma franqueza rude, que eu creio 
ha de desagradar muito neste paiz, onde a independência 
da fortuna ou dos sentimentos é um crime raras vezes 
ou nunca tolerado. 

Mr. Street ama a ostentação, e o banquete que nos offe- 
receu foi magnifico: — sessenta pratos pelo menos, oito 
assados fumegantes, e todos os guisados possiveis, fran- 
cezes, inglezes e portuguezes! O desserí representava uma 
fortaleza, e a torre principal atrevo-me a dizer que não 
tinha menos de três pés d' altura 1 

Os convidados é que não correspondiam nem em numero 
nem em qualidade ao esplendor do festim. Eu teria mor- 
rido de aborrecimento, se não me valesse ter por visinhos 
Miss Sill e Bezerra. Uma impertigada senhora com umas 
portentosas sobrancelhas e uns olhos que arguiam a falta 
de attenção dos convivas masculinos, era a única dama do 
palácio que Mr. Street tinha convidado. 

Esperava eu encontrar ali todo o rancho das minhas 
conhecidas do Jardim Botânico, e acompanhal-as pelos vinhe- 
dos e pomares de limoeiros que rodeiam esta villa } mas, ai 
de mim, não me estava destinada tão divertida excursão! 
A trágica donzella, que, segundo me disseram, tem sido 
infeliz nos seus amores, travou-me do braço, e nunca mais 
me largou durante um grande passeio pelos vastos domi- 
nios de Mr. Street! Conversámos em italiano, e fizemos aos 
passarinhos que estavam cantando, e aos murmuros rega- 
tos, muitos e delicados comprimentos ir uma espécie de prosa 
doida, reminiscência de operas e serenatas, da Aminta do 
Tasso e do Adónis de Marini. 

O sol despedia os seus últimos raios sobre os rochedos 



"2o 



longiquos de Cintra: o ar rescendia de aromas; os atalhos 
por entre as vinhas estavam atapelados de fresca relva, 
e as flores aos milhares sentiam-se reviver com o rocio da 
noite. 

Cedendo á senhora o apertado trilho, que atravessava 
aquellas regiões campestres, caminhei ao seu lado por um 
rego cheio de ortigas, cardos e áloes rasteiros, picando-me 
e arranhando-me a cada passo. Esta penitencia e o desapon- 
tamento, que eu sentia ainda mais dolorosamente, poze- 
ram-me de bem mau humor, e eu lamentava ter passado 
tão deliciosa tarde numa ruim companhia, lacerando as mi- 
nhas pernas por um tão insignificante motivo. Quanto eu 
teria gosado, correndo com a joven irlandeza por esses deli- 
ciosos atalhos de verdejantes trevos, entre festões de viço- 
sas folhas e plantas trepadeiras, não amarradas a hirtos 
postes e nodosas estacas, como na França e na Suissa, mas 
cnroscando-se e trepando pelas cannas a oito e dez pés 
d' altura ! 

Agrilhoado como estava, podeis imaginar se eu me sentia 
disposto a prolongar um passeio, que já se protrahira 
injustamente. Esquivei-me ao chá e á partida do voltarete, 
fiz uma solemne reverencia á solemne donzelona, e reti- 
rei-me antes do anoitecer. 



VI 



Um dia passado em casa dos Marialvas — Visita ao Mosteiro de Be- 
tem— Os aposentos do rei D. Manuel — Uma custodia d'oiro 
de primoroso lavor — A egreja — Fogueiras na margem do 
Tejo — Os fogos d'artifici'0. 

12 de junho de 1787. 

Passámos o dia em Belém, completamente em família, 
com toda a legião dos Marialvas. Alguns reverendos frades, 
não sei de que communidade, haviam-lhes mandado uma 
immensidade de pratos cobertos com uma sopa muito en 
chuta, glutinosa e gorda, que os fieis costumam devorar 
na véspera da festa de Santo António. 

Depois da collação, que foi servida debaixo dum toldo 
armado n : um dos terraços, e apenas o pude fazer decente- 
mente, escapuli-me da roda dos senhores, senhoras, anões, 
macacos, bobos, valentões e padres capellães, e fui visitar 
o mosteiro visinho. 

Subi as grandes escadas, construídas á custa da infanta 
D. Catharina, viuva do rei Carlos n, e depois de passear 
nos claustros de D. Manuel, passei a examinar a livraria, 
que não brilha nem pela boa disposição nem pelo asseio. 
Os altos e espaçosos claustros apresentam uma imponente 
serie de arcos, os quaes, apesar de não serem do mais puro 



27 



estylo, attraem a vista pelo delicado lavor dos seus ara- 
bescos e pelo tom quente e avermelhado do mármore. 
O corredor, para onde abre uma quasi interminável renque 
de cellas, tem uns bons quinhentos pés de comprimento, 
e em cada janella ha um commodo assento, onde os frades 
se recostam á sua vontade, e gosam a vista do Tejo. 

N'uma pequena e sombria casa-forte, communicando por 
uma escada de caracol com a parte do edifício onde a tra- 
dição diz terem sido os aposentos do rei D. Manuel, 
quando em certas épocas sagradas elle se recolhia n'aquelle 
mosteiro, mostraram-me, á luz das velas, algumas pratas 
muito curiosas, especialmente uma custodia, feita no anno 
de 1506, com o oiro puro de Quiloa. 

Não pode haver nada mais bello, como specimen de bem 
trabalhada esculptura gothica, do que esta complicada e 
esmaltada profusão de arcarias ligeiras e de cinzelados 
pináculos, com os doze Apóstolos nos seus nichos, debaixo 
dos dóceis formados por milhares de cordões. 

Deste escuro cubiculo conduziram-me á egreja — uma 
das maiores de Portugal — vasta, solemne e phantastica, 
como o interior do Templo de Jerusalém, que tenho visto 
representado nas velhas Bíblias allemãs, porém nos alta- 
res e túmulos pouco havia digno de minuciosa investigação. 
Cahia a noite quando cheguei ao grande pórtico, e achei 
o largo fronteiro começando a illuminar-se com o vivido 
clarão d'uma renque de fogueiras accesas á beira do Tejo. 
Gustou-me a chegar á minha carruagem, sem ser chamus- 
cado pelos buscapés e bombas, e desejei verme logo fora 
d'elia, porque as mulas espantaram-se furiosamente com 
um foguete, que lhes rebentou mesmo debaixo dos focinhos. 
Contava não dormir aquella noite, a não ser que um 



28 

milagre de Santo António me acalentasse o somno, tal era 
o estronclear dos fogos dartiíkio, o clarão das fogueiras e 
os toques de gaitas de folies, em honra do dia (Tamanha, 
o 555.° anniversario do memorável dia em que o Santo de 
Lisboa passou a gosar, por uma ligeira transição, as ale- 
grias do Paraizo! 

Profusamente adornada de flores, e alumiada com cirios 
e velas, vi a sua imagem á porta de todas as casas, e até 
nos alpendres e nas mais pobres barracas d'esta populosa 
capital. 



VII 



A nova egreja de Santo António — A musica alegre— Um sermão 
fanático — O bom Prior d' Aviz— Visita ao convento dos Cartu- 
xos de Caohias — Espectros monásticos — Notável imagem do 
Salvador— Um frade novo e triste — O cemitério. 



13 de junho de 1181. 

Dormi melhor do que esperava: o Santo foi-me propicio, 
e (Imante a noite fez esfriar o ardor dos seus devotos e as 
chammas das suas fogueiras com uma chuva vernal, cujo 
agradável ruido eu ouvia esta manhã sobre as folhas das 
parreiras do meu jardim. 

Ás oito horas já o ceu estava limpo de nuvens, e ás nove, 
quando eu subia as escadas da nova egreja, edificada no 
local da casa onde Santo António nasceu, o sol brilhava 
com todo o seu esplendor. 

Não posso dizer que este templo me trouxe á memoria 
o magnifico santuário de Pádua, que ha cinco annos e n'este 
mesmo dia tão profundamente me impressionara. Nao se 
vêem aqui constellações de lâmpadas d'oiro pendentes de 
brilhantes cadêas, suspensas de um mysterioso tecto abo- 
badado, nem escadas de alabastro,- nem mármores escul- 
pidos. A egreja é sustentada por duas ordens de columnas 
de pedra muito bem lavrada, mas de péssimas proporções. 



30 



Sobre o altar mór, em que se ergue a veneranda imagem 
no meio d uma brilhante illuminação, estava armado um 
docel de velludo lavrado. Esta tapeçaria com ricas franjas 
e borlas indica o local primitivamente occupado pelo quarto 
do santo, e recebe duma correnteza daltas janeilas envi- 
draçadas uma luz alambreada, realçando o oiro burnido da 

obra de tallia. 

D'entre a multidão que enchia a entrada do templo des- 
tacavam-se muitas e anafadas caras de inglezes, todos a 
olhar para o seu devoto compatriota, porém elle não estava 
disposto a sair da sua decente compostura. 

Foi muito pomposa a ceremonia. Um prelado da mais 
alta jerarchia, acolytado por um grupo de sacerdotes da 
Capella Real, offlciou ao som de alegres bailados e mages- 
tosos menuetes, mais próprios para acompanhar as danças 
de mancebos folgazões n'um pump-room, do que para diri- 
gir os movimentos dum pontífice e dos seus acolytos. 
' Depois de muita musica medíocre, tanto vocal como 
instrumental, executada a grande gallope no mais rápido 
allegro, subiu ao púlpito frei João Jacintho, famoso pre- 
gador, ergueu para o ceu os olhos e as mãos, e pronun- 
ciou uma torrente de sonoras phrases em louvor de Santo 

António. „, . . 

Quanto daria eu para ter uma voz assim?! Chegaria de 

Dan a Beersheba I 

Este sacerdote tem inquestionavelmente grandes dotes 
oratórios, e nem vislumbres d'aquella hypocrita e nasal 
lamuria tão commum na recitação dos sermões fradescos. 
Tratou com ineffavel despreso os reis, os tetrarchas, os 
conquistadores, os heroes e os sábios da antiguidade; redu- 
ziu a pó os seus palácios e as suas fortalezas; os seus exer- 



31 



eitos a formigas; as suas vestes imperiaes a tèas daranha, 
e incutiu em todo o seu auditório, á excepção dos heré- 
ticos motejadores que estavam á porta, a convicção mais 
completa da superioridade de Santo António sobre todos 
esses objectos duma errada e impia admiração. 

«Felizes — exclamava o pregador — eram esses tempos 
gothicos, falsamente alcunhados d"epoca de barbaria e de 
ignorância, quando os corações dos homens, não corrom- 
pidos pelas illusorias theorias philosophicas, se abriam para 
as palavras da verdade, que sabiam como mel da bocca 
dos santos e dos confessores : palavras como as que n'este 
mesmo logar estillavam dos lábios de António, ainda infante 
nos braços de sua mãe ! Foi aqui que o espirito do Todo 
Poderoso desceu sobre elle, aqui que elle concebeu a su- 
blime empreza de penetrar nas mais agitadas regiões da 
Europa, aff contando a inclemência das estações e a maldade 
dos homens, e derramando entre os povos mais rudes os 
germens do perdão e do arrependimento} 

Ali está a porta, por onde elle saiu. 

Não o vedes, sob o habito dum menino do coro, sorrindo 
com todas as graças da innocencia, e distribuindo com as 
suas mãos infantis a um grupo de esquálidas creanças o 
alimento, que acabava de receber de sua mãe?í 

É que António desde o primeiro alvorecer da sua exis- 
tência não viveu para si, viveu para os outros: elle fugiu 
até aos prazeres da meditação, e em vez de se retirar para 
uma tcanquilla cella, arremeçou-se ao mundo, sem auxilio, 
sem protecção, erguendo alto o estandarte da Cruz entre 
os perigos e o tumultuar das paixões, apasiguando guerras, 
serenando contendas publicas e domesticas, exhortando 
com risco de sua vida os ladrões e salteadores a restitui- 



32 



rem o que haviam roubado, e os avarentos ferozes, que 
guardavam os seus thesoiros com espadas ameaçadoras, a 
abrirem os corações e as mãos em soccorro da miséria dos 
orphãos e das viuvas! 

Suspirou sempre António pela coroa do martyrio, e por 
muito tempo alimentara o desejo de passar a Marrocos, c 
expor-se á fúria do seu fanático e cruel soberano; mas as 
ordens dos seus superiores detem-o no momento em que 
vae embarcar : faz o sacrifício da sua mais louvável e glo- 
riosa ambição, atravessa a Hespanba, torna a apparecer 
em Assisi, abraça a rigorosa ordem do grande S. Francisco, 
e até á sua ultima hora continua a administrar a conso- 
lação aos afílictos, fortalecendo as suas esperanças no ceu, 
e alentando a fé dos hesitantes e dos desenganados com 
uma serie de prodígios I 

Resuscitam os mortos, curam-se os doentes, o volver 
dos seus olhos faz serenar as tempestades, e até as mais 
Ínfimas creaturas são attrahidas pela sua eloquência sòbre- 
humana, e dão provas de sensibilidade! Os peixes vem em 
cardumes ouvir a palavra do Senhor, e para- convencer os 
obstinados e perversos, cujos corações a falsa philosophia 
do mundo tem endurecido, as mulas e os mais renitentes 
animaes humilham-se até ao chão, quando António leva o 
Sacramento, e reconhecem d'este modo a presença da 

Divindade!» 

Terminado o sermão, recomeçou o rabequear com redo- 
brado vigor, e eu, aborrecido de tâo indecente leviandade, 
retirei me para casa zangado. A amável presença do bom 
Prior cVAviz dissipou rapidamente esta ligeira nuvem de 
rabugice: não existe talvez em todo o mundo um caracter 
mais benigno e evangélico, que glorifique a Deus com 



33 



menos ostentação, e sinta mais desaffectada benevolência 
pela humanidade. 

Este excellente prelado tinha passado o dia, não a figu- 
rar em pomposas ceremonias, mas consolando os enfermos, 
soccorrendo os indigentes, e subindo ás suas miseráveis 
pousadas, para os auxiliar em nome do Santo que se fes- 
tejava, e cuja fama de caridade e de beneficência os habi- 
tantes de Lisboa transmittiram de pães a filhos, atra vez 
de uma longa serie de gerações. 

A nossa conversação nao foi tal que me inclinasse a pre- 
sencear mais pompas e vaidades. Puz de parte a idéa de 
ver a procissão, que havia de passar pelas ruas da cidade, 
e, acompanhado pelo meu reverendo amigo, gosei a sere- 
nidade da tarde na praia de Belém. Quando passámos pelo 
palácio dos Marialvas parámos, e fizemos subir para a car- 
ruagem D. Pedro e o seu aio, o velho Abbade, que nos 
propoz uma visita ao convento da Cartuxa cie Cachias. 

Meia hora depois apeavamo-nos defronte da egreja, que 
defronta com a Quinta Real, e éramos introduzidos n uma 
solemne e silenciosa quadra. Alguns espectros da ordem 
escoavam-se pelos claustros que vinham dar a este pateo, 
no centro do qual ha uma fonte de mármore, ensom- 
brada por pyramides de buxo tosquiado, tendo em volta 
sete ou oito capellinhas, uma das quaes contém uma ima- 
gem colorida do Salvador, nas ultimas e medonhas agonias 
da Paixão, coberta de lívidas chagas e de sangue pisado. 

Emquanto estivemos examinando esta demasiado fiel ima- 
gem, alguns dos monges, com permissão cio seu superior, 
rodearam-nos, e um deites, alto e duma pbysionomia 
interessante, attrahiu-me a attenção pela funda melan- 
colia que lhe transluzia no rosto. Perguntei quem era: 



34 



responderam-me que tinha apenas vinte e dois annos, per- 
tencia a uma família illustre, e possuia brilhantes talentos, 
mas a causa immediata delle ter procurado esta mansão 
do silencio e da mortificação, essa é que o Grão-Prior não 
pareceu disposto a communicar-me. 

Não pude deixar de observar— quando a victima estava 
defronte de mim, e eu encarava o sol poente, que doi- 
rava as arcadas do claustro — quantos soes elle havia de 
contemplar illuminando com os seus raios aquellas paredes, 
e que longa e fatigante serie de annos elle se havia prova- 
velmente devotado a consumir dentro d'aquelle encerro! 

Encheram- se de lagrimas os olhos do bom Prior, Verdeil 
estremeceu horrorisado, e o Abbade, esquecendo-se do 
papel supersticioso que elle geralmente representa nos 
logares religiosos, pronunciou-se em alta voz contra a tole- 
rância dos sacrifícios humanos e a loucura cie permittir que 
renunciem ao mundo aquelles, cuja mocidade os inhabilita 
para avaliarem devidamente os seus pesares e as suas van- 
tagens! Em quanto a D. Pedro, o seu caracter serio ainda 
mais melancólico ficou com a vista dos objectos que nos 
rodeavam. 

O ar frio, que vinha d'uma cerca com arcadas, onde se 
enterram os frades, e cujo pavimento de lagedo dava um 
som cavo, quando iamos caminhando por elle, encheu-o de 
horror. Era a primeira vez que entrava num convento de 
Cartuxos, e surprehendeu-me que elle parecesse ignorar 
as severidades d'aquella ordem. 

Tinha já desapparecido o sol, quando subimos para a 
carruagem, e a nossa conversação durante todo o caminho 
resentiu-se da impressão que nos inspirara o espectáculo 
que acabávamos de contemplar. 



VIII 



Uma curiosa serie de visitas — Um doutor seraphico — Monsenhor 
Aguilar — Um bando de velhas bruxas, rapazes e mendigos 
esfarrapados — Visita ao theatro da Rua dos Condes — O Arce- 
bispo Confessor — Modinhas brazileiras — Encantos d'aquella 
musica — Procissões nocturnas — Devoção do joven conde de 
Viila Nova — Os gostos são livres. 



14 âe junho de 1181. 
Coube-me por sorte esta tarde receber uma curiosa serie 
de visitas. Foi a primeira o marquez cie Pombal, que me 
pareceu cançado pelos prazeres e vigílias, mas que se apre- 
senta com um desembaraço e elegância de maneiras raros 
n*este paiz. Possue uma das maiores casas do reino — as 
suas propriedades rendem-lhe próximo de cento e vinte 
mil cruzados — e, apesar disso, quiz convencer-me de 
que o seu temido pae — o açoite e o terror das mais nobres 
familias de Portugal, e durante muitos annos o único dis- 
pensador do Real Erário — morreu em más circumstancias, 
carregado de dividas, contrahidas para sustentar a digni- 
dade da sua posição ! 



36 



A pessoa que em seguida me honrou com a sua visita, 
foi João Telles, juiz conservador da Feitoria ingleza, e 
parente, não sei bem se legitimo ou illegitimo, dos Pe- 
nalvas. Este homem, que subiu a um dos mais altos toga- 
res da magistratura só com o auxilio dos seus mereci- 
mentos, tem um modo de se expressar nervoso e original, 
que me trouxe á memoria Lord Thurlow; mas ao vigor do 
seu caracter e da sua eloquência, allia elle a flexibilidade 
e a subtileza da cobra, e aos que não pode tomar de assalto, 
tem a certeza de os vencer com todos os melifluos artifícios 
da lisonja e da insinuação. 

Apenas elle tinha sahido, entrou um par de frades com 
uma cesta de doces envolvidos em papel recortado, enviados 
por uma boa senhora abbadessa, que me pedia para eu 
dotar duas interessantes virgens, que iam ser esposas do 
Senhor, n'um mosteiro aqui próximo. 

Ainda bem não estavam despedidos estes, já era intro- 
duzido o padre Theodoro d' Almeida, acompanhado por ou- 
tro da mesma congregação. Não se lhes via senão o branco 
dos olhos, e nem o próprio Whitfield, o original doutor 
Squintum, de Foote, teria posto os olhos em alvo mais 
scientificamente ! 

Escutei com a maior attenção o seraphico discurso do 
padre Theodoro dAlmeida: não era para despresar tão 
excellente opportunidade de ouvir um espécimen de pri- 
meira ordem da linguagem hypocrita. 

Apenas os padres foram reconduzidos com a devida 
ceremonia, annunciaram-me Monsenhor Aguilar, um dos 
prelados da Patriarchal, que me confirmou na opinião que 
eu formava do padre Theodoro. Ninguém pode accusar de 
hypocrita Monsenhor Aguilar, é até franco de mais, e trata 



37 



a Egreja, de quem recebe um bello rendimento, não como 
uma protectora, mas como uma humilde companheira, o 
alvo e o constante assumpto dos seus sarcasmos. Em 
Portugal, ainda mesmo neste armo de 1787, é loucura 
proceder assim, e eu receio vel-o mais dia menos dia 
exposto a uma severa perseguição. 

Saboreávamos pacificamente o chá, quando fomos des- 
pertados por uma grande algazarra na rua, e correndo á 
varanda demos com um grosseiro magote de velhas bruxas, 
rapazes e mendigos andrajosos, trazendo á sua frente meia 
dúzia de tambores, e outros tantos pretos de vestias encar- 
nadas, tocando trombetas com uma vehemencia insólita, e 
apontando-as directamente para a minha casa! 

Estava eu admirando este modo de pôr cerco ás portas 
alheias á moda de Jerichó, e recuara um pouco para evitar 
ser queimado por um foguete, que me zuniu a uma polle- 
gada do nariz, quando um dos meus creados entrou com 
um crucifixo n'uma salva de prata e uma amabilissima 
mensagem das freiras do convento do Sacramento, que 
enviavam os seus músicos com tambores e foguetes, a 
coiividar-nos para uma grande festa no seu convento, em 
honra do Coração de Jesus. 

Estas festas de egreja principiavam, realmente, a perder 
para mim uma grande parte do encanto que lhes dera a 
novidade, e eu sentia-me já farto de motetes, de kirieeleisons, 
de incensos, de doces e de sermões. 

Aquelle herege do Verdeil, que preferia ir para o inferno 
por uma vez a estar neste ceu tão farto, não me quiz 
deixar emquanto não fui com elle ao theatro da rua dos 
Condes, com o fim de dissipar n'aquella atmosphera pro- 
fana os fumos de tanta santidade. 



38 

A representação enfadou-me mais do que me divertiu. 
O theatro é baixo e estreito, e os actores — aqui não ha 
actrizes— estão abaixo de toda a critica. Tendo as ordens 
absolutas de Sua Magestade varrido as mulheres da scena, 
os seus papeis são representados por jovens palermas do 
sexo feio. 

Julgae o agradável effeito que deve produzir esta meta- 
morphose, especialmente no corpo de baile, onde a gente 
vê uma alentada pastora, vestida de branco como uma vir- 
gem, com a barba azulada e a proeminente clavícula, segu- 
rando um ramalhete com uma manopla capaz de derrubar 
o gigante Goliath, e uma comitiva de camponezas leiteiras 
accompanhando as suas enormes pernadas, e levantando a 
cada passo as saias até acima da cabeça! Meneios, saltos 
e um tregeitear d' olhos como este, é que eu nunca vi, nem 
espero tornar a ver 1 

Achavamo-nos já profundamente enfastiados da repre- 
sentação, ainda ella não ia em meio; a noite estava serena 
e agradável; lembrou-nos dar uma volta até ao Terreiro do 
Paço, vagamente alumiado pelas luzes das salas do Palácio, 
cujas janellas estavam todas abertas por causa do calor. 
N'uma das sacadas ostentava a volumosa figura o Arce- 
bispo Confessor. Este, actualmente, importantíssimo perso- 
nagem era um camponio, que assentou praça de soldado- 
raso; de soldado passou a cabo de esquadra, de cabo de 
esquadra fez-se frade, e nesta qualidade deu tantas provas 
de tolerância e bom humor, que o marquez de Pombal, to- 
pando-o por um d'esses acasos que desafiam todos os cál- 
culos, julgou-o sufficientemente astuto, jovial e ignorante 
para fazer delle um inoffensivo e commodo confessor de 
Sua Magestade, então Princeza do Brasil, e depois da sua 



39 



ascensão ao throno foi nomeado Arcebispo, in partibus, 
e Inquisidor-Mór, e vein a ser a mola principal do actual 
governo. 

Nunca vi sujeito mais grosseiro do que elle. Parece 
banhar-se em agua de rosas, e ri e engorda, apesar da 
critica situação dos negócios do paiz, e dos justos receios 
que os verdadeiros patriotas nutrem de o verem outra vez 
reduzido a província hespanbolaf 

Logo por cima da fronte luzidia de Sua Revd. raa desco- 
brimos numa janella as duas formosas irmãs Lacerdas, 
damas de honor da Rainha, convidando-nos por acenos a 
que subíssemos. Deu-nos isto o valor sufficiente para ascen- 
dermos muitos lanços d' escadas até ao seu aposento, que 
estava cheio de sobrinhos, sobrinhas, e primos, fazendo 
roda a duas elegantes meninas, as quaes, acompanhadas 
pelo seu mestre de canto — um frade gordo e baixo, de olhos 
esverdeados — garganteavam modinhas brazileiras. 

Os que nunca ouviram esta espécie original de musica, 
ficarão ignorando as mais feiticeiras melodias, que teem 
existido desde o tempo dos sybaritas. Consistem ellas em 
compassos languidos e cortados, como se o excesso do 
arroubamento nos suspendesse a respiração, e a nossa 
alma anbelasse encontrar a alma soror d'algum objecto 
amado; insinuam-se no coração com uma descuidosa inno- 
cencia, antes delle ter tempo de se armar contra a sua 
enervadora influencia; imaginaes estar bebendo leite, e o 
veneno da voluptuosidade é que vae penetrando nos mais 
fundos recessos do vosso ser! É isto, pelo menos, o que 
acontece aos que sentem o poder da harmonia : não res- 
pondo pelos surdos e fleugmaticos animaes do norte. 

Passámos quasi insensivelmente uma ou duas horas n r esse 



40 



delicioso devaneio, que aquelle canto de sereias nos inspi- 
rava, e foi com pesar que vimos dispersar-se a sociedade 
e quebrar-se o encanto. As donas da casa, tendo recebido 
ordem para assistir a ceia de Sua Magestade, cortejaram-nos 
graciosamente e desappareceram. 

Quando voltávamos para casa encontrámos o Sagrado 
Viatico, envolto n'um resplendor de luzes e com grande 
acompanhamento: ia fazer a derradeira visita a algum 
enfermo, e era o conde de Villa Nova — depois marquez 
d' Abrantes — quem precedia o pallio com uma capa encar- 
nada, e tocando uma campainha de prata. 

O conde nâo abandona nunca as sagradas partículas, e 
passa a flor dos seus dias n'esta singular corte ao divino. 
Nunca houve amante tão cioso da sua amada, como este 
ingénuo moço o é da sua campainha: nâo consente que 
ninguém mais a ponha em vibração. Os mesarios da paro- 
chia do vasto e populoso districto em que está situado o seu 
palácio, toleram-lhe este capricho, em attenção ao seu nas- 
cimento e opulência, e na verdade elles não poderiam en- 
tregar a campainha em melhores mãos. Assíduo no des- 
empenho d'aquelle serviço, a qualquer hora que seja e 
com todo o tempo, elle está sempre prompto para cum- 
prir o seu santo mister, e, quer seja por alta noite ou no 
mais intenso calor do dia, elle sae á rua, e aqui desce a 
um subterrâneo, e acolá trepa a uma agua-furtada, onde 
reclamem os soccorros espirituaes. 

Tem-se dito e redito muita vez, que os gostos são livres. 
Cada um tem o seu, que satisfaz como melhor pode e sabe. 
O prazer do velho Marialva está concentrado entre as suas 
duas frasqueiras de prata ; o do Marquez, seu filho, consiste 
em estar sempre á espera da Rainha, e o do Conde de Villa 



41 



Nova é annunciar com a sua campainha a todos os verda- 
deiros crentes a approximação da celestial Magestade. 

A actual mania do escrevinhador d'estas extravagâncias 
sâo as modinhas, e sob a sua influencia sente-se elle meio 
tentado a embarcar para os Brazís — pátria d'essas encan- 
tadoras melodias; viver lá em barracas, como as que o 
cavalheiro de Parny descreve na sua deliciosa viagem, e 
balouçar- se nas redes ou deslisar sobre macios coxins, cer- 
cado de bandos de juvenis cantores, espargindo a cada 
passo o perfume das rosas e dos jasmins. 



IX 



O calor excessivo de Lisboa — Vozes nocturnas da cidade — Festa 
publica no jardim do conde de Villa Nova — Visita ao palácio 
do marquez de Angeja — O herdeiro da casa — Narrações mara- 
vilhosas d'um joven padre — Convento de freiras saboyanas- 
As pupillas do padre Theodoro d'Almeida — O grupo das for- 
mosas inclausuradas — O canto da Scarlatti. 



29 de junho de 1787. 

O esplendido sol com que ultimamente temos sido con- 
templados, não obstante a sua magnificência, principia a 
cançar-me. Vinte vezes por dia sinto um vehemente desejo 
de estar deitado ao comprido em qualquer pradaria verde 
dum ensombrado valle da Inglaterra, onde as fadas revo- 
luteiam no crepúsculo das calmosas noites de verão, segre- 
dando aos ouvidos dos seus dormentes favoritos a boa ou 
má fortuna que os espera. Não é este calor propicio em 
Portugal a esses gentis e feiticeiros oráculos, e ninguém 
deve esperar as suas inspirações, mas prouvera a Deus que 
alguma revelação d'esta ou doutra natureza me tivesse 
avisado a tempo da poeira que nos cega e do excessivo 
calor de Lisboa e seus subúrbios! Quão dementes são os 



que, estando bem e em socego, se arrojam a peregrinações, 
movidos da vã esperança de melhorar o que já é óptimo f 
Crede que as nossas mattas e montes relvosos teem mais 
vernaes encantos do que todos estes rachiticos olivedos e 
adustos promontórios. 

Nós temos um ditado caseiro — o que é veneno para um 
homem e delicioso manjar para outro — e é bem verdade: 
estes dias e estas noites de intenso calor, que eu não posso 
supportar, os habitantes dessa capital encarecem-as e deli- 
ciam-se com ellas. 

O calor não só parece ter requintado o veneno dos fer- 
rões das moscas e dos mosquitos, mas também tem feito 
sair para a rua todos os ephemeros humanos de Lisboa: 
desde o nascer até ao pôr do sol não fazem outra coisa 
senão saltar, dançar e tocar guitarra! Os cães também 
ladram e uivam sem parar: isto junto ao clamor das ladai- 
nhas das procissões parochiaes nocturnas, ao esfusiar dos 
fogos de artificio, que os devotos queimam continuamente 
em honra de um ou outro membro da hierarchia celestial, 
e ás altercações dos bulhentos vadios, que percorrem as 
ruas em busca de aventuras, faz com que não seja possível 
pregar olho, ainda que o calor o permittisse. 

Quanto a esses silenciosos encontros nocturnos, em que 
ingénuos rapazes descançam a cabeça, não no seio da 
terra mãe, mas no collo das amantes, occupadas em 
libertar suavemente as negras guedelhas dos seus amores 
d'uma excessiva população, nada tenho a dizer contra isso, 
nem me incommoda muito o som da queda d^lgumas coi- 
sas atiradas das janellas; mas o uivar dos cães excede tudo 
o que tenho soffriclo, e dá-me um antegosto aproximado 
das regiões infernaesl 



Nâo pensando ninguém agora senão em divertimentos e 
galhofa— celebrar a festa de S. Pedro com o maior estrondo 
e extravagância possível nâo é só um prazer profano, mas 
um pio dever — aquelle simplório do conde de Villa Nova 
abriu na noite passada os seus jardins á aristocracia e á 
canalhocracia de Lisboa. A illuminação com lanternas de 
papel era fraca, e havia um pavilhão pouco elegante para o 
baile, onde figuraram as mais bonitas modistas, capellistas 
e governantas francezas e inglezas da metrópole em cotil- 
lons com o duque de Cadaval e outros mancebos da mais 
alta nobreza, os quaes, assim como outros tão esperançosos 
da nossa Londres, não estão nunca á sua vontade senão em 
baixa companhia. Dois ou três dos meus creados foram 
com o meu alfaiate á festa, e voltaram encantados com a 
affabilidade e graciosas maneiras das capellistas extran- 
geiras e da nobreza indígena. 

Eu preferia ficar em casa, á sombra dos meus transpa- 
rentes verdes, preguiçando, e ouvindo algumas tolices que 
me quizessem dizer, porém estávamos ha muito convidados 
para jantar com D. Diogo de Noronha, no palácio de 
Angeja. 

Quando ali chegámos encontrámos o herdeiro da casa 
rodeado de frades e aios, aprendendo a estar á janella, 
principal occupação da vida dos fidalgos portuguezes. 

Que preciosa collecção de historias ouvi nesse attico ban- 
quete! Aconteceu achar-se entre os convivas um padre 
novo e idiota, vindo não sei de que Universidade — espero 
que não seja a de Coimbra — que durante todo o jantar nos 
favoreceu com maravilhosas narrações, taes como a de a 
Rainha ter moido uma pérola de grande valor para a tomar 
como remédio, e a d'uma freira do convento do Sacra- 



45 



mento, que, por causa duma intriga amorosa com Belzebuth 
in própria persona, havia sido mandada para a Inquisição, 
tapando-se e pintando-se com cruzes vermelhas a janella 
por onde sua infernal magestade costumava entrar, em- 
quanto durou esta aventura; e acrescentou que se appli- 
cara a mesma decoração preventiva a todas as janellas da 
frontaria, de forma que nenhum demónio, por mais subtil 
e vivo que fosse, podesse lá entrar! Fingiu elle também 
ter-nos feito acreditar que uma formosíssima e nédia mulher, 
com uns seios ubérrimos, e que se encarregava de crean- 
ças de peito mais barato do que nenhuma outra, lhes dava 
sumisso, e jazia agora nos cárceres do Santo Officio, accu- 
sada de ter cortado em bocadinhos mais de vinte innocentes! 

Não permitta Deus que eu mencione outros pormenores 
ulteriores da nossa conversação á mesa: se o fizesse, fica- 
ríeis satisfeito até á saciedade. 

Depois do jantar a sociedade dispersou-se. Uns foram 
deitar-se, outros ouvir uma sonata de psalterio acom- 
panhada a birimbau, e executada por dois anões; o futuro 
herdeiro foi para a sua querida janella: eu e Verdeil diri- 
gimo-nos a um convento de freiras saboyanas, em Belém, 
o mais fresco e aceiado retiro de toda a circumvisinhança, 
e ainda por cima protegido pelo especial patrocínio e 
inspecção do Padre Theodoro de Almeida. Abaixo da Pro- 
videncia, parece que foi Sua Revd. ma o instrumento prin- 
cipal da transplantação d'estas abençoadas vergonteas de 
santidade do convento da Visitação, de Annecy, para o 
ardente clima de Portugal. 

Gomo eu tinha acabado de receber d'este modelo de pie- 
dade uma assucarada epistola, recommendando o seu insti- 
tuto favorito em muitas paginas de fervoroso panegyrico, 



46 



o menos que elle ponde fazer foi sair do sen ninho interior, 
e dar-nos as boas vindas com o rosto aberto no mais doce 
dos sorrisos, posto que eu me atreva a dizer que o padre 
nos dava ao diabo, nós e a nossa visita. 

-Pobres creaturas- disse elle, faltando das pupúlas 
educandas naquelle redil-nós fazemos quanto é poss.vel 
para aperfeiçoar as suas tenras inlelligencias e a sua língua 
innocente nas línguas exlraugeiras, Soror Thereza tem 
uma habilidade admirável para ensinar a anthmetica; a 
nossa venerável Madre é muito instruída em grammat.ca, 
e soror Francisca Salesia, que eu tive a felicidade de tra- 
zer de Lyon, não só é uma puríssima e persuasiva mora- 
lista mas é conhecida por uma das primeiras agulhas da 
Cbristandade, e por isso trabalhamos aqui soffr.velmente 
em bordados. Em musica não somos muito fortes. Nao per- 
mittimos modinhas, nem árias da opera: um canto-cl.ão é 
tudo o que podeis esperar. Em summa, não somos dignos 
de receber tão distinctos visitantes, e não temos nada do 
que o mundo chama interessante, para nos recommendar; 
porém, eu, seu indigno confessor, devo dizer que tão sua- 
ves e límpidas consciências, como as que encontro heste 
asylo, são thesoiros superiores a todos os que a índia nos 

pode enviar. 

Verdeil e eu, ambos cônscios da nossa própria e extrema 
indignidade, ficámos inteiramente anniquilados por esta 
sublime declamação, recitada com as mãos cruzadas no 
peito e os olhos erguidos para o tecto, como as imagens 
que se vêem de Santo Ignacio ou de S. Francisco Xavier. 

Passou-se pelo menos um minuto antes que sua Revd. 
mudasse de altitude, e, correndo uma cortina, condescen- 
desse em admittir-nos num espaçoso locutório, duma ires- 



47 



cura deliciosa., perfumado de jasmins, e cheio de papagaios, 
pombinhos do Brazil e canários. 

Só no Paraíso de Mahomet se poderiam ouvir mais 
suaves arrulhos e gorgeios: as houris tão pouco faltavam, 
porque atravez d'uma grade pouco apertada vimos sentadas 
numa comprida sala, em fileira, as mais encantadoras 
creaturas que meus olhos teem contemplado. Entre ellas 
estava uma filha do meu amigo D. José de Brito, e os seus 
olhos, da mais feiticeira meiguice, pareciam ainda mais fas- 
cinadores, fulgurando, por detraz d'uma dupla grade de 
ferro, n aquelle mysterioso crepúsculo. 

Por vezes as aves, sem receio dos olhos ameaçadores do 
Padre Theodoro violavam o sanctuario, poisavam em eól- 
ios de marfim, e eram recebidos com mil caricias pelos 
anjos encerrados n'aquelle pequenino ceu, que pareciam 
tão serenos, e formavam pela sua divina tranquillidade um 
tal contraste com o turbulento mundo exterior e a sua des- 
lumbrante atmosphera, que eu não pude deixar de excla- 
mar: Oh! tivesse eu azas como os pombos, para voar atra- 
vez d'essas grades, e ficar ahi para sempre í 

Não preciso dizer-vos que passámos ali deliciosamente 
meia hora, conversando com as meninas sobre musica, jar- 
dins, rosas, e devoção, e quasi nos esquecemos de que 
estávamos convidados para ouvir cantar a Scarlatti. Seu 
pae, um velho capitão de cavallaria, de procedência ita- 
liana, reside próximo do convento da Visitação, de modo 
que não tivemos muito tempo para avaliar a medonha diffe- 
rença entre a frescura do locutório das freiras e o ar asphy- 
xiante da rua. 

Um numeroso grupo de parentes das senhoras da casa 
esperava á porta da rua com toda a hospitaleira cortezia, 



que tão notavelmente distingue os portuguezes, para acom- 
panhar os forasteiros, e introduzil-os n'uma galeria for- 
rada de pannos d' Arras e espelhos com placas, um pouco 
similhante ao salão d'uma osteria italiana, outr'ora palácio 
d'alguem nobre '. Para estas recordações de casa de posta 
concorreram os fortes effluvios da cavallariça, e uns certos 
relinchos e bater de patas que ouvimos, como se uma com- 
panhia asinina tivesse vindo também para tomar parte no 
concerto. 

Estavam ali reunidas muitas figuras e rostos estra- 
nhos, indigenas d'ambos os sexos — uma assembléa bas- 
tante singular, segundo conjecturo — todavia em breve dei- 
xei de lhes prestar a menor attenção. A filha do dono da 
casa encantara-me logo á primeira vista com o seu porte 
gracioso e modesto, porém quando cantou algumas árias, 
compostas pelo famoso Peres, então foram eguaes em mim 
o prazer e a surpreza! 

A sua voz modula com a mais desaffectada naturalidade 
as mais patheticas inflexões, e apesar de ter adoptado o 
estylo magistral e scientifico de Ferracuti, um dos primei- 
ros cantores da Capella Real, ella interpreta com uma tal 
simplicidade de expressão os mais difficeis trechos, que 
parece estarmos ouvindo as expansões lyricas duma joven 
romântica na solidão recôndita dalguma floresta! 

Sentei-me num recanto pouco illuminado, sem consciên- 
cia do que se passava na sala, nem das physionomias 
estranhas que entravam e saíam: os espantos, os segredos, 



1 Beckford percorreu a Itália em 1780. e também nos deixou as suas im- 
pressões de viagem n'uma serie de interessantíssimas e primorosas cartas, 
Recommendamol-as aos estudiosos, que quizerem conhecer a sociedade ita- 
liana dos fins do século xvm. 



49 



e os colloquios por detraz do leque, eram tudo coisas indif- 
ferentes para mim : eu não podia proferir uma syllaba, e 
fiquei incommodado, quando uma avó impertinente insistiu 
para que não se cantasse mais, e propoz o jogo do faro * e 
a dança. 

O que eu sobre tudo ardentemente desejava era, que 
algum amável nigromante petrificasse n'aquelle momento 
todos aquelles parentes e os seus amigos, e faria tudo, e 
até mesmo me daria a mim próprio a Satanaz, para conti- 
nuar a ouvir a sereia até ao amanhecer! 



1 O texto diz faro-table: cremos que o jogo era o que es francezes cha- 
mam pharaon. 

4 



Altos e baixos de Lisboa — Pretas bruxas — A quinta de Marvilia 

— Lisboa vista ao luar— As janellas illuminadas do Palácio — 
O velho marquez de Penalva — O Padre Duarte, famoso jesuita 

— Conversação d'este com um presumido medico — Sua ridicula 
Aduladores — Sonatas — Mcnuetes portuguezes. 



80 de junho de 1787. 

Depois do jantar sahimos a fazer visitas. Nunca vi tâo 
cruéis altos e baixos, tâo Íngremes subidas e tâo declives la- 
deiras, como a gente encontra a cada passo, quando anda 
por Lisboa. Mais de cincoenta vezes me julguei prestes a 
cair ao Tejo, ou a ser precipitado em covões d'areia, entre 
sapatos velhos, gatos mortos, e bruxas pretas, que se 
escondem n'essas cavernas e covis, para ahi lerem as sinas 
e venderem feitiços contra as febres! 

A Inquisição lança muitas vezes a garra a estas desgra- 
çadas sibyllas, e tortura-as abominavelmente. Vi arrastar 
uma para a rua, quando eu passava pelas minas dum 
palácio derrubado pelo terremoto. Nâo posso dizer se era 
algum familiar da Inquisição, que lhe deitara a unha, ou 
algum crente burlado, que lhe estava pedindo contas. Fosse 



51 



o que fosse, julguei me feliz, quando desappareceu da minha 
vista aquella hedionda creatura, cujos uivos e contorsôes 
eram verdadeiramente horríveis. 

Quanto melhor se conhece Lisboa, menos esta cidade 
corresponde á expectação provocada pelo seu magnifico 
aspecto, quando vista do rio. Se um viajante podesse ser 
transportado, repentinamente e sem prevenção, a muitos 
pontos da cidade, concluiria com rasão que tinha atraves- 
sado uma serie de aldeias grosseiramente unidas entre si, 
e dominadas por massiços conventos. As egrejas, em geral, 
são de péssimo gosto architectonico, o gosto de Borromini, 
com as molduras recortadas, e as repolhudas cornijas e 
torrinhas, um pouco no estylo dos antigos armários de reló- 
gio, que Boucher desenhava com muitos arrebiques e flo- 
reados, para adornarem os aposentos de m. me de Pom- 
padour. 

Esta tarde atravessámos a cidade em todo o seu compri- 
mento, dirigindo-nos ao palácio do duque de Lafões, e 
dêmos a um grande numero de súbditos de Sua Mages- 
tade Fidelíssima a opportunidade de admirarem a altura 
da caixa da carruagem, a jaqueta curta do cocheiro, e ou- 
tros anglicismos da nossa equipagem. O duque tinha sido 
chamado ao Conselho d'estado, mas encontrámos em casa 
o marquez de Marialva, que nos andou mostrando os apo- 
sentos do palácio, que não teem nada notável, excepto uma 
ou duas salas de bellas e imponentes porporções. 

O marquez oífereceu-se para nos acompanhar á quinta 
de Marvilla, a meia milha cTali, e que pertence a seu 
pae. 

Esta propriedade tem grandes bellezas pittorescas. Ma- 
gestosas arvores seculares inclinam-se sobre fontes em 



52 



ruinas e estatuas mutiladas de heroes armados, a que os 
aimos deram todos os seus innumeraveis tons vermelhos, 
azues e amarellos. Do meio de quasi impenetráveis bal- 
sas de buxo e murta erguem-se estranhas pyramides de 
conchas, rodeadas de leões de mármore de apparencia 
magica e symbolica. Marialva possue a delicadeza de sen- 
timentos bastante para respeitar estes grosseiros monu- 
mentos d'uma época, em que os seus antepassados levaram 
a cabo tão heróicas façanhas, e logo me prometteu não os 
sacrificar, nem as venerandas sombras que elles habitam, 
ao petulante e faustoso gosto dos modernos jardins por- 
tuguezes. 

Parte do nosso trajecto, na volta para casa, foi feito ao 
sereno clarão da lua cheia, que se erguia detraz das mon- 
tanhas do outro lado do Tejo, que tem, n'este extremo da 
metrópole, mais de nove milhas de largo. Lisboa, que horas 
antes me parecia tão pouco interessante, assumiu um ou- 
tro aspecto ao doce raiar da lua. As escadarias, os ter- 
raços, as capellas, e os pórticos de muitos conventos e 
palácios, á beira do rio, alvejavam como se fossem de már- 
more branco, emquanto as rudes encostas e os seus mise- 
ráveis tugúrios, erguendo-se, ao fundo, acima d^lles, se 
perdiam na densa escuridão. 

O Terreiro do Paço estava, quando nós o atravessámos, 
cheio de ociosos de todas as classes e sexos, olhando 
com curiosidade para as janellas illuminadas do palácio, 
á espera de verem de relance a Rainha, o Príncipe, as 
Infantas, o Confessor, ou as Damas de honor passar rapi- 
damente de um aposento para o outro, dando largo as- 
sumpto a interessantes conjecturas. Dizem-me que o Con- 
fessor, apesar d'um pouco adiantado em annos, está longe 



53 



de ser insensível aos attractivos da belleza, e ainda per- 
segue as jovens nymphas do paço de janella em janella 
com um ardor juvenil. 

Tinham já dado nove horas, quando chegámos a casa, e 
havia pouco que descançava do meu passeio, depois de dis- 
por algumas plantas, que trouxera da matta de Marvilla, 
quando três espaçados toques de sineta me annunciaram a 
chegada dalgum distincto personagem: não me enganei, 
porque era o velho marquez de Penalva e o seu filho, que 
ainda ha um anno, quando a Rainha lhe concedeu o mesmo 
titulo de sen pae, se chamava conde de Tarouca. 

Deveis ter ouvido fallar muita vez d'este nome. O conde 
de Tarouca, avô do velho marquez, illustrou se em muitas 
importantes e bem succedidas embaixadas, e as esplen- 
didas festas que elle deu por occasião do Congresso de 
Utrecht, foram largamente descriptas por m. me des Noyers 
e outros auctores de Memorias. 

Trouxeram esta noite os Penalvas em sua companhia um 
celebre jesuíta, o P. e Duarte, a quem o marquez de Pom- 
bal deu a consideração de o ter preso dezoito annos, e um 
medico canejo, com a cara cor de rhuibarbo, e um appa- 
ratoso e luzente fato de setim — um dos mais toscos e 
presumidos professores da arte de assassinar, que tenho 
visto. 

Custou-me muito a conservar o meu sangue frio entre o 
jesuíta e o doutor. Não estiveram callados um momento; 
pretendiam sentir a mais implícita admiração por tudo 
quanto vinha de Inglaterra — quer fosse industria, quer 
poesia — e, confundindo as datas, os nomes, e os assum- 
ptos, n'uma embrulhada extraordinária, perguntaram-me 
se o actual presidente da nossa Academia Real não era Sir 



54 



Peter Lely, e dilataram-se em ardentes encómios sobre o 
meu compatriota Hans Holbein! 

Pedi licença a estes complacentes sábios para lhes asse- 
gurai', que este ultimo artista nascera em Basiléa, e que 
Sir Peter Lely morrera ha cem annos. Ficaram um pouco 
pasmados, quando ouviram isto, mas nâo obstante conti- 
nuavam a sua ladainha, entoando um ruidoso coro de com- 
primentos á nossa proficiência nacional na pintura, na 
relojoaria, na fabricação dos panos, etc, quando entrou o 
general Forbes, que fez uma diversão em meu favor, con- 
versando um pouco acerca do actual estado de Portugal e 
do risco, que elle corre, de ser devorado dentro em poucos 
annos, nâo pelos exércitos, mas pela diplomacia dos hespa- 
nhoes .... 

A chegada d'um rabequista, dum padre e d'um musico 
italiano, humildes servos e bajuladores dos meus illustres 
hospedes, interrompeu a nossa conversação. Deram uma 
massada no meu pobre piano-forte, e tocaram sonatas, sem 
me pedirem licença. Sabeis que não sou grande amigo 
d'essa musica, e que ha umas certas notas chromaticas e 
uns guinchos da rabeca — quando o executante põe os olhos 
em alvo, meneia o gordo queixo, e finge um extasis — que 
me fazem sahir fora de mim. A physionomia affectada do 
doutor já era sufficiente para produzir esse effeito, sem o 
auxilio dos parasitas, seus sócios, o padre e o musico, e 
pareceu-me que o P. e Duarte gostava tanto d'elles como eu. 

O general Forbes retirara-se prudentemente. O velho 
Marquez, inspirado por um adagio pathetico, atravessou 
de repente a sala n'um passo, que eu julguei ser o começo 
d'um bailado heróico, mas que desandou n'um menuete, 
no estylo portuguez, com todos os seus sapateados e reque- 



55 



bros, e em que também figurou Miss Sill, que viera tomar 
chá comnosco, e que só muito rogada acquiescera a acom- 
panhado. Ainda bem não tinha acabado a dança, o doutor 
desenrolou a desgraciosa extensão da sua pessoa n'outro 
tão nervoso e anguloso menuete, que não tenho palavras 
para o descrever! 

E assim passei um serão delicioso entre as duas artes 
irmãs, a musica e a dança. Este par não me torna a sur- 
prehender em casa outra vez. 



XI 



O uivar dos cães — Visita ao convento de S. José de Ribamar — 
Almoço em casa dos Penalvas — Magnifica e hospitaleira re- 
cepção — Segredos na penumbra dos mysteriosos aposentos — 
O bispo do Algarve — O anoitecer no jardim de Marvilla. 



2 de julho de 1787. 

Despertaram-me alta noite os hórridos latidos dos cães. 
Aquella matilha infernal, de que Dryden nos descreve, no 
seu divino conto de Theodoro e Honoria, as phantasticas 
caçadas de todas as sextas feiras, nem de longe se apro- 
ximava d'este medonho uivar! De todas as capitães em que 
tenho vivido, Lisboa é a mais infestada por alcatéas des- 
tes esfaimados animaes, que prestam o serviço de limpar 
as ruas de uma parte, pelo menos, das pouco aromáticas 
immundicies. 

Verdeil, que também não poude dormir, por causa de 
uma longa e furiosa batalha entre dois bandos d'estes rafei- 
ros diabólicos, conseguiu fazer-me levantar ao nascer do sol, 
e fomos dar um passeio a cavallo pela praia de Belém, que 
ostentava todos os seus encantos matutinos, o ceu animado 
pelo fluctuar das nuvens de purpura franjadas de oiro, 



57 



e o mar por innumeros navios de differentes tamanhos, 
velejando em varias direcções, emquanto as ondas, á en- 
trada do porto, se erguiam agitadas, furiosas e escu- 
mantes. 

Para variar um pouco a nossa excursão, sahimos do tri- 
lho habitual, e visitámos o convento de S. José de Ribamar. 

O edifício, irregular e pittoresco, ergue-se n'uma fragosa 
eminência, e está encostado a uma matta de olmeiros, loi- 
reiros e olaias. Uns frades simples e risonhos receberam- 
nos num claustrosinho com galerias assentes em pequenas 
columnas toscanas. Gostei immenso d'este recinto, porque 
lhe dava um certo aspecto oriental uma fonte collocada ao 
centro, e que alimentava uma grande quantidade de flores. 

Elles pareciam apreciar este claustro, visto que estava 
soffrivelmente tratado, que é o mais que eu posso dizer 
do seu jardim. As campainhas trepadeiras e os áloes ras- 
teiros quasi me não deixaram chegar á matta — um deli- 
cioso retiro, refugio e conforto de metade do passaredo 
d'aquelles sitios, e graças á preguiça fradesca a ramada 
inferior das arvores está por tosquiar, e invade livremente, 
dando-lhes um aspecto romântico, as alamedas sobrancei- 
ras ao mar. 

Quizeram-me os frades mostrar as flores do seu jardim, 
que é um bonito terraço, muito bem calçado com ladrilhos 
enxadrezados, e matisados de ramos de cravos, n'um estylo 
que me parece ser tão antigo como o domínio dos moiros em 
Portugal. As paredes sâo revestidas de latadas de limoeiros 
e laranjeiras, que já quasi escondem um lustroso embre- 
chado de conchas com que um reverendo irmão as cobrira, 
ha dez ou doze annos. 

Espheras de vidro, pratos e pires da China, voltados com 



58 



o concavo para fora, eis o que constitue o ornamento prin- 
cipal (Testas decorações. Observei o mesmo gosto pelos 
embrechados e pela louça quebrada da China em M. De- 
visme, cuja quinta, em Bemfica, com as suas pesadas esta- 
tuas, templos chinezes, rios sinuosos, e empoeirados ere- 
mitérios, eclypsa as nossas villas de Glapham e de Islington. 
Voltámos para casa, antes que o calor se tornasse insuppor- 
tavel, e exactamente a tempo de irmos almoçar com o mar- 
quez de Penalva, para que antes de hontem tínhamos sido 
convidados. 

Um portuguez da mais alta hierarchia, uma vez resol- 
vido a admittir um extrangeiro no intimo da sua familia, nâo 
se poupa a fadigas, para apresentar com o maior apparato 
tudo quanto possue, offerecendo-o ao seu hospede com a 
mais liberal hospitalidade. Pareceis governal-o a elle, e 
elle governar tudo. 

A nossa recepção foi portanto a mais sumptuosa e a mais 
cordeal possivel. Se tivéssemos desejado ouvir um concerto, 
ali estavam para o executar os melhores músicos da Capella 
Real; se examinar antigas edições dos clássicos ou dos 
auctores raros portnguezes, a livraria estava patente e o 
bibliothecario prompto para nos mostrar ou explicar qual- 
quer coisa, que acontecesse attrair a nossa attençâo; se ver 
pinturas, as paredes de muitos aposentos ostentavam uma 
interessante collecção da escola italiana e da ílamenga; se 
quizessemos conversar, estavam ali reunidas quasi todas as 
notabilidades conhecidas, tanto académicos como artistas, 
de Lisboa. Suppondo que tivéssemos uma predilecção espe- 
cial pelas mais raras flores e specimens botânicos, apre- 
sentaram-nos alguns dos mais perfeitos que tenho visto, e, 
para que nada faltasse, em qualquer género que fosse, as 



59 



ricas portas gradeadas d'uma capella estavam abertas de 
par em par, e um altar esplendidamente illuminado parecia 
convidar á oração, os que sentissem desejo de satisfazer a 
vocação espiritual. 

Pela minha parte, tendo-me as brisas do mar aguçado os 
appetites temporaes, foi com grande satisfação, que me sen- 
tei á mesa do almoço, magnifico e bem servido. Não pude 
deixar de notar a extrema finura do linho, curiosamente 
bordado de flores e brasões d'armas — vermelho em campo 
branco. Em soberbas bandejas de prata doirada com rele- 
vos viam-se pratos de fructas geladas, principalmente mo- 
rangos escarlates, raros em Portugal, e que esparziam na 
atmosphera uma suave fragrância, para mim a mais grata, 
porque me recordava, pela força das idéas associadas, 
a familia e a pátria. 

Ouvíamos, ao mesmo tempo, rir e fallar baixinho nos 
aposentos sombrios e mysteriosos, que davam para a sala, 
onde estávamos almoçando. Este sussurro faziam-o as se- 
nhoras da familia, que difficilmente poderiam viver em 
mais asiática reclusão, se fossem naturaes de Constanti- 
nopla ou de Bagdad. Foi-me concedido, todavia, compri- 
mental-as no seu próprio harém, o que, segundo me deram 
a entender, eu devia considerar como a mais lisonjeira 
prova de distincção. 

Quem havia eu de encontrar no meio do grupo das senho- 
ras, e sentado como ellas no chão, à la façon de Barbárie, 
senão o recem-sagrado e muito juvenil bispo do Algarve, 
que encobria a face pallida e a luzidia e negra cabecinha de 
estudante com um enorme par de óculos verdes í Obriga-me 
a verdade a confessar, que o caracter da expressão que 
brilhava por detraz d'esses formidáveis vidros, não era 



60 



absolutamente nada decente, suave ou apostólico. Talvez, 
com o decorrer do tempo, elle possa adquirir aquelle 
verniz, sem o qual muitas vezes as intenções menos santas 
erram o seu alvo — o verniz da hypocrisia. Admira-me que 
n'este ponto elle não tenha ainda chegado a mais alto grau 
de perfeição, havendo estudado sob a direcção do mais com- 
pleto Tartuffo e beato jansenista que tem existido, um dos 
mais finos pássaros dum ninho de suppostos philosophos, 
que trabalham com afflnco para destruir o pouco bem, que 
se tem feito n'este paiz, abrindo uma mina de mil intri- 
gas, para anniquilarem — se mais nâo puderem — todos os 
puros sentimentos de religião e moralidade. 

Instou comnosco o velho marquez de Penalva para ficar- 
mos para o jantar, que estava posto com apparato, n'uma 
sala aprasivel e fresca. Verdeil não poude resistir á ten- 
tação, porém eu, fatigado pela noite perdida com a bulha 
dos cães e pelo calor e agitação do dia, retirei-me para casa 
a descançar, em companhia do Grão-Prior e de D. Pedro. 
De tarde fomos até Marvilla, a desprezada quinta de 
que já fallei, e que domina a maior largura do Tejo— uma 
perspectiva que me trouxe á memoria o lago de Genebra, 
e tudo o que se passou comigo nas suas margens. Podeis 
portanto imaginar que isso mais contribuiu para me entris- 
tecer do que para me alegrar: assenti, todavia, em acom- 
panhar o Grão-Prior pelas alamedas e terraços d'esta român- 
tica vivenda, scena da sua mocidade, e a que elle era par- 
ticularmente affeiçoado. 

O palácio, os pateos, e as fontes acham-se quasi em 
ruinas; os canteiros de murta transformaram-se n'um flo- 
rido mattagal, e as estatuas estão meio encobertas pelos 
jasminéiros. 



61 



Ha ali um theatrinho d opera, e uma capella, um pouco 
similhante a uma mesquita na forma e nos arabescos, mas 
muito sombria, por causa das bandeiras hespanholas — tro- 
pheus da batalba das linhas d^lvas, ganha por um ante- 
passado dos Marialvas. 

Um extenso parreiral, assente em pilares de mármore, 
vae desde o palácio até á capella. Tem uma certa mages- 
tade esta galeria verdejante, e os raios do sol poente, atra- 
vessando-lhe a folhagem, vinham illuminaras faces macilen- 
tas dos velhos creâdos daquella casa, que sabiam lenta- 
mente dos seus arruinados aposentos, e ajoelhavam deante 
do Grâo-Prior e de D. Pedro. 

Andámos passeando n'este esquecido e abandonado jar- 
dim, tão silencioso como um convento de cartuxos, até ao 
anoitecer, em que se levantou uma brisa fresca, que baloi- 
çava os cyprestes, e cobriu os canteiros de murta de nu- 
vens de flores de jasmim brancas como a neve. 

D. Pedro encheu a carruagem de ramos de flores arran- 
cadas das estatuas mutiladas, e antes de chegarmos a casa 
já estávamos meio intoxicados pelo seu delicioso, porém 
excessivo perfume. 



XII 



Excursão a Cintra -O palácio do Ramalhão-A quinta - Col- 
]ares _0 pavilhão desenhado por Pillemcnt-Um galope lu- 
rioso — Frio em julho. 

9 de julho de 1181. 
Ás nove horas da manhã já eu estava no palácio dos Ma- 
rialvas, d^nde partimos com o marquez para Cintra. Gover- 
nando elle as reaes estrebarias, que encerram quatro mil 
mulas e dois mil cavallos, ordena as mudas que lhe apraz, 
e no espaço duma hora tivemos quatro. 

Poucos minutos depois das dez apeavamo-nos no Rama- 
lhão, uma villa, na encosta dos rochedos pyramidaes de 
Cintra, que o sr. S. Arriaga teve a amabilidade de me 
emprestar, vae para dois mezes, mas que eu ainda não ti- 
vera occasião de visitar. Os aposentos são todos espaçosos 
e arejados, e é illimitada a vista que (Telles se disfructa 
sobre as terras áridas e o mar, mas, a não ser que o calor 
augmente, hei de sentir lá mais frio do que desejo, porque 
não teem outro fogão senão o da cosinha. 

Achei muito bem tratado o jardim, e floridos os cantei- 
ros de plantas entre renques de laranjeiras e limoeiros. 



G3 



A força da vegetação d'aquelle clima é tal que as gar- 
denias — jasmins — e outras plantas do Cabo da Boa Espe- 
rança, que trouxera comigo de Inglaterra em estaca, estão 
cobertas de bellas flores. As malvas-rosas e algumas varie- 
dades de milho indiano, semeadas pelo meu jardineiro 
inglez, tinham attingido uma altura extraordinária, e já 
principiavam a formar ensombradas avenidas e formosos 
bosques, onde as creanças poderiam jogar perfeitamente 
as escondidas. 

Depois de meia hora gasta em ver tudo o que nos cer- 
cava, o marquez e eu mettemo-nos na carruagem e fomos 
para a sua vitta — uma edificação recente, que Lhe tem 
custado muitas mil libras sterlinas. Era, ha cinco annos, um 
monte agreste juncado de calhaus e fragmentos de rocha, 
mas hoje encontraes ali um vistoso pavilhão, desenhado por 
Pillement, e elegantemente decorado, um terraço com fon- 
tes e estatuas, alamedas cerradas de loureiros e de lou- 
reiros-thymos, cascatas, caramanchões, arvores de buxo tos- 
quiado, e toda a qualidade de ornamentos que o gosto 
portuguez pode desejar em matéria de jardins. 

Jantámos rfuma aceiada e excellente pousada, situada 
no centro da villa de Cintra. A rainha concedeu ultima- 
mente ao marquez esta casa e um largo tracto de terreno 
contíguo, e das suas janellas e loggias veem-se em baixo 
fundos barrancos e abruptas quebradas cobertas de bos- 
ques e mattas, entremeadas de pedras musgosas e vetustos 
castanheiros. 

Apenas baixou o sol fomos para Collares, onde pas- 
seámos n'um terraço, pertencente a M. Laroche, negociante 
francez, que deu provas de bom gosto na disposição da 
sua casa. 



64 



Grupos de pinheiros e castanheiros, rompendo das fen- 
das dos rochedos, e elevando-se uns acima dos outros a 
uma altura considerável, dão a Collares a apparencia d'uma 
aldeia dos Alpes; e ao longo do caminho innumeras fontes, 
á sombra de sobreiros e copados limoeiros, rebentam dos 
muros desmoronados, e caem em tanques de pedra. 

Um favorito servidor do fallecido rei, que tem n'estes 
sitios uma grande propriedade, convidou-nos com toda a 
civilidade e delicadeza a visital-a. 

Julguei que entrava nos jardins d'Alcinoo! Curvavam-se 
litteralmente os ramos com o peso dos fructos, e o mais leve 
abalo alastrava o chão de ameixas, laranjas e damascos. 
Orgulha-se esta quinta de possuir uma grande cascata arti- 
ficial, com tritões e golphinhos jorrando torrentes d' agua; 
mas eu não lhe prestei metade da attenção, que o seu dono 
desejava, e, acolhendo-me á sombra das arvores do pomar, 
festejei as maças doiradas e as purpúreas ameixas, que 
estavam cahindo em abundância á roda de mim. 

O marquez, que tem, como a maior parte dos portu- 
guezes, uma notável predilecção pelas flores, atulhou a car- 
ruagem de cravos vermelhos e de jasmins. 

Em dimensões e em vigor nunca vi plantas mais conspi- 
cuas, do que as que teem a fortuna de serem semeadas 
n'este abençoado solo; também a exposição é extraordi- 
nariamente feliz, abrigada como está por montes a pique, 
e defendida do vento mareiro por muitas milhas de bos- 
ques e pomares. Eu nâo tinha vontade de abandonar um 
terreno tão favorecido pela natureza, e Marialva regosija- 
va-se com a idéa de que eu me tentasse a compral-o. 

Principiava a levantar-se o vento, quando subíamos o 
monte coroado pela villa do marquez. Estava limpido o 



65 



ceu, e esplendido o pôr do sol. Ao longe o convento de 
Mafra rutilando parecia o palácio encantado d'algum gigante, 
e a paizagem toda em roda erma e nua, como se o monstro 
a tivesse assolado! 

Para descançar um pouco da nossa rápida viagem 
entrámos no pavilhão, que, como acabo de vos dizer, foi 
desenhado por Pillement, e representa um caramanchel 
formado pelos ramos entrelaçados de phantasticas arvores 
indianas, deixando entrever a trechos o azul estivo do ceu. 
Da bocca d'um dragão alado pende um magnifico lustre de 
cincoenta lumes, ornado de festões de cristaes lapidados, 
scintillando como fios de diamantes. 

Permanecemos no salão até que de todo escureceu, e 
partimos. Os batedores com archotes accesos galopavam 
na nossa frente a toda a brida ; o vento atirava-nos o fumo 
e as fagulhas para a cara, e eu sentia-me aturdido e 
arrebatado, e experimentava uma sensação talvez simi- 
lhante á d'um bruxo noviço, que se achasse pela primeira 
vez montado n'uma vassoira, á garupa d'uma feiticeira! Em 
menos d'uma hora galgámos ruidosamente doze milhas de 
áspera e revolta calçada, subindo e descendo os mais Íngre- 
mes montes n'um galope a tal ponto precipitado, que eu 
esperava a todo o instante ver-me estendido de narizes no 
chão; porém, felizmente, as mulas tinham sido escolhidas 
entre cem talvez, e nunca tropeçaram. 

Nas alturas sobranceiras á Ajuda senti o ar muito fino 
e cortante. Causa de certo extranheza queixar-se a gente 
de frio a 9 de julho, e em Lisboa! 



xm 



A sympathia entre os sapos e as velhas — O palácio de Cintra — O 
tanque dos peixes doirados e prateados — Um jardim n'um 
alto terraço — A sala da prisão de Aífonso vi — A capelia — 
Barbara profusão d'oiro — O altar em que estava ajoelhado 
D. Sebastião, quando recebeu o aviso do ceu-^Os aposentos 
para a Rainha e as Infantas — Regresso para o Ramalhão. 



24 de julho de 1787. 

Estou convencido de que existe uma decidida sympathia 
entre os sapos e as velhas, que teem cara de bruxas. A tia 
Morgan — a velha governante — desceu esta manhã, não ás 
regiões infernaes mas á adega, e immediatamente cinco ou 
seis grandes reptis d'essa mysteriosa espécie principiaram 
a gyrar á roda d'ella, que recompensou vilmente a con- 
fiança, que os pobres animalejos lhe haviam mostrado, e 
matou três dos mais gordos. Yi-os estendidos no pateo 
exânimes, quando montei a cavallo: o maior tinha sete pol- 
legadas de diâmetro. Os sapos portuguezes serão mais 
avantajados em volume, mas não tão bem malhados como 
os que nós temos a ventura de hospedar em Inglaterra. 

Hesitei algum tempo sobre a direcção que daria aos pas- 
sos do meu cavallo, se para o Penedo dos Ovos, se para o 
outro lado do monte, para a Peninha, um conventinho per- 
tencente aos Jeronymos, e que depende do seu principal 



67 



hospício — Nossa Senhora da Penha. Marialva, que eu 
encontrei, saindo de casa com o seu séquito de moços de 
estribeira e picadores, decidiu-me a nâo dar o meu passeio 
pela serra, e a acompanhal-o ao palácio, cujo interior eu 
ainda não tinha visitado. 

Nâo é muito mais mourisca a architectura da pró- 
pria Alhambra do que esta confusa mole, que parece rom- 
per do cume d'um alto rochedo, recortando-se em vários e 
pittorescos corpos reintrantes e salientes. Causa dó ver 
que caiaram os seus venerandos muros, taparam uma cor- 
renteza de arrojados arcos, e repartiram uma das extremi- 
dades do átrio grande em dois ou três quartos, pequenos 
como os camarins d'um theatro. Das janellas, todas d'um 
phantasioso estylo oriental, em curvas e voltas, e assentes 
em pilares torcidos de mármore polido, desfructam-se os 
admiráveis e românticos panoramas de Cintra e das pene- 
dias. Fontes de mármore e de bronze doirado, d'onde corre 
continuamente a mais pura agua, dão vida a alguns pateos 
irregulares e ás loggias formadas pelos ângulos das torres 
quadradas. 

Uma espécie de reservatório, tâo extenso que quasi se 
lhe pode chamar um canal, occupa todo o comprimento do 
grande átrio, e é um paraiso para um cardume dos maio- 
res e mais brilhantes peixes doirados e prateados, que tenho 
visto. O murmúrio dos repuxos que saem d'este tanque, o 
quebrar da agua ondulando d'encontro aos degraus e ás ba- 
cias de mármore polido, o brilho dos peixes de furta-côres, 
e o vigoroso contraste da luz e da sombra, produzido pelo 
intrincado labyrintho de arcos e columnas, tudo combinado 
forma uma scena magica, como as que vemos ás vezes em 
sonhos, mas que difíicilmente suppomos se possam realisar. 



68 



Ha uma sobriedade na côr do mármore, um mysterio 
nos escuros recantos vistos em perspectiva, e uma solem- 
nidade no tom profundo, quasi negro, da agua, n'aquella 
parte do tanque que está á sombra dos altos edifícios, que 
eu não posso deixar de julgar isto superior a toda a varie- 
gada confusão e esplendor dos mais famosos edifícios mou- 
riscos de Granada ou de Sevilha. 

Em um dos mais altos terraços, que não tem menos de 
cento e cincoenta pés d'altura, está disposto um lindo jar- 
dim de flores, estendido como um tapete bordado em frente 
da porta d'uma grande torre quadrada, quasi inteiramente 
occupada por uma sala revestida de azulejos de côr, e co- 
roada por um tecto da forma mais singular. Entre as volu- 
tas dos folhados arabescos que o adornam, apparecem as 
armas da principal nobreza de Portugal. O timbre da des- 
venturada familia dos Tavoras foi raspado, e está em branco 
o painel que elle occupava. 

Subimos a este terraço e á torre por uma estreita escada 
de caracol, como ha muitas no palácio, e que communicam 
secreta e mysteriosamente com corredores abobadados. 

O marquez apontou-me para o pavimento de mosaico d'um 
quarto pequeno, gasto e puido n' alguns sitios pelos pés de 
Affonso vi, que longos annos esteve encerrado n'aquelle 
estreito recinto. 

 descida entrámos na capella, não menos singular na 
forma e na construcção do que o resto do edifício. A cúpula 
baixa e chata e as intersecções dos arcos são muito no 
estylo das mesquitas, mas a barbara profusão d'oiro e as 
ainda mais barbaras pinturas, que cobrem todos os tectos 
e apainelados, devem-se suppor obra de artistas chinga- 
lezes ou indostanicos, e recordaram-me aquelles pagodes 



69 



subterrâneos em que sua magestade satânica recebe home- 
nagens sob a forma de Gumputy ou de Boudha. 

O primitivo esplendor de todo este estranho scenario está 
muito apagado pelo fumo das lâmpadas, que ardem ha sécu- 
los deante d'aquelle altar — um mixto confuso de obras de 
talha e imagens sagradas, que pelo seu estylo triste e gros- 
seiro está em perfeita harmonia com todo o resto da capella. 
Diz-se que foi quando o joven, ardente, e cavalleiroso D. Se- 
bastião estava ajoelhado deante d'aquelle mesmo altar, que 
elle teve um aviso sobrenatural para renunciar á fatal 
expedição d' Africa, que lhe custou a coroa e a vida, e o 
que uma alma heróica ainda tem em muito mais alta 
estimação, aquella fama immorredoira, que acompanha as 
façanhas bem succedidas. 

Uma coisa, que eu difficilmente poderia descrever, uma 
tristeza esmagadora, parecia reinar n'aquella capella, que, 
segundo imagino, está pouco mais ou menos no mesmo 
estylo em que a deixou o desventurado Sebastião. A falta 
de circulação do ar e uma atmosphera carregada de incenso 
affectaram-me os nervos da cabeça tão desagradavelmente, 
que eu desejava sair d' ali, e acompanhar o marquez aos 
quartos, que se preparavam para a Rainha e Infantas. Altos 
e bem ventilados são elles, porém, em vez de os forrarem 
com ricos Arrases, representando as aventuras de caval- 
leiros e heroes, os armadores da Casa Real estavam co- 
brindo a toda a pressa as grandes paredes com brilhantes 
sedas e setins das mais desvanecidas e delicadas cores. 
Não vi mobilia digna de menção, nem uma pintura, nem 
um buffete; portanto, como não tínhamos nada que ver, 
pouco nos demorámos. 

Apenas o marquez deu algumas ordens, de que a sua real 



70 



ama o havia encarregado, voltámos para o Ramalhâo, onde 
Horne e o cônsul da Hollanda, Guildermeester, espera- 
vam que chegássemos, disputando acerca de seguros, 
percentagens, commissões, e outras especulações commer- 

ciaes. 

Estive persuadindo o marquez a acompanhar-me amanha 
a casa de Guildermeester: é o anniversario natalicio do 
velho, e elle estreia a sua nova habitação com um baile e 
ceia. Teremos lá uma bonita amostra das -misses da colónia 
extrangeira e dos guardas-livros e escripturarios, algumas 
figuras subalternas do corps diplomatique, e Deus sabe 
quantas mil libras, representadas nas pessoas dos nego- 
ciantes hollandezes e hamburguezes. 



XIV 



Grande gala na corte — Festa em honra do anniversario de Guil- 
dermeester — Furiosas venetas d'um francez — A indiscreta luz 
da verdade — Invectiva contra os inglezes. 



25 de julho de 1787. 

Grande gala na corte — para onde o marquez partiu em 
desempenho do seu logar, porque este dia nâo deu a luz 
só a Guildermeester, deu-a também á Princeza do Brazil. 

Nós fomos jantar com a marqueza. Uma banda de musica 
marcial, que ia para casa do cônsul, principiou a tocar no 
pateo, e fez sair um d' esses curiosos formigueiros de todos 
os sexos, edades e cores, que esta caritativa familia gosta 
immenso de hospedar. D. Henriqueta estava sentada na 
escada, que conduz para o grande pavilhão, conversando 
baixinho com algumas das suas creadas favoritas, as 
quaes, como o coro da antiga tragedia grega, emittiam con- 
tinuamente a sua opinião acerca do que se passava. 

Na occasiâo em que D. Pedro e eu nos estávamos pre- 
parando, para partirmos juntos para o baile do velho côn- 
sul, fomos agradavelmente surprehendidos pela chegada do 
marquez, que se tinha escapado do palácio muito mais 



72 



cedo do que esperava. Leveio-o na carruagem a casa de 
Horne, e ali tomámos chá no terraço, d'onde se gosa a 
mais romântica vista de Cintra — extensos e frondosos arvo- 
redos de variada folhagem, montes de raizes entrelaçadas, 
e troncos enormes de castanheiros, d'envolta com os mais 
frescos e verdes salgueiros-chorôes e limoeiros avergados 
de fructos. Sobre esta agreste scena erguem-se três ro- 
chedos talhados em agulha, distinguindo-se o do centro 
pelas torrinhas e muros de Nossa Senhora da Penha, um 
convento de Jeronymos, muitas vezes occulto entre nu- 
vens. 

Encostado a um sobreiro, cuja ramaria quasi cobria a 
varanda, gozei aquella vista, attentando nas grutescas figu- 
ras dos hollandezes, inglezes e portuguezes, que passa- 
vam para casa de Guildermeester — uma procissão assaz 
variada para me divertir por algum tempo, se Marialva se 
não mostrasse impaciente e inquieto. Apparecera o conde 
de S. Vicente, seu cunhado, a quem elle tem uma aversão 
mortal. A luz e as trevas, se se personificassem, não fariam 
maior contraste do que estes dois personagens — Marialva 
todo elle respirando benignidade, e S. Vicente todo male- 
volencial E, realmente, se metade das atrocidades 1 , que a 
a voz publica attribue a este conhecido fidalgo, forem ver- 
dadeiras, não me admirarei de que a negrura da vingança 
e da tyrannia esteja tão profundamente impressa em todas 
as linhas da sua physionomia. 

Saímos na primeira opportunidade, seguimos por umas 
tristes e escuras travessas, admiravelmente calculadas 
para as façanhas a que acabo de me referir, e estivemos 

1 Yeja-se nas Cartas de Hespanha e Portugal, de Southey uma não 
pequena amostra cTessas atrocidades. 



73 



quasi a cair n^uma valia, quando nos dirigíamos para a 
porta do velho cônsul. 

O terreno em frente da sua nova habitação está em 
grande desordem. A casa, que pouco mais tem do que as 
paredes nuas, não estava mui esplendidamente illuminada, 
e emquanto á sociedade ali reunida, era a que eu espe- 
rava. 

M. me Guildermeester, que é uma mulher de espirito e de 
discernimento, fez as honras da casa com o maior desem- 
baraço, e prodigalisou aos principaes convidados as mais 
distinctas attençôes. As suas observações teem certa agu- 
deza original, que me agradou muito. Não pertence ella à 
família dos benévolos, e juntou as suas forças ás de Ver- 
deil — que não desgosta d'um bocadinho de má lingua — 
para cortarem na colónia. 

Marialva deu-lhe a mão, quando fomos para a ceia. Esta 
parte da festa foi magnifica: a illuminação brilhante, uma 
profusão immensa de prata, uma mesa enorme, os mais 
raros manjares, que era possível encontrar, e um dessert, 
que tinha cincoenta ou sessenta pés de comprimento, scin- 
tillante de brunidas figuras e de vasos com flores de prata. 

Não me senti com disposição alguma para dançar depois 
da ceia: a musica não era inspiradora, e a assembléa foi 
perturbada pelos desvarios d'um francez, que, segundo se 
suppôe, foi, durante os dois ou três últimos annos, alvo 
dos affectos d'uma das senhoras presentes. Uma insolação 
e uma disputa com o embaixador do seu paiz, M. de Bom- 
belles, parece que deram volta ao miolo do infeliz: não se 
poude evitar que elle corresse de sala em sala com o es- 
trépito e o desordenado impeto d'uma bicha de rabiar, des- 
compondo aqui um, ali outro, e confessando publicamente 



74 



as illimitadas finezas que recebera da tal senhora, e as mui- 
tas provas de terna affeiçâo, que uma certa Miss W. lhe 
tinha dadol 

— Porque é que andaes em contenda e ás unhadas? — 
dizia elle ás duas heroinas, que, segundo ouvi, nâo vivem 
nos melhores termos. — Ambas sois egualmente condes- 
cendentes, e ambas me fizestes com os vossos favores o 
mais feliz mortal do universo! 

Emquanto a luz da verdade estava brilhando d'um modo 
tão singular aos olhos dos circumstantes, deixo-vos ima- 
ginar a estúpida surpreza do velho e digno marido e o 
rubor da cólera de sua esposa e da sua formosa associada! 
Nunca assisti a uma scena mais capital. 

Em algumas das nossas pantomimas, se bem me lem- 
bro, Arlequim applica a pedra de toque aos seus adver- 
sários, e com esta influencia magica faz-lhes sair a verdade 
da bocca, apesar da propriedade ou do interesse. O legista 
confessa ter-se deixado peitar, o soldado confessa a sua 
fuga no dia da batalha, e a chorosa viuva methodista tam- 
bém nâo occulta os seus frequentes apêllos á garrafa da 
inspiração. Parece que se realisou aqui esse maravilhoso 
eífeito, e que algum malicioso demónio se apossou do pal- 
rador francez, e o compelliu a desvendar os mysterios, a 
que elle deve a sua subsistência. Entre as duras verda- 
des arrojadas n'esta corrente de sinceridade, houve uma 
vehemente apostrophe á canalha ingleza — como elle lhe 
chamou — increpando-lhe a sua excessiva intolerância para 
todos os costumes, excepto os seus, e os seus mil affectados 
e cruéis preconceitos. 

Mrs — que o desespero tornara intrépida — tomou 

parte n'esta questão com grande energia, comparou a 



75 



maior parte dos que ali estavam a um enxame de insectos 
venenosos, indignos de rastejarem a fímbria do seu real- 
mente puro, embora calumniado vestido, e merecedores 
de serem sacudidos na primeira occasião. 

O marquez, D. Pedro e eu divertimo-nos tanto com esta 
scena, que nos demorámos mais do que tencionávamos. 



XV 



A capella da rainha de Portugal — A orchestra — Ensaio d'uma 
reunião do conselho — Proposta para visitar Mafra. 



Ramalhão, 26 d'agosto de 1787. 

A orchestra da capella da rainha de Portugal ainda é 
a primeira da Europa; em excellencia de vozes e instru- 
mentos nenhuma outra corporação d'este género, nem 
mesmo a do Papa, se pode gabar de ter reunidos tão 
admiráveis músicos como estes. 

Para onde Sua Magestade vae elles acompanham-a, seja 
a uma caçada d'altaneria em Salvaterra, seja a caçar a 
saúde nos banhos das Caldas. No meio d'estes rochedos e 
montes agrestes, aqui mesmo ella está rodeada d'um ran- 
cho de mimosos cantores, tão gordos como as codornizes, 
tão gorgeadores e melodiosos como os rouxinoes. Os vio- 
linos e os violoncellos de Sua Magestade são todos de 
primeira ordem, e em flautas e oboés a sua ménagerie 
musical não tem rival. 

O marquez de Marialva, na sua qualidade de Camareiro 
e Estribeiro-mór, e, como se isto fosse hereditário, pri- 



77 



ineiro valido, exerce uma decidida influencia n'este impé- 
rio da harmonia, e tendo levado a sua amisade ao ponto 
de repartir comigo essa lyrica bemaventurança, foi-me 
-permittido apreciar, quando eu quizesse, os melhores den- 
tre os executantes d'esta admirável orchestra. 

Esta manha— seja isto lembrado para minha vergonha — 
estive horas e horas no meu renovado pavilhão, sem ler 
uma palavra, nem escrever uma linha, nem conversar 
com pessoa alguma: todas as minhas faculdades esta- 
vam absorvidas pelas harmonias dos instrumentos de 
vento, que tocavam a distancia, em um laranjal. Em vão 
tentei retirar-me para onde não as ouvisse, voltei para 
traz tantas vezes quantas procurei arrancar-me d' ali. Se 
eu attendesse á tranquillidade do meu espirito, deveria 
despedir esses músicos, porque as suas ternas e doridas 
melodias têem o poder de despertar sempre na mi- 
nha alma um longo cortejo de lúgubres recordações, e 
pela força das idéas associadas desaniinam-me e intriste- 
cem-me 

Foi uma verdadeira prova d'amisade a que me deu o 
Prior dAviz, violando quasi á força a minha reclusão, e 
fazendo-me despertar das minhas meditações. Insistiu 
para que eu o acompanhasse a casa do Arcebispo, onde 
estavam fazendo o ensaio para uma reunião do conselho 
d'estado, que se havia de realisar na presença da Rainha, 
e a que assistiam todos os ministros e sub-secretarios 
d'estado. 

São novas taes reuniões para o bom do velho Confessor, 
que, muito contra sua vontade, acaba de ser provido na 
direcção, ou antes, superintendência do Gabinete. Gosta 
elle muito dos seus commodos e da sua tranquillidade 



78 



para não sentir uma tão violenta incursão nos seus cons- 
tantes hábitos de vida. Achamol-o, portanto, como era de 
esperar, n'um estado de grande perturbação, irritado, e 
todo vermelho até á raiz do cabello, o que contrastava for- 
temente com a alvura do seu fluctuante habito de flanella 
branca, que elle sacudia e amarrotava frequentes vezes, 
ao passo que batia violentamente no proeminente estô- 
mago, o qual, apesar de elle dizer que havia uma hora 
que lhe tardava o necessário provimento, não soava de 
certo como um tonel vasio. Não podia, comtudo, appli- 
car-se-lhe o velho rifão, que diz— Barriga gorda, cabeça 
magra— porque elle levou a sua amabilidade e confiança 
ao ponto de me communicar em resumo, mas com grande 
perspicuidade e agudeza, o que lhe tinham representado 
as differentes Secretarias d'estado. 

Era digna de excitar um vivo interesse esta singular 
confidencia, mas não obstante isso eu não lhe prestei me- 
tade da attenção, que ella merecia. Ainda me dominava a 
impressão, que me produzira a musica de Haydn e de 
Jomelli, que ouvira de manhã. 

O Grão-Prior achando que a politica não a podia desva- 
necer do meu espirito, consultou o seu sobrinho, que, 
por acaso, estava nos aposentos da rainha, e voltou a 
propor-me que, visto eu ter ha muito manifestado o desejo 
de vêr Mafra, pozessemos este plano em execução. Ficou 
portanto assente partir amanhã. 



XVI 



estrada de Mafra— O convento visto de longe — As suas vastas 
frontarias — Magnificência geral do edifício — A egreja — O al- 
tar-mór — A véspera da festa de Santo Agostinho — As capellas 
collateraes — A sacristia — O Abbade — A livraria — Vista do 
terraço do convento — O carrilhão — A casa do Capitáo-mór — 
O jantar — Vésperas — O magestoso som dos órgãos — O Pa- 
lácio — Volta para o convento — A multidão dos curiosos — 
O jardim — Matinas — Uma procissão — A sala de Profundis 
— Banquete solemne — Ceia em casa do Capitão-mór. 



21 de agosto de 1181. 

Ás nove da manha mettiamo-nos na carruagem, apesar 
do vento, que nos dava em cheio na cara. A distancia da 
villa que eu habito a este estupendo convento é de qua- 
torze milhas inglezas, e a estrada, que, felizmente, foi ha 
pouco concertada, conduziu-nos atravez d'uma região adusta 
e aberta, salpicada aqui e ali de raras aldeias e moinhos. 
É muito agradável o retrospecto das arborisadas encostas 
e dos agudos rochedos de Cintra, mas, quando olhaes para 
a frente, não pode haver nada mais árido e frio do que esse 
prospecto. Graças á frequência das mudas corríamos a 
todo o galope, e em menos d'uma hora e um quarto acha- 
mo-nos ao pé d'um grosso muro, que corta audazmente 
pelos montes, e fecha a coutada de Mafra. 



80 



Vimos n'um relance as torres e o zimbório de mármore do 
convento, destacando-se sobre a superfície azul do oceano, 
e erguendo-se acima dos cumes silvestres dos montes, que 
se distinguiam aqui e ali pelas copas fechadas dos seus 
pinheiros dltalia e as altas agulhas dos seus cyprestes. 
Ainda não appareciam os telhados do edifício, e continuámos 
por algum tempo a ascensão, rodeando o muro, pelo ter- 
reno accidentado da Tapada, antes de os descobrirmos. Es- 
perava-nos um destacamento de leigos para nos abrirem as 
portas da Real Coutada, fortemente tisnadas pelo fogo, que 
ha um mez consummiu grande parte do seu arvoredo e ver- 
dura. A nossa approximação incutiu um grande terror nos 
bandos de veados, que pastavam pacificamente n'uma en- 
costa mais verde do que as outras próximas, e que abalaram, 
refugiando-se n'uma matta de pinheiros meio queimados. 

Depois de costearmos a parede da grande quinta, dobrá- 
mos subitamente a esquina, e patenteou-se-nos uma das vas- 
tas frontarias do convento, que parecia uma rua de palácios. 
Não posso pretender que o estylo do edifício seja tal, que 
mereça a approvação dum amante da pura architectura 
grega; muitas das portas e janellas tem differentes feitios, 
porém, ao menos, são bem proporcionadas. 

Ia eu admirando, na rápida passagem, a sua extensa 
correnteza, quando, ao tornear o alto pavilhão quadrado, que 
flanquea o edifício, se deparou aos meus olhos a grande 
fachada, que tem mais de oitocentos pés de comprimento. 

O centro é occupado pelos pórticos da egreja, ricamente 
adornados de columnas, de nichos, e de baixos-relevos de 
mármore. De cada lado erguem-se á altura de quasi duzen- 
tos pés duas torres, um pouco similhantes ás de S. Paulo 
de Londres, e juntando-se ao enorme corpo do edifício, o 



81 



palácio termina á direita e esquerda pelos seus magníficos 
pavilhões. Estas torres são ligeiras, graciosas, e ornadas 
de pilares extremamente formosos, mas a sua forma, em 
geral, approxima-se muito do estylo dos pagodes, e não 
tem magestade. Encerram muitos sinos das maiores dimen- 
sões, e um famoso carrilhão, que importou em muitos cen- 
tos de mil cruzados, e que principiou a tocar no momento 
em que annun ciaram a nossa chegada. São muito grandes 
o adro e a escadaria, na frente da entrada da egreja, ornada 
de columnas, e o zimbório, que tão sobranceiro se eleva 
acima do frontão do pórtico, é digno de louvor pela sua 
altura e elegância. 

Alonguei os olhos por todos os lados da vasta extensão 
do palácio, até que os cançou esse espectáculo, e foi com 
prazer que os desviei do esplendor dos mármores e da con- 
fusão dos ornatos esculpidos, para contemplar o immenso 
azul do longínquo oceano. Em frente d'esta collossal fabrica 
ha um grande largo, em cuja extremidade se vêem espa- 
lhadas algumas casas brancas. Não são ellas de pequenas 
dimensões, mas, comparadas com a immensa mole, sua 
visinha, parecem barracas de trabalhadores, e por taes as 
tomei á primeira vista, até que, approximando-me, fiquei 
surprehendido das suas verdadeiras dimensões. 

É pouco interessante a perspectiva, que se gosa do adro 
de Mafra : o que se vê são os telhados d'uma aldeia insi- 
gnificante e uns cabeços d'areia, destacando sobre uma es- 
treita faixa do oceano. Da esquerda a vista é limitada pelos 
escarpados montes de Cintra, e á direita, um pinhal, na 
quinta do visconde de Ponte de Lima, é que dá aos olhos 
algum pequeno refrigério. 

Para nos abrigarmos do sol, que dardejava sobre as nos- 



82 



sas cabeças, entrámos na egreja, atravessando o magnifico 
pórtico, que me lembrou muito a entrada de S. Pedro, e 
que está cheio de estatuas de santos e martyres, lavradas 
com infinita delicadeza. 

A primeira impressão da egreja é muito imponente, e 
o que immediatamente dá na vista é o altar-mór, adornado 
com duas magestosas columnas monolithas de mármore 
vermelho ondeado, de mais de trinta pés de altura. Trevi- 
sani ali tem um quadro magistral: representa Santo An- 
tónio em extasis, contemplando o Menino Jesus, que des- 
ceu á sua cella envolto n'um resplendor de gloria. 

Amanhã é a festa de Santo Agostinho, cujos religiosos 
são os actuaes possuidores d'este mosteiro, e por isso estão 
patentes todos os candelabros d'oiro, e accesos todos os 
cirios. Depois de nos demorarmos alguns minutos no meio 
d'esta brilhante illuminação, visitámos as capellas collate- 
raes, adornadas todas com baixos relevos de grande per- 
feição e magníficos arcos de mármore preto e amarello, 
com formosos veios, e tão polido, que reflectia os objectos 
como um espelho! 

Nunca vi uma tal variedade de bellos mármores, como 
os que esplendiam por cima, por baixo, e á roda de nós. 
O pavimento, o tecto abobadado, o zimbório, e até os 
mais altos lanternins, são revestidos dos mesmos custosos 
e duradoiros materiaes. Rosas de mármore branco e gri- 
naldas de palmas, d'um exquisito lavor, ornam todas as 
partes do edifício. Capiteis corinthios nunca os encontrei 
tão bem modelados, nem esculpidos com mais precisão e 
agudeza do que os das columnas, que supportam a nave. 

Depois de saciarmos a curiosidade, examinando os vários 
ornamentos dos altares, seguimos o nosso guia por uma 



83 



longa galeria arcada até á sacristia, magnifica sala de 
abobada, apainelada com bellas variedades de alabastro e 
porphyro, e tanto ella como a capella adjunta atapetadas 
com a maior magnificência; e atravessámos muitos outros 
átrios e capellas adornadas com egual esplendor, até nos 
sentirmos cançados e perdidos, como uns cavalleiros andan- 
tes nos labyrinthos d'um palácio encantado. 

Principiava eu já a pensar, que não tinham fim aquellas 
espaçosas salas. O frade, que nos precedia — um bom velho 
de barba já grisalha — convencido de que eu não poderia 
entender uma syllaba da sua lingua, tentou descrever-me 
por signaes os objectos que iam apparecendo, e custou-lhe 
a acreditar os seus ouvidos, quando eu, em bom portu- 
guez, lhe perguntei quando acabariam aquellas capellas e 
sacristias ! 

Parecia o velhote gostar muito dos meninos — como elle 
nos chamava, a D. Pedro e a mim — e para dar ás nossas 
pernas juvenis uma opportunidade de se desenvolverem, 
largou n'um trote tão expedito, que o marquez e Verdeil 
chegaram a desejar-lhe o Purgatório! E de certo caminhá- 
vamos com a máxima celeridade, galgando d'um extremo 
a outro do dormitório — seiscentos pés — em um ou dois 
minutos. Estes vastos corredores, bem como as cellas com 
que elles communicam, e que sâo trezentas, são todas em 
arcadas do mais solido e sumptuoso estylo; e todas as 
cellas, ou, para melhor dizer camarás, porque são sufficien- 
temente espaçosas, altas e bem alumiadas, para merecerem 
aquelle nome, são mobiladas com mesas e contadores de 
madeira do Brazil. 

No momento em que entravamos na livraria, dirigiu-se 
ao nosso encontro o Abbade do convento, revestido dos 



84 

seus hábitos de ceremonia, a dar-nos as boas-vindas, con- 
vidando-nos a jantar com elle, no refeitório, amanha, dia 
de Santo Agostinho, o que parece ser uma altissima dis- 
tincção. Julgámos, todavia, conveniente declinar tal honra, 
attendendo a que, para a gosar, haviamos de sacrificar 
pelo menos duas horas do nosso tempo, e ficar meio cozi- 
dos pelo fumo das gordas vitellas assadas, e dos perus e 
leitões, que de certo ha muito estavam a cevar para esta 
solemne occasião. 

A livraria é d'uma extensão prodigiosa; nâo tem menos 
de trezentos pés; o tecto é em abobada, d'uma forma ele- 
gante, com bellos estuques, e o pavimento de mármore 
vermelho e branco. Aos armários em que os livros vão ser 
dispostos, é que nâo podemos tecer muitos louvores : é gros- 
seiro o seu desenho, tosca a execução, e tira-lhes a luz 
uma desengraçada galeria, que se projecta em volta de toda 
a sala. A collecção de obras, que se compõe de mais de 
sessenta mil volumes, está agora encerrada n'uma serie de 
casas, que communicam com a livraria. O bibliothecario 
mostrou-me exemplares de algumas edições de clássicos 
gregos e latinos muito bem conservadas e com ricas illu- 
minuras, porém, o meu lépido guia não me concedeu muito 
tempo para as examinar; deitou a correr, e, subindo por 
uma escada de caracol, levou-nos ao telhado do convento e 
do palácio, que forma um largo terraço plano, cercado 
por uma magnifica balaustrada, despejado de chaminés, e 
d' onde a nossa vista dominava a cavalleiro as cercas e a 

quinta. 

Desta altura pode abranger-se n'um relance todo o plano 
do edifício. No centro ergue-se o zimbório, como um bello 
templo no meio das espaçosas avenidas d^m jardim real. 



85 



Como desenho é infinitamente superior ao resto do edifício, 
e pode com certeza ser classificado entre os mais elegan- 
tes e bem proporcionados da Europa. D. Pedro e M. Verdeil 
propozeram treparmos por uma escada de mão, que vae 
dar â lanterna, mas eu pedi para ser dispensado de os acom- 
panhar, e durante a sua ausência, entretive-me em pas- 
seiar pelas extensas loggias, aventurando de vez em quando 
um olhar para os pateos e terraços lá muito em baixo, mas 
demorando mais a vista nas torres, que resplandeciam á luz 
do sol, e na azulada superfície do longínquo oceano. Uma 
brisa fresca, e embalsamada pelos pomares de laranjeiras e 
limoeiros, vinha refrigerar-me nos degraus do zimbório 
em que eu me sentara, e temperava a ardência do ether 
abrasador. 

Não tardou, porém, muito que eu fosse arrancado a esta 
serena e pacifica situação por uma confusa matinada de 
todos os sinos, a que se seguiu uma complicadíssima sonata, 
executada nos carrilhões por um grande artista. O mar- 
quez, que subira lá acima, para gosar na sua origem esta 
cataracta do que alguns chamam melodiosos sons, desejou 
que eu me approximasse para observar o mecanismo. 
Fiquei meio surdo! De relógios e carrilhões muito pouco 
entendo, e perdia completamente o meu tempo, se me qui- 
zesse divertir n'um campanário. O meu amigo, que de seu 
pae, afamado amador de relógios e despertadores, herdou a 
predilecção pela mecânica, examinou cada roda com minu- 
ciosa attenção. 

Terminado o seu exame, descemos innumeras escadas, 
e retirámo-nos para casa do Capitão-mór, cuja jurisdicção 
abrange a Tapada e o districto de Mafra. Montam os seus 
rendimentos, a sete ou oito mil cruzados por anno, e a sua 



86 

casa tem toda a apparencia do conforto e da opulência. Os 
pavimentos são cobertos com esteiras do mais fino lavor, 
as portas tem reposteiros de damasco vermelho, e os nos- 
sos leitos, novos em folha, ostentavam colchas de setim rica- 
mente bordadas e franjadas. O nosso jantar foi muito mais 
apparatoso, e a sobremesa muito superior á que os fra- 
des nos poderiam dar — recebendo o Capitão-mór da mão 
dos seus numerosos creados as iguarias, que elle próprio 
collocava na mesa, inteiramente á moda feudal. 

Depois do café fomos assistir ás vésperas na vasta egreja 
do convento, e, passando entre as capellas illuminadas, 
occupámos os nossos logares na tribuna real. Acabávamos 
apenas de nos sentar, quando os frades entraram em pro- 
cissão, precedendo o Abbade, que subiu ao seu throno, 
tendo aos pés uma fileira de sacristães, e á direita os 
cónegos com os seus hábitos bordados a oiro. O officio 
divino foi cantado com a mais imponente solemnidade, com 
o magestoso acompanhamento dos órgãos, que não são 
menos de seis, todos de enormes dimensões. 

Acabados os officios, fomos novamente empolgados pelo 
ágil frade leigo, que por uma escada magnifica nos con- 
duziu ao palácio. Tem a serie das salas setecentos ou oito- 
centos pés de extensão, e enche-nos de assombro a cor- 
renteza, que parece não ter fim, das altas portas, vistas em 
perspectiva; mas em breve nos sentimos cançados de tanto 
admirar, e concordámos em affirmar que estes aposentos 
eram os mais monótonos e desconfortáveis, que tinhamos 
visto : não teem variedade alguma na disposição e pouca 
nas dimensões. Reina em todos elles a mesma uniforme 
nudez, porque a mobília está guardada em Lisboa: nem um 
nicho, nem uma cornija, nem uma moldura quebram com 



87 



a sua curva a tediosa uniformidade d'aquellas paredes 
brancas e nuas. 

Foi com prazer que voltei para o convento, saciei 
os meus olhos com o espectáculo das columnas de már- 
more, e senti sob os pés os macios tapetes da Pérsia. Para 
toda a parte a que nos dirigiamos, cellas, capellas, salas, 
corredores ou sacristias — éramos seguidos por uma singu- 
lar e confusa comitiva de frades curiosos, de sacristães, de 
leigos, de corregedores, de curas d' aldeia, e de elegantes da 
terra com os seus longos espadins e rabichos. Se acontecia 
eu fazer uma pergunta, havia logo meia dúzia de pescoços 
que se estendiam, para me responderem, como fazem os 
perus, quando ouvem imitar o seu glu-glu. 

Estava já o marquez verdadeiramente incommodado com 
aquella tumultuosa corrida, e tentou muitas vezes fugir a 
este séquito, dando inesperadas voltas, mas elle, agar- 
rado aos nossos calcanhares, illudiu todas as tentativas, 
e foi crescendo a tal ponto, que parecia que Unhamos 
varrido todos os moradores da villa e do convento, 
e que os arrastávamos atraz de nós por uma d'essas 
attracções sobrenaturaes, de que faliam as lendas e os 
romances 1 

Finalmente, descobrindo uma porta larga, que dava para 
a quinta, fugimos por ella de repente, e dando comnosco 
n'um labyrintho de murtas e loireiros, livramo-nos dos 
nossos perseguidores. Na quinta, que tem proximamente 
milha e meia de circumferencia, ha, além de mattas sil- 
vestres de pinheiros e loireiros, alguns pomares de laran- 
jeiras e limoeiros, e dois ou três canteiros ajardinados, 
mais cheios de ervas do que flores. Desagradou-me muito 
achar este bello jardim tâo miseravelmente abandonado, 



88 

e os seus viçosos arbustos principiando a murchar por 
não serem convenientemente regados. 

Podeis suppor que, depois de accrescentar um passeio 
pelas ruas principaes da quinta ás nossas outras peregrina- 
ções, começámos a sentir-nos um pouco cançados, e nâo 
desgostámos de repousar nos aposentos do Abbade, até 
sermos intimados mais uma vez para da nossa tribuna assis- 
tirmos ás matinas. 

Ia crescendo a noite. Innumeras velas, ardendo nos alta- 
res e por toda a parte, começavam a diffundir uma myste- 
riosa claridade; tornaram a ouvir-se os cheios accordes dos 
orgâos; entraram novamente as longas filas de frades e 
noviços com vagarosos e solemnes passos, e o Abbade 
voltou a occupar o seu throno com pompa egual á das 
vésperas. 

O marquez principiou a murmurar as suas orações, o 
Grão-Prior recitava o seu breviário, e eu cahi n'um pro- 
fundo scismar, que durou tanto tempo como o ofíicio, quero 
dizer, mais de duas horas. Verdeil, quasi morto de abor- 
recimento, nâo poude conservar-se na tribuna, no meio das 
nuvens de incenso que enchiam o coro, e foi respirar um 
ar mais puro no corpo da egreja e nas capellas adjacentes. 
Eram quasi nove horas, quando os frades saíram do coro, 
depois de entoarem um solemnissimo e estrondoso hymno 
em louvor do seu venerai padroeiro Santo Agostinho. Se- 
guimos a procissão, atravessando altas capellas e abo- 
badados claustros, que uma frouxa claridade nos fazia 
parecer não terem tectos, nem limites, até que ella en- 
trou n'uma sala octogona de quarenta pés de diâmetro, 
ornada de fontes nos quatro ângulos principaes. Os frades, 
depois de dispersarem, para lavarem as mãos nas fontes, 



89 



retomaram novamente os seus togares, e passaram a dois e 
dois, por uma porta de trinta pés d'altura, para uma vasta 
quadra communicando com o refeitório por outra porta das 
mesmas elevadas dimensões. Aqui a procissão fez uma 
paragem, porque aquella casa é consagrada á memoria dos 
finados, e chamam-lhe a sala de profundis. Ali, antes de 
cada refeição, os monges, de pé, em solemne postura, ali- 
nhados em volta da sala, meditam silenciosos no precário 
da nossa fraca existência, e offerecem a Deus as suas pre- 
ces peia salvação dos que os precederam n'aquelles logares. 

Apoderou-se de mim um sentimento de respeitoso temor, 
quando, á luz das lâmpadas fumegantes, contemplei tantos 
vultos venerandos, com os seus hábitos brancos e pretos e 
os olhos pregados no chão, absorvidos nas mais profundas 
e tristes meditações f 

Decorrido o tempo destinado a estas preces solemnes, 
occupou cada um o seu logar nas longas mesas do refei- 
tório, que são de pau Brazil, cobertas com o mais alvo 
linho. Cada frade tinha deante de si a sua garrafa d'agua 
e vinho, um prato de maças e salada. Não se serviu nem 
peixe nem carne, porque o jejum de Santo Agostinho era 
observado com o maior rigor. 

Para disfructarmos o conjuncto d'este singular e mages- 
toso espectáculo retirámo-nos para um vestíbulo, que pre- 
cede o octogono, e d'ahi contemplámos, atravez de todas 
as portas, a extensa fileira de lâmpadas do refeitório, que, 
tendo duzentos pés de comprimento, parecia terminar n'um 
ponto. Depois de nos demorarmos alguns minutos a gosar 
esta perspectiva, vieram quatro monges com brandões 
aecesos alumiar-nos até fora do convento, e ahi nos deram 
as boas-noites com muitas cortezias e genuflexões. 



90 



A ceia em casa do Capitão-mór foi muito alegre. Velámos 
até tarde, apesar do nosso cansaço, discorrendo acerca dos 
variados objectos, que haviam passado deante dos meus 
olhos em tão curto espaço de tempo, da multidão de figu- 
ras grottescas, que tâo pertinazmente se tinham agarrado a 
nós, e da tosca vivacidade do frade leigo. 



xvn 



A missa cantada — A quinta do visconde de Ponte de Lima — 
Deixo Mafra — Um accidente — Volto para Cintra — O meu 
salão — Linda vista que d'elle se disfructa. 



28 de agosto de 1787. 

Estava eu entre o somno e a vigilia, quando me estru- 
giram os ouvidos os sonoros sinos do convento: as vozes 
do marquez e de D. Pedro, em acalorada conversação com 
o Capitão-mór no quarto próximo, acabaram de me des- 
pertar. Engolimos o café á pressa; o Grão-Prior deixou com 
grande reluctancia o seu travesseiro, e acompanhou-nos á 
missa cantada. Os frades insistiram outra vez comnosco 
para que jantássemos com elles, mas nós ficámos inflexí- 
veis, e, para evitar as suas importunidades, apenas termi- 
nou a missa, partimos immediatamente para a quinta do 
visconde de Ponte de Lima, onde a sombra densa dos loi- 
reiros e dos robles nos abrigou do excessivo ardor do sol. 

O marquez, sentando-se ao meu lado, próximo d'uma 
das cristalinas e abundantes fontes que refrescam e dão 
vida a esta quinta magnifica, no gosto italiano, começou 
um discurso muito serio e semi-official acerca da minha 



92 



estada em Portugal, e sobre os meios que se projectava 
empregar n'uma alta região, para a tornar não só agradável 
para mim, mas d'alguma importância para muitos outros. 

Senti-me aliviado quando a apparição de D. Pedro e seu 
tio, que tinham ido de passeio até o fim d'uma extensís- 
sima avenida de pinheiros, poz ponto n'uma conversação 
que já principiava a pesar-me. Voltámos juntos para casa 
do Capitão-mór, e achámos o jantar prompto. 

Tanto D. Pedro como eu tinhamos pena de deixar Mafra, 
e nâo opporiamos objecção alguma a outra corrida pelos 
claustros e dormitórios com o frade-leigo. A tarde estava 
esplendida, e os tons azulados do mar, ao longe, eram 
de uma ineffavel suavidade. Cornamos com tal velocidade 
sobre as mal calçadas estradas, que nem o marquez nem 
eu podíamos perceber uma palavra do que dizíamos um ao 
outro. D. Pedro ia no seu cavallo. Verdeil, que nos pre- 
cedia no caminho, parecia vencer o próprio vento. A sua 
mula, uma das mais possantes e agigantadas da espécie, 
excitada pelos repetidos berros e chicotadas d'um assel- 
vajado postilhão portuguez, empoleirado na trazeira do 
carro, corria n'um galope desenfreado, e a uma légua 
dos montes de Cintra julgou conveniente atirar os seus 
conductores para o meio d'umas moitas, no fundo d'uma 
alta ribanceira quasi perpendicular, onde elles ainda esta- 
vam perneando, quando passámos. 

Verdeil veiu para nós a manquejar, apontando para o 
carrinho, voltado lá em baixo no fosso, mas, a não ser uma 
contusão leve n'um joelho, não tinha lesão alguma. Eu dis- 
se-lhe logo que a sua salvação fora milagrosa, e que sem 
duvida ali andava' a protecção de Santo António. O meu 



93 



amigo, que traz sempre deante dos olhos os horrores da 
heresia, aífirmou-me, em segredo, que d' esta vez fora o 
demónio quem o salvara, mas que para a outra talvez nâo 
estivesse de tão boa feição. Ainda não eram cinco e meia 
quando chegámos a Cintra. A marqueza, o abbade e os 
meninos, estavam á nossa espera. 

Sentindo andar-me a cabeça á roda e as idéas confusas 
e tão agitadas como o corpo, ainda antes do anoitecer já 
eu me recolhia a casa, a gosar em socego algumas horas 
de descanso. 

O aspecto do meu vasto salão, o seu ar de clausura, 
e o seu silencio, pareceram restituir ao meu espirito uma 
momentânea tranquillidade. A polida esteira que cobria o 
chão, e que era da mais fina e lustrosa palha, tinha, á luz 
das velas, uma cor deliciosa, suave e harmoniosa, e pare- 
ceu-me tão fresca e macia, que me estendi sobre ella. 

Assim fiquei contemplando o sereno e estivo firmamento 
e a lua, que surgia por detraz d'um cabeço coberto d'arvo- 
redo. Uma leve aragem, affastando as cortinas, deixava-me 
ver a copa das arvores da quinta, e para além d'ellas uma 
grande extensão de terra, limitada pelas planicies do 
oceano e pelos nublados promontórios. 



XVIII 



Um salão decorado no mais alto estylo oriental — Divertidas his- 
torias do rei D. João v e das suas freiras — Um funeral alegre 
— Passeio até ás alturas de Penha Verde. 



29 de agosto de 1787. 
Esteve hoje um calor ardentíssimo, e eu desperdicei 
toda a manhã no meu pavilhão, cercado de fidalgos cobertos 
de floreados roupões, e de músicos em trajos cor de violeta, 
com grandes chapéos de palha, como uns bonzos ou tala- 
poins, e tão ociosos, indifferentes, e requeimados do sol, 
como os habitantes de Ormuz ou de Bengala. A minha 
sociedade e a minha sala tinham assim a mais pronunciada 
apparencia oriental— o divan, que se eleva poucas pole- 
gadas acima do sobrado, a grade doirada das janellas, e 
os transparentes jorros d' agua, que em baixo repuxam 
d'um tanque, alimentado continuamente pelas nascentes 
da rocha viva. 

Reina no meu salão asiático uma agradável variedade. 
Das minhas cortinas metade não deixam passar a luz, e 
ostentam as mais opulentas dobras ; as outras são trans- 



95 



parentes, e derramam uma suave claridade sobre a esteira 
e os sophás. Grandes e polidos espelhos multiplicam esta 
profusão de cortinados, e alguns dos meus hospedes pare- 
ciam não se cançarem de correr todos os cantos, para dis- 
fructarem a vista dos differentes grupos de objectos, refle- 
ctidos por todos os lados nas mais inesperadas direcções, 
e imaginavam-se talvez admittidos a espreitar um labyrin- 
tho de salões encantados. 

Um d'estes, um velho e muito malicioso clérigo italiano, 
que abandonou a sua terra natal muito antes do celebre 
terremoto ter abalado mais de metade de Lisboa até aos 
seus fundamentos, disse-me que se lembrava de ter visto 
uma casa muito no estylo da minha, isto é, adornada de 
espelhos e cortinados, n ; uma espécie de palácio encantado, 
que communicava com o convento das freiras de Odivellas, 
tão afamado como piedoso retiro d'aqueHe modelo de es- 
plendor e de santidade— o rei D. João v. Deliciosos dias 
foram esses para o monarcha e para as formosas compa- 
nheiras das suas devoções. 

— Oh! dizia o velho sacerdote mui judiciosamente — 
que valor tem a mais formosa gaiola sem as aves, que lhe 
dão vida? Bastava só terdes escutado a celestial harmonia 
das reclusas de D. João v, para nunca mais ouvirdes satis- 
feito, sentado no vosso bello pavilhão, as vozes esgani- 
çadas dos sopranos e os roncos dos rabecões. Apesar de 
terem decorrido tantos annos, ainda me recordo extasiado 
do effeito, que produziam aquellas vozes argentinas e puras, 
sahindo do sagrado recinto, onde a nenhum outro mortal, 
senão o rei, era concedido penetrar! Quatro dos mais pri- 
morosos cantores, dois de Veneza e dois de Nápoles, attra- 
hidos por uma munificência verdadeiramente real, acres- 



96 



centaram tudo o que o mais consummado gosto e sciencia 
podiam dar ás melhores vozes de Portugal: o resultado foi 
a perfeição. 

Aguilar, que veiu jantar comnosco, e cuja mãe, quando 
no esplendor da mocidade e da belleza, não poucas vezes 
fora convidada a tomar uma parte, talvez mais activa do que 
a de simples ouvinte, n'estas edificantes festas, confirmou 
todas as maravilhas que o velho italiano narrara, e contou 
muitas outras do mesmo doirado e ardente colorido, n'um 
estylo tão singularmente enthusiastico, que, se eu tivesse 
que repetir metade que fosse das brilhantes anecdotas, com 
que elle me mimoseou, acerca do illimitado fervor e magni- 
ficência de D. João v, ficaria completamente deslumbrada 
a vossa imaginação. 

No momento em que acabávamos de nos levantar da 
mesa de jantar e nos sentávamos á do postres, que es- 
tava num terraço, em frente da alameda principal da 
quinta, entrou o abbade Xavier, contando em altos clamo- 
res, a maravilhosa historia da conversão d'uma velha in- 
gleza tisica, a qual, segundo parece, achando-se em artigos 
de morte, tinha chamado um sacerdote para se confessar, 
e abjurar os seus erros de toda a espécie! E como elía 
estivesse vivendo na hospedaria de Cintra, cuja proprietária 
era uma irlandeza, ardente catholica, os seus louváveis 
desejos foram rapidamente satisfeitos, e Mascarenhas, 
Acciaoli, e mais dois ou três sacerdotes e monsenhores, 
intimados para auxiliar a grande obra. 

— É grande, disse o abbade, n'este momento a nossa 
alegria. A innocente anciã hade ser esta tarde levada em 
triumpho para a sepultura. Marialva, S. Lourenço, Asseca, 
e muitos outros da principal nobreza, estão já reunidos 



97 



para honrar a ceremonia: Está disposto a vir comigo e 
acompanhar a procissão?. . . . 

— Com a melhor vontade — repliquei eu; apesar de não 
gostar demasiado de enterros, um tão alegre, como este de 
que falia, pode ser uma excepção. 

Partimos logo, com toda a velocidade de que eram ca- 
pazes as nossas excellentes mulas, para nâo chegarmos 
muito tarde á festa. 

Em frente da porta estava uma grande multidão, e a 
uma das janellas via-se o Grão-Prior, recitando o seu bre- 
viário, com a cara de quem desejava estar longe d'ali mil 
léguas. Subi, e achei-me logo cercado pelo conde de S. Lou- 
renço e outros crentes, que se expandiam em congratu- 
lações. Apresentaram-me Mascarenhas, um dos mais impor- 
tantes membros da Patriarchal, grande devoto e seraphico 
doutor. Acciaoli, que eu já conhecia, andava aos pulos pela 
casa, esfregando as mãos de contente, e, dando com os 
olhos á sua physionomia jovial uma expressão de astúcia, 
atirava estalos com os dedos a Satanaz, como se lhe qui- 
zesse dizer: 

— Dou-te um trinco, demónio í Ao menos já te arran- 
cámos uma alma das garras, e livrámol-a agora mesmo 
do fumo das tuas caldeiras! 

Havia um tal tumulto no quarto interior, onde es- 
tava depositado o pobre cadáver, e tantas ladainhas e 
orações, porque nem uma só lingua estava ociosa, que 
já me andava a cabeça á roda, e fugi para junto do 
Grão-Prior. Não lhe agradava nada aquella festa, enco- 
lhia os hombros, e dizia que era muito edificante, 
muito edificante, de certo; que Acciaoli tinha procedido 
com extrema resolução e actividade, e que merecia 



98 



grande louvor, mas que deviam ter evitado tão grande 
espalhafato. 

Por algumas meias palavras, que escaparam não sei a 
quem, descobri que a innocente, agora no caminho da eterna 
felicidade, por forma alguma consentiu que a taça do pra- 
zer passasse por ella, sem que ella a saboreasse; e que 
vivera muitos annos no pé d'uma grande intimidade, não só 
com um alentado solteirão inglez, mas com diversos outros, 
casados e solteiros, das suas particulares relações. Sen- 
tindo-se, porém, repentinamente arrebatada pela corrente 
d' uma tisica veloz, mudou súbito de rumo, e foi levada ao 
porto da salvação pelos esforços da hospedeira irlandeza 
e dos monsenhores Mascarenhas e Acciaoli. 

— Três vezes feliz ingleza! — exclamou Marialva — que 
fortuna a tua! No outro mundo, tens entrada franca no 
Paraíso, e neste o teu corpo gosará da alta distincção de 
ser levado á sepultura por homens da mais elevada hierar- 
chia! Viu-se jamais tamanha ventura?! 

A chegada d'um bando de padres e sacristães, com tochas 
accesas e cruzes alçadas, chamou-nos ao local da scena. 
Ordenado o sahimento, trouxeram o corpo envolto em cân- 
didas vestes virginaes, deitado n'um caixão cor de rosa 
com seis argolas prateadas. 

Marialva, que não gosta de ver cadáveres, fez-se ver- 
melho até ás orelhas, e daria muito dinheiro para poder 
retirar-se airosamente, mas não havia retirada alguma com- 
patível com a piedade: foi portanto obrigado a vencer o 
seu tédio, e segurou uma das argolas do caixão. A outra 
foi entregue á mão assassina do bem conhecido S. Vicente ; 
coube a terceira ao velho e fanhoso conde de S. Lourenço; 
a quarta ao visconde d'Asseca, um joven fidalgo d'uma 



99 



physionomia extremamente ingénua; á quinta e á sexta 
pegaram o Capitão-mór de Cintra, e o juiz, um sujeito ma- 
gro, com cara de cão enforcado. 

Apenas o Grão-Prior deu com os olhos no rosto lívido do 
cadáver, que iam levando pela escada, na forma que disse, 
tentou adeantar-se, para preceder o cortejo, em vez de o 
seguir, porém Acciaoli, que fazia as vezes de mestre das 
ceremonias, não o deixou ir para deante tão facilmente: 
deu-lhe o logar de honra logo na frente do corpo, e col- 
locou-se elle á sua esquerda, deixando a direita a Mascare- 
nhas. Em todos os sinos de Cintra resoaram jucundos 
repiques, e nós caminhávamos ao som d'esses alegres tan- 
geres, envolvidos n'uma densa nuvem de poeira, e ladeados 
por duas maltas de garotos, seguidos pelas suas avós, 
que a manquejar, e resando nas contas, escancaravam as 
boccas de contentamento por este triumpho sobre o prin- 
cipe das trevas. 

O caminho para a egreja, felizmente, nâo era longo, se- 
não a poeira ter-nos-ia suífocado. O Grão-Prior, que não 
queria engulir nem um átomo de pó, não abriu bocca, mas 
Acciaoli e o seu collega estavam possuidos de tal satisfação 
pela sua feliz empreza, que não cessaram de tagarellar. 
O pobre do velho S. Lourenço, gordo, dobrado, e asthma- 
tico, respirando com difficuldade, parou umas poucas de 
vezes no caminho para descançar, Marialva, a quem o 
enfado tornava mais fatigante o peso da carga, também 
gostou de fazer uma ou duas pausas. 

Achámos todos os altares da egreja resplandecentes de 
luzes; a sepultura anhelava pela sua immaculada hospeda; 
e um grupo numeroso de sacerdotes e meninos de coro 
estavam á espera, para receber a procissão. 



100 



Na occasiâo em que ella entrava cem vozes juvenis en- 
toaram o mesmo hymno, que se canta nos enterros das 
creanças innocentes, subiram ao ar nuvens de incenso, e 
nos olhos de todos os presentes lia-se a alegria e o con- 
tentamento. Um murmúrio de applauso e de congratulação 
correu de novo por toda a assembléá, e os que maior parte 
tinham tomado n aquella festa recebiam com grande affa- 
bilidade e modéstia os cumprimentos próprios da occasiâo. 
O velho S. Lourenço, caminhando tremulo ao encontro do 
Grão-Prior, apertou-o nos braços, e, salpicando-o todo de 
tabaco, fel-o espirrar violentamente. O conde de S. Vicente, 
apenas depositaram cuidadosamente na cova a innocente, 
retirou-se de má catadura, porque nunca estava bem na 
presença do seu cunhado Marialva; porém, a este sincero 
fidalgo a exultação e o triumpho íizeram-lhe transpor os 
limites do decoro. Ghasqueou acerbamente os hereges, pin- 
tou com as suas verdadeiras cores a actual felicidade da 
convertida, e, na occasiâo em que sahiamos da egreja, disse 
alto bastante para que todos os que estavam próximos 
o ouvissem: 

—Elle se /".... de nous tons à prése?it! 
Tendo acabado a sua pia tarefa, Mascarenhas e Acciaoli 
acompanharam-nos até ás alturas de Penha Verde, para 
respirar o ar fresco debaixo dos odoriferos pinheiros; 
depois, voltando na nossa companhia para o Ramalhão, 
partilharam d'uma delicada collação de doces e fructas 
geladas e passaram o resto da tarde, discorrendo larga e 
agradavelmente acerca das animadas scenas, a que acabá- 
vamos de assistir. 



XIX 



Anocdotas do conde de S. Lourenço —Visita a Mrs. Guildermeester 
— Sapas activas e sapas passivas — O velho cônsul e a sua 
bandeja de jóias. 



Os notáveis personagens, que tão piamente se distin- 
guiram hontem, jantaram comigo n"esta abençoada tarde. 
O velho S. Lourenço tem uma memoria prodigiosa e uma 
ardente imaginação, a que dâo ainda maior realce uns leves 
assomos de loucura. Parece estar perfeitamente ao facto da 
politica geral da Europa, e, apesar de nunca ter transposto 
as fronteiras de Portugal, contou com tão circumstan- 
ciados e plausiveis pormenores o que se passou, e a parte 
que teve no congresso de Aix-la-Chapelle, que eu cahi com- 
pletamente no logro, e, em quanto não estive no segredo, 
acreditei que elle tinha presenceado aquillo que não era 
mais do que um parto da sua imaginação! 

A despeito do alto valimento de que elle gosava junto 
da pessoa do infante D. Pedro, o marquez de Pombal encer- 
rou-o n'um cárcere com as outras victimas da conspiração 



102 

do duque de Aveiro, e durante o espaço de dezoito tristís- 
simos annos o seu activo espirito esteve reduzido a alimen- 
tar-se de si próprio. 

Depois da acclamação da actual rainha, foi o conde res- 
tituído á liberdade, e encontrou a partilhar o throno o 
infante, seu intimo amigo, mas, parecendo-lhe que era 
recebido com uma certa frieza, e vilmente desprezado, ati- 
rou a chave de camarista, que lhe mandaram, para um 
certo logar mais necessário do que digno, e recolheu-se ao 
convento das Necessidades. Affirmaram-me que não houve 
meio algum, que o rei não tentasse para o apasiguar e lison- 
jear, mas foram todos inúteis. Desde então, apesar de ter 
deixado o convento, nunca mais appareceu na corte, e 
recusou todos os logares que lhe offereceram. 

A devoção absorve agora completamente o seu espirito, 
e excepto quando lhe tocam na sua corda — a prisão e o 
marquez de Pombal — o conde mostra-se sereno e rasoa- 
vel. Assim o achei hoje contando as mais instructivas e 
divertidas anecdotas. 

Tomado o café, tendo-se os meus amigos convidados 
estendido o mais commodamente que poderam, uns na es- 
teira, outros nos sophás, supponho que para repousarem 
os espíritos depois da pia tarefa e da devota procissão da 
véspera, consegui que Marialva me acompanhasse a visitar 
Mrs. Guildermeester, que encontrámos n'uma vasta mas 
escura sala, com as suas sapas acocoradas á roda de si. 

Deu-nos ella um excellente chá e uma muito grossa fatia 
de pão de rala com deliciosa manteiga, acabada de sair 
duma genuína queijeira hollandeza, dirigida segundo os 
mais immaculados preceitos da sua terra. 

D. Genoveva, a sapa que estava de serviço, é uma ve- 



103 



lhinha baixa, trémula, com uma cabeça redonda como um 
pião e uns beiços grossos e plácidos, muito risonha e boa 
creatura. Miss Coster — a sapa activa— que devia ter sido 
bonita ha uns poucos de annos, faz o chá com decoro, fecha 
as portas o abre as janellas com acerto, e já tem muito que 
allegar em seu favor, quando lhe concedem sentar-se na 
sua cadeira. 

íamos ainda no principio dos nossos cumprimentos á 
dona da casa pelo completo êxito da sua vaccaria, quando 
entrou o velho cônsul, seu marido, com muitas cortezias e 
saudações, trazendo uma enorme bandeja do Japão, em 
que se via espalhado em brilhante profusão um grande the- 
souro de diamantes, uns lapidados, outros em bruto, fru- 
ctos do seu celebre e muito lucrativo contracto no tempo 
de Pombal. Alguns dos maiores, montados em pesados 
engastes allemães ou hollandezes, pediu elle instantemente 
a Marialva que os recommendasse á attenção da Rainha, e 
disse-me, em segredo, que também esperava que eu fatiasse 
em seu favor. Eu fiquei tão surdo como uma cobra, e o 
marquez tão cego como um escaravelho, perante o esplendor 
da exposição; e assim voltou elle mais uma vez para o seu 
gabinete interior com todas as suas esperanças murchas, 
e nós retirámo-nos. 

Ia entardecendo, e a névoa estendia-se sobre os roche- 
dos de Cintra. Não nos impediu isso de nos dirigirmos a 
casa de mr. Horne, passando debaixo de dóceis de oliveiras 
e castanheiros, cuja folhagem húmida exhalava o fresco 
aroma dos bosques. Sobranceira ás nuvens, que iam gy- 
rando, no momento em que sahiamos da sombria avenida, 
apparecia a torre do convento da Penha, phantasticamente 
illuminada pelos últimos raios do sol poente, e parecendo, 



104 



vista de baixo, nadar, como a Arca, no monte Ararat, sobre 
um mar de nuvens ondulantes. 

Em casa de Horne estavam reunidos Aguilar, Bezerra e 
a sociedade do costume. O marquez, apenas fez as suas 
amáveis cortezias para a direita e para a esquerda, reti- 
rou-se, e eu levei Horne na minha carruagem para casa de 
mrs. Staits, uma mulher baixa, delgada de cintura, e com 
uns olhos esgaseados, mas que estava longe de ser des- 
agradável ou insensível. Era o dia dos seus annos, e ella 
tinha reunido muitos dos inglezes, que estavam em Cintra, 
n'um jardim de setenta pés de comprido e trinta e dois de 
largo, illuminado por trinta ou quarenta lanternas. Lá es- 
tava mrs. Guildermeester, coberta de diamantes, scintillando 
como uma estrella, no meio d'aquella tenebrosa atmosphera. 
Serviram-nos uma ceia fria e fúnebre, em um pavilhão 
baixo, imitando uma gruta. 

O marido de mrs. Stait, sujeito bem disposto e tolerante, 
collocou-me junto de mrs. Guildermeester, que se divertiu 
menos mal á custa da festa. O aspecto sombrio e subter- 
râneo da barraca, a luz baça das lanternas economicamente 
distribuídas, e a fragrância dum guizado de mais que ma- 
duros lagostins, collocado debaixo do meu nariz, suggeriu-me 
a idéa de que estava morto e enterrado! 

— Ai de mim! — disse eu á minha formosa visinha — está 
tudo acabado para nós ! Este é o nosso primeiro banquete 
nas regiões infernaes : estamos todos aqui eguaes e confun- 
didos. Ali está sentada a pia presbyteriana mrs. Fussock 
com aquella impertigada menina, sua filha, e junto d'elles 

aquelles adúlteros pombinhos. Mr e a sua sultana. 

Aqui estou eu, miserável peccador, em frente do vosso 
honrado e muito paciente esposo; um pouco mais abaixo o 



105 



nosso amável amphitryão, um modelo de humildade e de 
resignação conjugal. Attenção! Nâo ouve um rumor de pas- 
sos pesados? Estão deitando uma carregação de cadáveres 
n'uma sepultura aqui visinha — 

E continuámos n'este estylo até esgotarmos o assumpto 
e serem horas de partir. 



XX 



Espera-se em Cintra a Rainha e o seu sequito-0 duque de Lafões 

— Excursão a uma feira do campo— Uma orgia de camponezes 

— Scena nocturna na quinta de Marialva. 



10 de setembro de 1181. 
Digamos adeus á tranquilidade de Cintra: em breve tudo 

aqui será rumor e confusão. Está prestes a chegar a Rainha 
com as suas damas de honor, os secretários d'estado, os 
anões, as pretas e os cavallos brancos, pretos e pigarços. 
Metade das quintas dos arredores d' aqui a pouco estarão 
seccas, porque se tomou posse militar dos aqueductos, e 
dirigiram-se as aguas por uma nova canalisação, para o ser- 
viço d'um acampamento. 

-v Estava eu passeando em uma extensa rua, coberta por 
uma abobada de limoeiros, quando appareceu Marialva no 
fim da avenida acompanhado pelo duque de Lafões. É este 
o mesmo personagem conhecido em toda a Europa pelo 
nome de Duque de Bragança; porém não tem direito a usar 
d'aquelle titulo illustre, que anda annexo á coroa. Se lhe cha- 
massem Duqueza viuva ou outra cousa parecida, penso que 



107 



ninguém poderia disputar-lhc a propriedade do seu titulo, 
tanto elle se parece com uma velha camareira, cheia de 
frioleiras e de affectação. Tinha posto carmim e moscas, e, 
apesar de haver já visto setenta janeiros, pretendia rodar 
sobre os calcanhares, e mover-se com a agilidade dos vinte 
annos ! 

Surprehendeu-me muito a facilidade dos seus movi- 
mentos, tendo eu ouvido dizer que elle era um martyr da 
gòtta. Depois de, em francez, ceceando, e com a mais re- 
quintada pronuncia, se queixar do sol, e dos caminhos e 
do estado da architectura, retirou-se — graças a Deus — e 
foi escolher o terreno para um acampamento de cavallaria, 
que deve guardar a sagrada pessoa da Rainha, durante a 
sua residência n'estes montes. Marialva tinha sido encar- 
regado de o acompanhar, mas deixou seu filho e os seus 
sobrinhos, herdeiros da casa de Tancos, para jantarem 
comigo. 

De tarde Verdeil, enfastiado de saracotear pelas varan- 
das, propoz uma cavalgada a uma aldeia visinha, onde havia 
uma feira. Elle e D. Pedro foram a cavallo, e precede- 
ram-nos, a mim e ao joven Tancos, que fomos n'um carro 
da quinta puchado por uma valente mula. Os caminhos são 
abomináveis, e parte d'elles seguem pelo sopé da encosta 
da serra de Cintra, que na primavera se mostra reves- 
tida d'alguma verdura, mas que n'esta estação nâo tem 
uma folha, que nâo esteja queimada e resequida. As rodas 
do nosso carro, que corria inclinado por estes escorregadios 
declivios, faziam levantar o aroma de innumeras hervas 
cheirosas, quasi reduzidas a pó. Thicknesse talvez dissesse, 
no seu original e affectado estylo, que a natureza esta- 
va-nos administrando uma pitada do seu melhor cephalico, 



108 



e na verdade nunca houve rapé algum, que me fizesse 
espirrar tanto! 

Custava-me muito a ter a cabeça, quando chegámos á 
feira, que era n'um ameno campo, limitado d'um lado pelo 
pittoresco convento dos Jeronymos, e do outro por alcanti- 
lados montes, com uma grande variedade de extranhas e 
românticas formas. Ha sobre tudo um rochedo, chamado 
a Pedra dos Ovos, terminando por uma cruz, que coroa 
o conjuncto, e tem um aspecto muito pittoresco. Por detraz 
do convento uma matta fechada de oliveiras, robles e 
limoeiros, occupa um pequeno valle muito fresco, graças ás 
fontes cujas limpidas aguas são distribuídas por claustros 
e jardins rodeados de columnas baixas de mármore, que 
sustentam arcos lavrados no estylo moirisco. 

Os camponezes que tinham vindo á feira, estavam espa- 
lhados pelo campo, uns conversando com os frades, outros 
semi-ebrios, escorregando dos seus burros, e perneando no 
chão, outros finalmente comprando redes de seda e anneis 
reluzentes, para oíferecerem ás suas namoradas. Os frades, 
que estavam muito entretidos em administrar todas as espé- 
cies de consolações, tanto espirituaes como temporaes, 
segundo as suas respectivas edades e vocações, não nos 
prestaram, felizmente, attenção alguma, e por isso escapá- 
mos de ficar empanturrados com doces, e estafados com 
cumprimentos. 

Voltámos ao pôr do sol para o Ramalhão, e tomámos chá 
na sala grande, que parece uma lanterna, porque não tem 
menos de doze janellas e portas envidraçadas e de largas 

dimensões 1 

Não corria uma aragem; sentia-se o ar embalsamado de 
aromas, e a transparência do ceu era tal, que não con- 



109 



sentiu que permanecêssemos debaixo cToutro docel. Mette- 
mo-nos outra vez nos carros, e á luz dúbia das estreitas 
sem conto fomos até á nova casa do cônsul hollandez. 

Passava das dez, quando recolhemos para o palácio de 
Marialva, e, muito antes de lá chegarmos, ouvimos os sons 
plangentes de vozes e instrumentos de vento, que sahiam 
d'entre a espessura da matta. 

A marqueza, D. Henriqueta, e um numeroso grupo de 
creadas, muitas das quaes assaz engraçadas, estavam sen- 
tadas na borda do lago principal, attentas de alma e cora- 
ção ao ensaio d'uma deliciosa musica, com que tencionam 
dar uma serenata a Sua Magestade d'aqui a poucos dias. 

A noite de hontem era uma d'essas noites serenas e 
geniaes, em que a musica adquire um dobrado encanto, e 
abre o coração a ternas, embora melancólicas impressões. 
Não bulia uma folha, nem uma aragem sequer agitava a 
clara chamma das velas, que tinham collocado ao pé das 
fontes, e que serviam somente para as tornar visíveis. 
A agua, correndo nas rigueiras para a rega dos limoeiros, 
deixava ouvir o seu intercortado murmúrio, e nas pausas 
do concerto nenhum outro rumor se percebia senão o dal- 
gum timido segredar. A magia da noite, da musica e do 
mysterio, tudo concorreu para mergulhar a minha alma 
uuma espécie de extasis, de que nâo despertei sem dolo- 
rosa reluctancia. 



XXI 



Curiosa scena no interior do palácio de Cintra — Um convite sin- 
gular—Janto com o Arcebispo-Coníessor — Jovialidade e ma- 
liciosas observações d'este extraordinário personagem. 



12 de setembro de 1787. 

Acabava eu de me levantar, quando me annunciaram o 
Grão-Prior e mr. Street; este despresando reis, rainhas e 
principes, apesar do seu poderio, e clamando pela liber- 
dade e independência; aquelle a queixar-se dos nevoeiros 
e humidades. 

Apenas o advogado do republicanismo se retirou, fomos, 
conforme a indicação que tinhamos recebido, visitar o Arce- 
bispo-Gonfessor, sendo immediatamente admittidos no seu 
sanctum sanctorum — um agasalhado aposento, forrado de 
apparatosas e alegres tapeçarias, que communicava com os 
quartos da Rainha por uma escada de caracol. Um leigo 
rústico, gordo e patusco, tâo completamente grosseiro e 
vulgar como qualquer carreiro ou arrieiro da christan- 
dade, entreteve-nos, emquanto o seu amo nâo veiu, con- 
tando-nos algumas interessantes, posto que nâo mui decen- 
tes historias do palácio. 



111 



Aquelles que esperam encontrar no Grande Inquisidor 
de Portugal um rosto sêcco e lúgubre, e um olhar repro- 
vador e de maldição, ficam logrados. Raras vezes a gente 
tem o prazer de ver uma physionomia mais agradável, 
mais jovial, do que aquella com que o ceu benignamente 
o dotou. 

Recebeu-me da maneira mais franca e cordeal, e tenho 
rasôes para crer que estou em grande valimento junto da 
sua pessoa. Conversámos acerca dos arcebispos em Ingla- 
terra serem casados. 

— Olhe — disse o prelado — nâo acha que os seus arce- 
bispos sâo uns sujeitos singulares, consagrados nas cer- 
vejarias, e bons companheiros de garrafa? Disseram-me 
que aquelle orate do lord Tyrawley era arcebispo na sua 
terra. 

Podeis imaginar quanto eu ri, ouvindo este inconcebí- 
vel disparate, e, ainda que não posso dizer, fallando de 
Sua Revd. raa , que «as verdades divinas venham melhoradas 
da sua bocca» — pode-se-me conceder que aquelle dispa- 
rate ficou ainda mais disparatado, sahindo de tâo vene- 
randa fonte. 

Quando estávamos sentados ás janellas da salla, ouvindo 
tocar uma banda regimental, vimos João António de Cas- 
tro, o engenhoso machinista, inventor do actual systema 
de illuminaçâo de Lisboa, dois ou três solemnes domi- 
nicanos, e um famoso bobo da corte — D. João da Falperra, 
vestido á fidalga, coberto de lentejoulas e ornado de con- 
decorações falsas — subindo todos juntos as escadas da 
grande sala da audiência. 

— Olhem, olhem! — disse o faceto e malicioso leigo, ora 
vejam ali uma pintura exacta dos nossos costumes! Ha 



112 



tres qualidades de pessoas, que mais depressa fazem car- 
reira n'este palácio — os homens de superiores talentos* 
os bobos e os santos. Os primeiros cedo perdem quanta 
esperteza possuem, os santos tornam-se martyres, e só os 
bobos é que prosperam! 

O Arcebispo deu o seu cordeal assentimento a estas pala- 
vras com um significativo movimento da cabeça, e, achan- 
do-se, como já disse, n'uma disposição de espirito extre- 
mamente benévola e communicativa, quando eu me levantei 
para me despedir, não permittiu que me fosse embora. 

— Nâo, nâo, nâo pense em me deixar tão cedo. Vamos 
apparecer na sala dos Cysnes, onde toda a corte está espe- 
rando por mim, e peço-lhe que me diga o que pensar dos 
nossos grandes fidalgos. 

Segurando-me nas pontas dos dedos conduziu-me, atra- 
vez de grande numero de sombrios quartos e corredores, 
a uma porta particular, que dava sahida da sala de rece- 
pção da Rainha para um vasto salão, apinhado, segundo 
realmente creio, com metade dos dignitários do reino! Ali 
estavam bispos, prelados das ordens religiosas, secretários 
distado, generaes, gentis-homens da camará, e cortezãos 
de todas as qualidades, tão elegantes e vistosos quanto os 
podiam fazer os uniformes bordados, as commendas, as 
cruzes e as chaves d'oiro. 

Foi verdadeiramente risivel o espanto d'esta assembléa á 
nossa imprevista apparição, e não admira. Devia-lhes pare- 
cer que nós iamos romper um menuete — o gordo Arcebispo 
com os seus hábitos brancos fluctuantes, ostentando a sua 
pessoa como um peru empavesado, e eu, ás cortezias, 
avançando n'uma espécie de passo grave, piscando os olhos 
como uma coruja em pleno sol, graças á minha rápida 



113 



passagem da escuridão para a mais deslumbrante clari- 
dade. 

Metade dos circumstantes dobravam o joelho, uns com 
petições, outros com memoriaes, aquelles pedindo logares 
e promoções, estes bênçãos, de que o meu reverendo con- 
ductor não era de certo pródigo. Elle parecia tratar todas 
estas vivas demonstrações de adulador servilismo com o 
modo mais desdenhoso, e, cortando pela multidão, que se 
afastava respeitosamente para nos dar passagem, chamou 
por acenos o visconde de Ponte de Lima, o marquez de 
Lavradio, o conde de Óbidos, e dois ou três fidalgos mais 
que estavam de serviço, para um quarto pequeno e baixo, 
que não tinha mais de vinte pés de altura por quatorze 
de largura. 

Depois de muitos comprimentos adulatorios, no tom mais 
submisso, da parte dos cortezãos, pelos quaes elles não 
receberam senão repulsas e resmungadellas, o Arcebispo 
chegou a sua cadeira para junto da minha, e disse com 
voz muito clara e alta: 

— Meu caro inglez, tudo isto é uma sucia de marotos 
aduladores : não acredite nem uma palavra do que elles lhe 
disserem. Apesar de brilharem como oiro, a lama não é 
mais vil: eu conheço-os bem. Aqui está — continuou elle, 
pegando-me na aba da casaca — uma prova da prudência 
ingleza. Este botãosinho para segurar a algibeira é uma 
invenção preciosa, especialmente na grande sociedade: não 
o tire, não adopte nenhuma das nossas modas, ou terá de 
se arrepender. 

Esta rajada de espirito foi recebida com a mais resi- 
gnada complacência pelos que a tinham inspirado, e, ape- 
sar de todo eu ser olhos e ouvidos, custou-me a ter fé 



114 



n'uns e n'outros, vendo as mais cortezes gesticulações, e 
ouvindo os mais abjectos protestos da dedicada affeição 
de todos os presentes á sagrada pessoa de Sua Reve- 
rendíssima ! 

Não se pode dizer por quanto tempo continuaria esta 
corrente de adulações, se não fosse interrompida por uma 
ordem da Rainha, exigindo a presença immediata do Con- 
fessor. Sacudindo os seus hábitos com violência, elle sahiu 
apressado, dizendo-me em alta voz, por cima do hombro: 
—Volto d'aqui a meia hora. Ha de jantar comigo. 
— Jantar com elle! exclamaram todos em coro. Nunca 
nenhum de nós teve tamanha honra! Que felicidade! Que 
distincçâo que recebe! 

Agora devo confessar que eu não estava de forma al- 
guma encantado com este tão particular convite. Tinha 
um aprazamento muito mais agradável em Penha Longa, 
um dos mais frescos e românticos sitios de toda esta poética 
região, e não me sentia com vocação alguma para estar 
engaiolado n'um quarto fechado, do tamanho duma caixi- 
nha, cheirando a tintas e a verniz o bastante para me fazer 
uma enxaqueca; comtudo não havia meio de me livrar. 
Disseram-me que devia obedecer, porque todos, n'estas 
regiões, grandes ou pequenos, sem exceptuar a própria 
Familia Real, obedeciam ao Arcebispo, e que eu devia consi- 
derar-me muito feliz por ter tão agradável opportunidade. 
Seria só repetir o que é conhecido por todos os que 
sabem alguma cousa de cortes e cortesãos, accrescentar 
aqui os floreados discursos, os calorosos elogios, que recebi 
dos mais bem emplumados pássaros d'esta ninhada sobre 
as minhas transcendentes perfeições e as do meu futuro 
amphitryão. A meia hora, que a pouco e pouco passou de 



115 



tres quartos, com difíiculdade cheg.011 para o que tinham 
que dizer, em meu abono, metade d'aquelles mesmos que, 
passados poucos dias, eram todos reserva e indifferença, 
se acontecia eu approximar-me d'elles. 

Quem me conduziu depois para este invejado banquete 
não foi nem mais nem menos do que o marquez de Ma- 
rialva, que, com uma alegre surpreza em todos os seus 
gestos, me disse ao ouvido: 

— Eu também sou da festa, e posso-lhe affirmar que é 
a primeira vez na minha vida. Ninguém mais é convidado, 
porque o meu tio (o Grão-Prior). cançado de estar á sua 
espera, foi-se embora. 

Batemos na porta reservada, que immediatamente nos 
abriram, e, seguindo pelos mesmos corredores por onde 
outra vez eu já havia sido levado, fomos ter a uma ante- 
câmara, que dava para uma cosinha pequena, mas muito 
aceiada, onde o leigo, de mangas arregaçadas até aos hom- 
bros, se entregava aos trabalhos culinários. A mesa es- 
tava posta com tres talheres na sala das tapeçarias, e 
n'um sophá, a um canto do aposento, vimos sentado o 
omnipotente prelado, embrulhado em um velho casacão 
côr de castanha, roto e mal remendado. 

— Anda — disse elle, batendo as palmas, á moda oriental 
— serve-nos, e deixa-nos estar alegres. Oh! estas mulheres, 
estas mulheres lá de cima — que flagello ter de apasi- 
guar as suas discórdias! Ninguém conhece melhor do que 
você, marquez, quanto aquelles enigmas são difficeis de 
decifrar. Atrevo-me a dizer que os arcebispos inglezes não 
teem metade d'estes obstáculos, que eu tenho a vencer. . . 
Bem — vejamos o que ha para lhes offerecer. 

N'este momento entrou o leigo com tres leitões assados 



116 



n'uma immensa bandeja de prata massiça, e um enorme 
pirão, tão admirável pela quantidade como pelo tamanho: 
nem podia deixar de ser assim, visto que só d'estas duas 
iguarias se compunha o nosso jantar. Dizem-me que a 
comida nunca varia na mesa do Arcebispo, e que os lei- 
tões succedem-se aos leitões, e os pirões aos pirões, atra- 
vez todas as vicissitudes das estações, á excepção de cer- 
tos dias de jejum obrigados a rigoroso magro. 

A simplicidade d'esta parte do nosso banquete foi com- 
pensada pela profusão e esplendor da sobremesa, a qual 
na variedade das fructas e doces excedeu tudo o que eu 
até então tinha saboreado. Emquanto aos vinhos, eram 
admiráveis,— tributo de todas as regiões dos dominios por- 
tuguezes offerecido a este santo luminar. 

A companhia do Alto Douro, que anda agora sollicitando 
a renovação do seu privilegio, contribuiu com o mais esco- 
lhido producto das suas mais felizes colheitas, e como acon- 
teceu eu gabar a sua peculiar excellencia, o meu hospi- 
taleiro amphitryão, cujo bom humor parecia adquirir de 
momento para momento mais animação, insistiu para que 
eu acceitasse alguns barris d'elle, os quaes me foram pon- 
tualmente enviados na manhã seguinte. 

A jovialidade do Arcebispo chegou ao seu auge, e, sup- 
pondo que eu não era menos sensível ao prazer das liba- 
ções entre convivas do que muitos dos meus compatriotas, 
serviu-me tantas vezes e com tanta alacridade, como se eu 
fosse um dos seus imaginários arcebispos, ou o próprio lord 
Tyrawley, que tivesse voltado d'essas frias regiões, onde 
não se dão jantares nem circulam as garrafas. 

O leigo era uma tal fonte de anecdotas, o Arcebispo 
estava de tal forma alegre, e Marialva tão jubiloso, por ter 



117 



sido admittido a este secreto festim, que é impossível dizer 
por quanto tempo elle se prolongaria, se não se approxi- 
masse a hora do passeio de Sua Magestade, e o Arcebispo 
não fosse chamado para a acompanhar. O marquez como 
Estribeiro-Mór também nâo podia dispensar-se do seu 
serviço, e assim eu fiquei entregue ao irmão leigo, o qual, 
conduzindo-me por outro labyrintho de corredores, abriu 
uma espécie de postigo, e deu-me sabida com a mesma 
semceremonia com que teria soltado um ganso para o 
cevadouro ! 



XXII 



Exploro os montes de Cintra — O convento de Nossa Senhora da 
Penha — Ruinas mouriscas — O Convento de cortiça — O cabo 
da Roca— Aspecto do mar — Exemplos da susceptibilidade de 
imaginação dos antigos. 

19 de setembro de 1787. 

Tâo formoso dia como este nunca eu vi, nem um azul 
de ceu de tamanho encanto ! Ás seis e meia já os Marialvas 
estavam comigo, e percorremos a cavallo os montes agres- 
tes, que dominam uma grande extensão do campo, appa- 
rentemente deserto, porque as aldeias, se algumas ha, 
estão occultas nas baixas e nas quebradas. 

Tencionando explorar a serra de Cintra d'um a outro 
extremo da cadêa, collocámos mudas em differentes esta- 
ções. A nossa primeira paragem foi no convento de Nossa 
Senhora da Penha, o pequeno e romântico grupo de edi- 
ficações brancas, que eu tinha visto alvejar ao longe, quando 
á vinda passei no mar em frente da costa de Lisboa. É illi- 
mitada a perspectiva que se desfructa d'este monte pyra- 
midal: os olhos baixando dilatam-se pela immensa extensão 
das aguas do vasto e infinito Atlântico. Uma longa serie 
de nuvens soltas, d'uma alvura deslumbrante, suspensas 



119 



a pouca altura do mar, produziam um effeito magico, e nos 
tempos do paganismo tomal-as-iam, sem grande esforço de 
phantasia, pelos carros das divindades marinhas, que aca- 
bavam de surgir do seio do seu elemento. 

No que viamos em roda de nós nâo havia nada interes- 
sante. As ruinas mouriscas, próximas do convento, são 
apenas dignas de menção, e realmente não parecem ter 
pertencido a algum edifício considerável. Foram prova- 
velmente construídas com as dilapidações d'um templo 
romano, cujos edificadores talvez também se tivessem 
apoderado dos restos d'um templo púnico ou tyrio, er- 
guido n'estas alturas, e ennegrecido pelo fumo dos seus 
horriveis sacrifícios. 

Entre as fendas das derruídas paredes e principalmente 
na abobada da cisterna, que parece ter servido de reser- 
vatório e de banho, descobri algumas capillares e polypo- 
dios extremamente delicados, e n'um pequeno espaço 
plano, em frente do convento, uma numerosa tribu de cra- 
vos, gencianas e outras plantas alpinas, banhadas e forta- 
lecidas pelo ar puro da montanha. 

Esta fresca briza, impregnada do perfume de innume- 
ras hervas e flores aromáticas, parecia infundir um novo 
alento nas minhas veias, e um quasi irresistível desejo de 
me prostrar por terra, e adorar n'este vasto templo da 
Natureza a origem e a causa da vida. 

Tínhamos em perspectiva um longo passeio, e por isso nâo 
pude demorar-me metade do tempo que desejava, n'aquelle 
alto e apartado monte. Descendo por uma soffrivel es- 
trada, que serpêa entre os rochedos em muitas curvas 
irregulares, percorremos algumas milhas d'um estreito pla- 
nalto, sobre a crista de montes bravios e ermos, até ao 



120 



Convento de cortiça, que corresponde exactamente, á pri- 
meira vista que lhe lançámos, á pintura que fazemos no 
nosso espirito da habitação de Robinson Grusoe. 

Em frente da porta, formada por dois fragmentos d'um 
grande rochedo, estende-se um macio tapete de relva, to- 
sado pelas vaccas, cujas campainhas tilintantes me des- 
pertaram lembranças de outros dias, passados no meio de 
um scenario agreste e alpino. O eremitério, as cellas, a ca- 
pella, o refeitório, tudo é aberto na rocha, e forrado de 
casca de sobreiro; muitos corredores não só teem o tecto 
mas também o chão cobertos da mesma substancia extre- 
mamente macia e agradável ao andar. O arvoredo e os 
canteiros ajardinados, dispersos por ente os rochedos mus- 
gosos, e espalhados em volta na mais silvestre confusão, 
são deliciosos, e eu diverti-me a explorar os seus recantos 
e esconderijos, seguindo o curso d'um cristalino e murmu- 
rante ribeiro, que forma uma cascata entre moitas de alfa- 
zema e rosmaninho do mais desmaiado verde. 

O Prior d'este romântico cenóbio é apresentado pelos 
Marialvas, e era este o dia da sua installação: fomos por 
isso instados para jantar com elle, e não podíamos recusar, 
porém, como ainda era muito cedo, galopámos para deante, 
tencionando visitar um rochedo celebre — a Pedra d'Alvi- 
drar — que é uma das feições mais salientes do afamado 
promontório da Roca de Lisboa. 

A estrada que seguíamos pela orla dos bosques, que cir- 
cumdam a deliciosa aldêa de Gollares, levou-nos a uma 
outra serie de eminências escalvadas, que se estendem 
ao longo da praia. Cheguei-me até á beira do rochedo, 
que tem uma grande altura, e é quasi perpendicular. Um 
bando de rapazes tinha-nos acompanhado, e cinco latagôes, 



121 



destacados d'esta malta, desceram o temeroso precipício 
com a mais completa indifferença, sobre tudo um d'elles, 
que foi com os braços abertos, e que parecia uma creatura 
sobrenatural! 

A costa é realmente pittoresca. Tem projecções audazes, 
entremeadas de rochedos pyramídaes, que se succedem 
uns aos outros em perspectiva theatral, sendo o mais affas- 
tado coroado por uma elevada torre, que serve de pharol. 

Não ha palavras, que dêem uma idéa adequada da trans- 
parência da atmosphera e da prateada luz reflectida nas 
aguas! Da borda do abysmo, onde estive uns poucos de 
minutos, como preso por uma fascinação, descemos, por 
uma vereda sinuoza de quasi meia milha, até ao fim da 
rocha. Ali achámo-nos quasi encerrados no meio de las- 
cados rochedos e de grutas — um phantastico amphitheatro, 
o mais bem calculado que se poderia imaginar para recreio 
das nimphas do oceano. Enseadas, como estas, tão fundos 
e anfractuosos recessos, uma tal variedade de contornos — 
nunca assim eu vi, nem ouvi tão pouco em nenhuma outra 
costa bramir as ondas com tanto estridor! Não admira que 
a ardente e susceptível imaginação dos antigos, inflam- 
mada por aquelle scenario, os induzisse a acreditar que 
percebiam as conchas dos tritões resoando n'estas recôn- 
ditas cavernas, nem que alguns sizudos luzitanos decla- 
rassem positivamente, que não só as tinham ouvido, mas 
que as haviam visto, e enviassem um mensageiro ao impe- 
rador Tibério, para lhe dar conta do caso, e congratular-se 
com elle por uma tão evidente e auspiciosa manifestação 
da divindade! 

A maré principiava a baixar, e deixou-nos, não sem al- 
gum risco, passar para uma caverna de uma altura surpre- 



122 



hendente, cujas paredes estavam incrustadas de bellas 
lapas e de grupos de variadas conchinhas. Não longe da 
abertura por onde nós entrámos a custo, as ondas arremet- 
tiam alterosas contra alguns penhascos rudes e porosos, 
erguiam-se aos ares, e formavam instantâneos dóceis de 
espuma, que se desfaziam, cahindo pelas rochas em milha- 
res de cristalinos fios de prata. Os trémulos lampejos da luz 
projectada sobre as arcadas irregulares, que davam accesso 
para outras grutas mais sombrias e recônditas, a mysteriosa 
e húmida escuridão, o echo dos murmúrios, e os sons quasi 
musicaes produzidos pelo conflicto do vento e das aguas, 
o pronunciado cheiro da atmosphera impregnada de partí- 
culas salinas, tudo isto produzia tão magico effeito sobre 
os sentidos, que eu concebo facilmente que uma alma com 
tendências poéticas podia sentir-se transportada áquelle es- 
tado espiritual, que nos predispõe a crer em appariçôes 
sobrenaturaes. Não me surprehende, portanto, a credu- 
lidade dos antigos, e o que só me admira é que a minha 
própria imaginação não me illuda também! 

Se a solidão podesse induzir as Nereidas a conceder-me 
uma apparição, a occasião era opportuna, porque todos 
os meus companheiros tinham-se affastado em differentes 
direcções, e haviam-me deixado completamente só. Du- 
rante meia hora estive sequestrado do mundo vivo:— um 
solitário corvo marinho era o único ser animado que eu 
via, poisado sobre um rochedo no mar, a uns cincoenta 
passos da bocca da caverna. 

Eu estava a tal ponto atturdido pelos confusos sons e 
ruidos, que me enchiam os ouvidos, que só, passados alguns 
momentos, pude distinguir as vozes de Verdeil e D. Pe- 
dro, que voltavam d'uma exploração ás algas emadréporas, 



23 



gritando-me que montasse a cavallo, e partíssemos a toda 
a pressa, para alcançarmos o marquez e os seus creados, 
que tinham ido á missa ao Convento da cortiça. Felizmente 
as nuvensinhas soltas, que avistáramos do alto de Nossa 
Senhora da Penha, em vez de se desfazerem no cerúleo 
ceu, tinham-se agglomerado, e abrigavam-nos do sol. Fize- 
mos, portanto, uma deliciosa cavalgada, e quando nos apeá- 
mos dos nossos palafrens, encontrámos o velho abbade, 
que acabava de chegar com Luiz de Miranda, coronel do 
regimento de Gascaes, ambos rodeados por um synodo com- 
pleto de monges, tão pittorescos quanto o permittiam as 
suas cabeças nuas e as suas venerandas barbas. 

Apenas o marquez voltou das suas devoções, serviram 
o jantar exactamente no mesmo estylo de Mequinez ou de 
Marrocos — pirões de differentes maneiras, codornizes deli- 
ciosas e pyramides de arroz corado com açafrão. Em ma- 
téria de fructas e doces foi a nossa sobremesa mais opu- 
lenta, e a própria Pomona não se envergonharia de trans- 
portar no seu regaço pecegos e ameixas, como as que em 
grande profusão ornavam a mesa! 

O abbade, depois de jantar, parecia animado pelo espi- 
rito da contradicção, e teimava em que o marquez e Luiz 
de Miranda não sabiam mais da corte de D. João v do que 
da de Pharaoh, rei do Egyptol 

D. Pedro, Verdeil e eu, para não ficarmos surdos com a 
gritaria da disputa, em que principiaram a tomar parte 
dois ou três monges com umas vozes stentorianas, trepá- 
mos por entre uma matta de pendidos medronheiros, bu- 
xos e murtas, a uma pequena plataforma atapetada de fina 
relva, que á menor pressão exhalava um aromático e fresco 
perfume. Ali nos sentámos, embalados pelo murmúrio das 



124 

longínquas ondas, que se quebravam d'encontro ás escal- 
vadas penedias, que visitáramos de manhã. As nuvens 
vinham correndo lentamente sobre os montes. Os meus 
companheiros quebraram pinhas e deram-me os pinhões, 
que teem um gosto agradável, parecido com o das amên- 
doas. 

Era já o fim da tarde, quando abandonámos o nosso 
tranquillo e solitário posto, e fomos ter com o marquez, 
que ainda não conseguira apasiguar o abbade. O velho voci- 
ferador appellava tantas vezes para o Padre-guardião do 
Convento em defeza das suas opiniões, que julguei que 
nunca sahiriamos dali. Partimos, finalmente, e depois de 
vaguearmos perdidos duas horas por entre nuvens e tre- 
vas, chegámos a Cintra ás dez em ponto. A marqueza e 
os meninos tmham-se assustado muito com a nossa longa 
ausência, e reprehenderam severamente o abbade por ter 
sido causa d'ella. 



XXIII 



Excursão a Penha Verde — Semelhança entre aquelle palácio e os 
edifícios das paizagens de Gaspar Poussin — Os antigos pinhei- 
ros plantados, segundo dizem, por D. João de Castro — Velhas 
llorestas substituídas por pomposos jardins — Aílluen cia de vi- 
sitantes — A erudição de um celebre prior e os seus singula- 
res anachronismos — A besta do Apocalypse — OEcolampadio 
— Um rancho de damas do Palácio — Festa na quinta de 
Marialva — A Rainha e a Familia Real — A anã preta favorita 
— Aspecto imponente da Rainha — Profundo respeito que a sua 
presença inspira — A etiqueta rigorosa — Grande fogo de arti- 
ficio — A joven condessa de Lumiares — Impressionadora se- 
melhança. 



22 de setembro de 1787. 

Quando me levantei, desappareciam os nevoeiros de sobre 
os montes, e o mar ao longe ia-se descobrindo em todo o 
esplendor do seu azul. Apesar de ter motivos para esperar 
muitas visitas de ceremonia de Lisboa, a manha estava tâo 
convidativa, que não pude resistir a dar um passeio a ca- 
vallo depois do almoço, embora com o risco de nâo estar 
presente, quando ellas chegassem. 

Segui pela estrada de Collares, e senti no ar uma sua- 
vidade e uma fragrância deliciosas. Uns chuveiros, que 



126 

tinham cahido, refrescaram toda a superfície dos campos, 
e coloriram de purpura e de verde os alcantis para lá da 
Penha Verde, porque a numerosa família das urzes acha- 
va-se em plena florescência, e os pequenos prados, com os 
seus curvos e torcidos sobreiros, tão numerosos á beira 
dos caminhos, estão agora cobertos de grandes lírios bran- 
cos, matizados de cravos. 

Penha Verde é um sitio encantador. O palácio, com os 
seus tectos baixos e direitos e com a galeria a projectar-se 
n'uma das suas extremidades, recorda-nos exactamente a 
architectura das paizagens de Gaspar Poussin. Em frente 
d'uma das fachadas ha um terraço quadrado com uma 
fonte no meio, e nas paredes veem-se nichos com bustos 
antigos. Por detraz d'estas paredes eleva-se a grande altura 
uma variedade de arvores e arbustos, formando um mas- 
siço da mais rica folhagem. Os pinheiros, cuja brilhante 
cor verde deu o epitheto a esta aguda penedia, são tão 
pittorescos como os que eu costumava admirar na villa dos 
Negroni em Roma, e tão corpulentos como elles ou tal- 
vez mais. Affirma a tradição que foram plantados pelo 
muito celebre D. João de Castro, cujo coração repousa 
n'uma pequena capella de mármore, ao abrigo da sua 

sombra. 

Quantas vezes aquelle coração heróico, quando ainda 
pulsava dentro d'um dos melhores e mais magnânimos pei- 
tos humanos, anhelou por esta tranquilla solidão! Aqui, ao 
menos, promettia-se elle a si próprio aquelle socego, que 
tão cruelmente lhe negava a cega perversidade dos seus 
ingratos compatriotas, porque a sua vida tinha sido uma 
árdua lucta, um longo e mortal combate, não só no campo, 
debaixo d'um sol ardente, affrontando os perigos e a morte, 



127 



mas também sustentando a gloria e a boa fama de Portugal 
contra as intrigas da corte e as vis maquinações dos inve- 
josos inimigos domésticos. 

Esta paizagem, apesar de ainda hoje ser encantadora, 
passou provavelmente por grandes mudanças desde esse 
tempo. Desappareceram os densos bosques de que faliam 
os livros, e muitas das nascentes, que elles abrigavam. Fon- 
tes architectonicas, pomposos terraços, e alinhadas fileiras 
de laranjaes, usurparam o logar d'aquelles pomares bravios 
e dos torrentosos ribeiros, por onde podemos suppor que 
a sua imaginação discorria, quando muitas mil léguas o 
separavam do seu paiz natal. 

Tudo isto está mudado, porém os homens são os mes- 
mos do seu tempo, egualmente insensiveis ás admoesta- 
ções do verdadeiro patriotismo, e egualmente dispostos a 
curvar-se sob o sceptro da corrupta tyrannia 1 É assim que 
pelo despreso dos homens sábios e virtuosos e por uma vil 
subserviência a perversos desvairados, épocas, que podiam 
ser de oiro, sâo transformadas, por uma maldita alchimia, 
em ferro manchado de sangue ! 

Custou a arrancar-me dali, impressionado como estava 
por todas as memorias, que aquelle interessantíssimo logar 
não podia deixar de despertar em mim. Mais d'uma vez 
pizei essas musgosas veredas, que, subindo por entre som- 
brios rochedos, vão dar á pequena plataforma terminada 
pela capella sepulchral — 

« densis quam pinus opacat 

Frondibus et nulla lucos agitante procella 
Stridula coniferis modulatur carmina ramis». 

Não vos admireis então, se eu fui sempre perseguido, á 
volta para casa, por esse mysterioso rumorejar, nem se, em 



128 



tal disposição de espirito, eu não vi com grande prazer uma 
procissão de seges de duas rodas, sabe Deus quantos bo- 
lieiros, e uma caravana de burros, dirigindo-se para a 
porta da minha casa. Estava preparado para esperar uma 
considerabilissima aííluencia de visitas, mas aquillo era um 
diluvio! 

Não vos envio uma lista da minha sociedade, para que 
não fiqueis tão aborrecido com os pormenores, como eu fiquei 
com uma tal invasão em massa: basta nomear dois dos 
principaes personagens, o velho e devoto conde de S. Lou- 
renço e o prior de S. Julião, um dos maiores favoritos do 
Arcebispo e pessoa de grande consideração. 

Acontecendo estar em cima da mesa a Biblia hollandeza 
de Mortier, principiaram elles a folheal-a com um desas- 
tramento extraordinário. Eu, que não gosto de ver os livros 
assim maltratados e as estampas indicadas com a im- 
mediata applicação d'um index engordurado, adverti o 
conde, e dirigi um olhar severo ao prior, que estava des- 
cançando todo o sagrado peso do seu corpo sobre o vo- 
lume, ao mesmo tempo que ia dobrando os cantos das 
folhas. 

Tocou a minha orchestra, e Pedro Grua, um violoncello 
de primeira ordem, ostentou os seus talentos no mais pri- 
moroso estylo, mas S. Lourenço é que estava tão pathetica- 
mente entretido a deplorar o morticinio dos Innocentes, 
que não lhe prestou nenhuma attenção, e o seu reverendo 
companheiro tinha entrado n'uma larga dissertação acerca 
de parábolas, milagres e martyrios, da qual eu em vão pedi 
a Deus me livrasse! Verdeil, farejando de longe o santo 
perfume d'aquelle discurso, escapuliu-se. 

Não posso louvar muito a erudição do prior, mesmo em 



1 29 



matéria de religião, porque aííirmou positivamente que foi o 
próprio Henrique viu quem deitou os miolos fora a S. Tho- 
maz Beckct 1 , e que na besta do Apocalypse estava indi- 
cado claramente Luthero! 

Odeio as disputas, e, se nâo fosse o terem-me maculado 
as minhas estampas, nunca teria contradito Sua Revd. ma , 
mas como estava um pouco zangado, rebaixei-o alguma 
coisa no conceito do conde, fixando a data verdadeira da 
morte de S. Thomaz, e com argumentos soffrivelmente 
especiosos affastei de Luthero os cornos da besta, appli- 
cando-os — a quem imaginaes que foi? — a OEcolampa- 
dio ! - Um nome tão grande, que muito provavelmente 
elles nunca tinham ouvido pronunciar, levou tudo de ven- 
cida, dando mais um exemplo da victoria do som sobre 
o sentido, e acabou com a discussão. 

Éramos mais de trinta, creio eu, ao jantar, e iamos no 
principio da sobremesa, quando Berti veiu dizer-me que 
M. me Arriaga e um rancho de senhoras do palácio anda- 
vam correndo na quinta, montadas em garranos e burros. 

Apressei-me a ir ao seu encontro. Estavam lá D. Maria 
do Carmo e D. Maria da Penha, com os cabellos fluctuan- 
do-lhes sobre os hombros, e os seus grandes e formosos 
olhos, tão ingénuos e vagos como os d'uma antílope. Man- 
dei buscar o meu cavallo, e galopámos atravez das alame- 
das e dos pomares de limoeiros, pisando folhas, fructos e 
flores. A brisa trazia-nos o som das trompas e dos oboés. 



1 Thomaz Bfrcket, arcebispo de Canterbury, defendeu as prerogativas da 
egrcja contra Henrique n, e foi assassinado, em 1170, por quatro fidalgos 
mandados pelo rei. 

- (Ecolampadiò, cujo verdadeiro nome era João Haussçhein, foi também 
um dos auctores da Reforma Protestante. 

9 



130 



As senhoras pareciam gostar prodigiosamente da isenção e 
novidade d'esta excursão, lamentando que ella não podesse 
durar mais tempo, porque ás sete horas eram obrigadas a 
retirar-se, para não faltarem ao seu serviço junto á pessoa 
da Rainha. Se o castigo da sua desobediência fosse alguma 
extranha metamorphose n'uma abóbora, ou n'um pepino, 
como nos contos de fadas, ellas não teriam manifestado 
maior temor e anciedade, ao aproximar d'esse momento 
fatal! Felizmente, não tiveram que andar muito, porque 
Sua Magestade e a Família Real estavam todos reunidos na 
quinta de Marialva para uma esplendida merenda e um 
fogo d' artificio. 

Apenas escureceu Verdeil e eu sahimos a observar a occul- 
tas o régio sarau. O Grão-Prior e D. Pedro conduziram-nos 
mysteriosamente a um boudoir retirado, que fica em frente 
do pavilhão grande, cujo aspecto alegre e phantastico era 
realçado pela luz de innumeras velas em lustres de scin- 
tillante cristal, reflectindo- se em todas as direcções. 

A joven infanta D. Carlota, empoleirada em um sophá, 
conversava com a marqueza e com D. Henriqueta, as quaes 
estavam sentadas no chão, de pernas cruzadas, á moda 
oriental. A comitiva das damas de honor, commandadas 
pela condessa de Lumiares, via-se, em idêntica postura, a 
pouca distancia, e D. Rosa, a anã preta favorita, trajando 
uma ílammante amazona escarlate, e menos travessa 
que na ultima vez que eu tivera o gosto de a encontrar 
n'aquella encantadora mansão, estava mais sentimental, 
encostada á porta, olhando de travez e namoriscando um 
bello moiro, creado do marquez. 

Não tardou a chegar a Rainha, que vinha da merenda, 
acompanhada por sua irmã e nora, a Princeza do Brazil, 



131 



sentando-se defronte da janella de grades, detraz da qual 
eu estava. Impressionou-me o seu aspecto muito digno e 
conciliador. Parece ter nascido para mandar, mas tornando 
ao mesmo tempo a sua auctoridade tão querida como res- 
peitada. A justiça e a clemência, esta divisa tâo evidente- 
mente mal applicada na bandeira da odiada Inquisição, 
devia ser transferida com a mais estricta verdade para 
esta boaprinceza. A discreta neutralidade, que ella manteve 
pertinazmente durante a fatal lucta entre a Inglaterra e as 
suas colónias, foi do mais vital beneficio para os seus 
dominios, e até hoje o commercio nacional portuguez tem 
attingido, sob os seus benignos auspicios, um grau de pros- 
peridade sem precedentes. 

Seria impossivel exceder o profundo respeito, o decoro 
cortezão, que a sua presença parecia inspirar. O conde de 
Sampaio e o visconde de Ponte de Lima ajoelharam deante 
das augustas personagens com uma veneração — imagino eu 
— não inferior á dos mussulmanos deante do tumulo do 
seu Propheta, ou á dos tártaros na presença do Dalai 
Lama. 

Marialva, que se collocou do lado opposto á Rainha, era 
o único que parecia conservar o seu desembaraço e bom 
humor. O Príncipe do Brazil e D. João mostravam-se muito 
enfadados, porque andavam d'um lado para o outro, de 
mãos nas algibeiras, bocejando constantemente, e diva- 
gando com os olhos de objecto para objecto, com o ar pas- 
mado próprio da regia ociosidade. 

A mais rigorosa etiqueta prende os Infantes de Portugal 
dentro dos seus palácios, e por isso poucas vezes consta 
que elles se confundam, ainda mesmo incógnitos, com a 
multidão; d'este modo os seus lisonjeiros sorrisos ou con- 



132 



fidenciaes bocejos não são prodigalisados ao vulgo dos 
observadores. 

Esta forma de embalsamar príncipes vivos não é, no fim 
de tudo, má politica: conserva-os sagrados, concentra-lhes 
a sua real essência, tão fácil de se evaporar pela expo- 
sição! O que é tão liberalmente pago pelo voluntário tri- 
buto do povo como uma raridade de exquisito aroma, não 
se pode consentir que se transforme em mal cheiroso pó. 
Mas, comquanto, individualmente elles possam não gostar 
d'este severo regimen, pessoas de tão elevada hierarchia, 
como estas, deviam ter a bondade de se lembrar do fim 
para que são adornadas e veneradas. 

O conde de Sampaio, camarista de semana, serviu o chá 
á Rainha, e quando lh'o apresentou assentou ambos os joe- 
lhos no chão. Terminada esta ceremonia — porque tudo é 
ceremonia aesta pomposa corte — annunciaram o fogo de 
vistas, e os reaes victimadores, seguidos pelas suas victi- 
mas, dirigiram-se para um aposento próximo. A marqueza, 
as suas filhas, e a condessa deLumiares, vieram para o tou- 
cador, onde eu estava sentado, e tomaram posse das janel- 
las. Sete ou oito rodas e outros tantos turbilhões princi- 
piaram a gyrar e a zunir, emquanto subia ao ar, em todas 
as direcções, uma immensa quantidade de foguetes admi- 
ráveis, com grande prazer da condessa de Lumiares, que, 
apesar de não ter mais de dezeseis annos, já foi casada 
quatro. A sua alegria infantil, os seus cabellos loiros, e a 
alvura da sua tez, a tal ponto me recordaram a minha 
Margarida, que eu não pude deixar de a encarar com uma 
melancólica ternura. Augmentava-lhe a semelhança o estar 
rodeada de creanças, e vendo-a ali, sentada no recanto da 
janella, por vezes illuminada pela luz azulada dos fogue- 



133 

tes, que rebentavam no ar, senti agitar-se-me o san- 
gue, como se defrontasse com um phantasma, e os meus 
olhos hmndarani-se de lagrimas. . . . 

Queimada a ultima peça, a Rainha e as Infantas parti- 
ram. A marqueza e as outras senhoras desceram ao pavi- 
lhão, onde nos foi servida uma ceia magnifica e verdadei- 
ramente real. D. Maria e a sua irmã mais nova, animadas 
pela deslumbrante illuminação, gyravam pela sala, alegres 
e graciosas, com os seus vestidos de musselina, e pareciam 
duas fadas que tivessem descido das fluctuantes nuvens, 
que o pincel de Pillement tão primorosamente representou 
no tecto do pavilhão. 



XXIV 



A Cathedral de Lis])oa — Vestígios dos dedos de Santo António — 
Os corvos sagrados — O rganisa-se um rancho para os visitar — 
Um poeta portuguez — Commoda installação dos corvos sagrados 
— Singular tradição acerca d'elles — Illuminações em honra do 
parto da Infanta — Sermões públicos — O cantor Polycarpo e 
as suas anecdotas da alta nobreza. 



8 de novembro de 1787. 

Verdeil e eu, para fazermos exercício, percorremos esta 
manhã ruidosamente as mal empedradas calçadas no meu 
solido coach de viagem. O pretexto da nossa excursão era 
ver uma capella notável da egreja de S. Roque, toda embu- 
tida de jaspe e lapis-lazzuli; porém, quando nós chegámos, 
estavam celebrando três ou quatro missas, e não havia uma 
única creatura desoccupada para correr as cortinas, que 
occultam o altar, e por isso sahimos dali tão sábios como 
tínhamos entrado. 

Não tendo ainda visto a Cathedral ou a egreja da Sé, 
como lhe chamam em Lisboa, dirígimo-nos para aquelle 
bairro. A Sé é um edifício de não grandes dimensões, es- 
treito, sombrio, e sem magestade. O terremoto reduziu 
a pó os seus esplendores, se os teve algum dia, e a tal 



135 



ponto arruinou as capellas com que elle está atravancado, 
que poucos vestígios se percebem de ter pertencido a uma 
mesquita. 

Ainda que eu não ia disposto a encontrar grandes coisas, 
não obstante as descripções de viagens e de obras topogra- 
phicas, as quaes, como as genealogias e as historias da no- 
breza, teem uma terna inclinação para dar algum vulto ao 
que quasi não vale nada, eu prosegui como um diligente 
viajante, em busca de contraretabulos e de túmulos, mas 
não me posso gabar de nenhum achado. O que de certo 
não tínhamos era muito tempo para examinar o que vía- 
mos: os padres e o sacristão apressavam-nos e insistiam 
para que tornássemos a visitar o recanto d'uma escada inte- 
rior, onde é costume beijar e adorar os vestígios dos dedos 
de Santo António. O santo sentindo-se, segundo parece, 
perseguido de perto pelo pae da mentira e do Mal, aliás 
o Diabo — não pude saber realmente em que occasião — 
gravou o signal da cruz n'uma parede do mais duro már- 
more, e ahi lhe deteve as investidas. Yè-se próximo da 
milagrosa cruz um pequeno e interessante retábulo, que 
ali está pendurado para recordar a tradição. 

Tudo isto era admirável, mas é nada em comparação de 
umas historias acerca d'uns certos corvos! 

— Ainda existem os mesmos corvos — disse-me o sa- 
cristão. 

— O que! — respondi eu— os 1 que acompanharam 
S. Vicente?! 

— Exactamente esses, não — replicou o homem, muito 

1 No tempo em que escrevi isto, metade da população de Lisboa acredi- 
tava na identidade dos corvos sagrados, e a outra metade occultava pruden- 
temente o seu scepticismo. (Xota do A. na 2. u edição, de I834.) 



136 



baixinho, para só eu ouvir — mas os seus immediatos des- 
cendentes. 

— Muitíssimo bem. Então hoje mesmo de tarde, se 
Deus for servido, apresentar-lhes-hei os meus respeitos, e 
em boa companhia. E, agora, adeus. 

A nossa segunda visita foi ao convento dos Theatinos. 
Ahi vimos a livraria, que se acha na mesma confusão em 
que a deixou o terremoto: metade dos livros estão fora das 
estantes, em montões, cobertos de poeira. 

Um frade sagaz e activo \ que, segundo me disseram, es- 
creveu uma historia da Casa de Bragança, ainda inédita, 
foi quem guiou os nossos passos n'este chãos de littera- 
tura, e, depois de procurar meia hora algumas viagens 
curiosas, que desejava mostrar-nos, levou-nos á sua cella, 
e chamou a nossa attenção para um gabinete de meda- 
lhas, que com algum dispêndio e trabalho tinha colleccio- 
nado. 

Não sentindo em mim nenhuma vocação especial para as 
investigações numismáticas, deixei Verdeil com o frade, 
procurando decifrar algumas inscripções muito duvidosas, 
e fui angariar companheiros para irmos de tarde ver os 
corvos sagrados. 

primeiro que encontrei foi o abbade Xavier, o segundo 
foi o famoso missionário pregador, da Boa Morte, depois o 
Grão-Prior, e por ultimo o marquez de Marialva. R Pedro 
pediu-me para não ser deixado de fora; de forma que se 

1 Cremos que era D. Thomaz Caetano de Bem, da Academia Real de 

Historia, da Academia Real das Sciencias, clironista da Casa de Bragança, 
e auctor das Memorias históricas e chronologicas da sagrada religião dos clé- 
rigos regulares em Portugal e suas conquistas na índia oriental , e da Illus- 
Iração histórica d genealogia dos Reis de Portugal, publicada em 1789, e que 
é provavelmente a obra a que Beckfoi - d se refere. 



137 



encheu completamente a carruagem, e toda esta carregação 
foi jantar comigo. Verdeil já tinha voltado com o seu reve- 
rendo numismata, e havia também recrutado o vice-rei da 
índia, D. Frederico de Sousa Calhariz, um conde Luca- 
telli, fanfarrão piemontez ou saboyano, seu inseparável 
companheiro, e um moço pálido, franzino, e de aspecto sin- 
gular, o sr. Manoel Maria, l o mais extravagante e talvez o 
mais original dos poetas, que Deus tem creado. 

Aconteceu estar elle n'uma dessas excêntricas e exaltadas 
disposições de espirito, que, como o sol no rigor do in- 
verno, apparecem quando menos se esperam. Mil agudos 
conceitos, mil alegres e estouvados repentes, mil dardos sa- 
tyricos, sahiam da sua bocca, e nós estávamos em convulsões 
de riso; porém, quando elle principiou a recitar algumas 
das suas composições, em que a grande profundidade do 
pensamento se allia aos mais patheticos lances, senti-me 
commovido e agitado. D' este extranho e volúvel caracter é 
que se pode dizer, que possue o verdadeiro condão magico 
com, que segundo lhe apraz, ora nos anima, ora nos pe- 
trifica ! 

Percebendo quanto eu me sentia attrahido para elle, 
disse-me Manuel Maria: 

— Eu não esperava que um inglez condescendesse em 
prestar attenção alguma a um versiílcador moço, obscuro e 
moderno. Os senhores pensam que nós não temos nenhum 
outro poeta além de Camões, e que Camões não escreveu 
nada digno de menção senão os Luziadas. Aqui está um 
soneto, que vale metade dos Luziadas: 

1 Era o celebre poeta Bocage, que, como se vê, impressionou profunda- 
mente o illustre viajante inglez, cujo espirito era decerto bem feito para o 
comprebender. 



138 

A formosura d'esta fresca serra, 
e a sombra dos verdes castanheiros ; 
o manso caminhar d'estes ribeiros, 
d'oiide toda a tristeza se desterra; 

o rouco som do mar, a estranha terra, 
o esconder do sol pelos oiteiros, 
o recolher dos gados derradeiros, 
das nuvens pelo ar a branda guerra; 

emfim tudo o que a rara natureza 
com tanta variedade nos oíferece, 
me está, se não te vejo, magoando. 

Sem ti tudo me enoja, e me aborrece ! 
Sem ti perpetuamente estou passando, 
nas mores alegrias, mór tristeza! 

— Nem uma só imagem da belleza rústica esque- 
ceu ao nosso divino poeta, e com que profundo sentimento 
elle as transporta da paizagem para o coração I Que fasci- 
nadora languidez envolve, como os últimos raios do sol 
poente, toda esta composição! Se eu sou alguma coisa, foi 
este soneto que me fez o que sou; mas, que sou eu, com- 
parado com Monteiro? 

— Julgue — continuou elle, passando-me ás mãos alguns 
versos manuscriptos d'este auctor, de quem os portuguezes 
são ardentes admiradores. 

Eram na verdade cheios e sonoros, porém devo confessar 
que o soneto de Gamões e muitos dos próprios versos do 
sr. Manoel Maria, me agradaram infinitamente mais, mas 
de facto eu não conhecia sufficientemente a força e a 
propriedade da lingua portuguezapara ser juiz competente, 



139 



e foi somente imaginando que eu o podia ser. que este 
poderoso génio manifestou alguma falta de penetração. 

O jantar foi animado e alegre. Á sobremesa o Abbade 
apresentou uma immensa bandeja de doces e fructas sec- 
cas, que um dos seus cento e cincoenta protegidos lhe tinha 
mandado, não me lembro de que exótica região. Foi-nos elle 
dando estes bons bocados pela sua própria mão, e quasi 
que nos empanturrou até aos gorgomillos, como se fossemos 
perus e elle um avicultor, cujos interesses dependessem 
do estado da nossa nutrição! 

— Já viram alguma vez — dizia elle — tão admiráveis 
fructas? A nossa Rainha tem milhares e milhares de léguas 
cobertas de pomares mais altos do que a vossa cabeça, e 
minas de oiro e de diamantes debaixo dos vossos pés. A ri- 
queza e a fertilidade das suas possessões não tem outros 
limites senão o mar, e o próprio mar será nosso, se nós 
quizermos: não nos faltam os materiaes de construcção, 
mastros de duzentos pés d' altura, madeiras incorruptíveis, 
e valentes marinheiros! D. Frederico pode contar-lhe as 
proezas, que alguns dos nossos heroes praticaram, não ha 
muito tempo, contra os gentios de Goa. Os seus John Bulis, 
em ardimento e valor, não chegam a metade dos nossos! 

E assim foi proseguindo, bravateando, e ensurdecen- 
do-nos com os seus altos brados. Em patrióticas fanfar- 
ronadas e jactâncias nenhuma nação excede os portuguezes, 
e nenhum portuguez excede o Abbade! 

Finalmente, esgotados todos os doces e panegyricos, 
partimos nas azas da devoção, e fomos apresentar os nos- 
sos respeitos aos santos corvos. 

Tendo sido desde tempo immemorial concedida uma 
certa somma para a alimentação de duas aves d'esta 



140 



espécie, achámol-as installadas muito commoclamente em 
um cubículo d'um claustro, junto da cathedral, bem nutridas, 
e decerto ainda mais devotamente veneradas. 

A origem d"este singular costume data do tempo de 
S. Vicente, martyrisado perto do cabo do seu nome, e cujo 
corpo mutilado foi trazido a Lisboa n'um barco, acompa- 
nhado por alguns corvos. Estas desinteressadas aves, as- 
sim que o viram decentemente enterrado, perseguiram os 
seus assassinos com medonhos gritos, e arrancaram-lhes os 
olhos. A cada canto da Sé vê-se o barco e os corvos pin- 
tados ou esculpidos, e em vários painéis apparece um 
interminável e pomposo registro da sua perspicácia no 
descobrimento dos criminosos. 

Era já tarde quando chegámos, e suas implumadas san- 
tidades tinham ido tranquillamente para o seu poleiro, mas 
os sacristães de serviço, apenas nos viram approximar, 
logo ofíiciosamente os accordaram. Oh! Como estavam 
nédios, e lustrosos í 

A minha admiração pela sua corpulência, pela sua plu- 
magem e pelos seus roucos grasnidos, levou-me, suspeito 
eu, além dos limites do sagrado decoro. Estendia eu a mâo 
para lhes affagar as pennas, quando o missionário me con- 
teve com um olhar solemne e prohibitivo. O resto dos cir- 
cumstantes, sabedores do ceremonial, guardavam uma res- 
peitosa distancia, emquanto o sacristão e um padre desden- 
tado, quasi dobrado em dois pelos annos, contavam um 
extenso rosário de milagrosas anecdotas relativas aos pre- 
sentes corvos sagrados, aos seus immediatos predecessores, 
e a outros santos corvos dos tempos antigos. 

Todas estas archi-maravilhosas historias parecia o mis- 
sionário ouvil-as com implicita fé, e emquanto estivemos 



141 



no claustro nunca abriu a bocca senão para reforçar a 
nossa veneração, e exclamar com piedosa compostura: 

— Honrado corvo! 

Estou convencido de que estaríamos ali até á meia noite, 
se um pagem não tivesse vindo chamar o marquez de 
Marialva e o seu capellão, por ordem de Sua Mages- 
tade. 

Como a minha curiosidade estava completamente satis- 
feita em matéria de corvos santos, foi fácil ao Grão- 
Prior persuadir-me á retirada, e a dar uma volta pelas 
ruas principaes, para ver as illuminações em honra da 
Infanta, casada com D. Gabriel, de Hespanha, a qual acabava 
de dar á luz um príncipe. 

Caminhávamos com difílculdade, tantos eram os vadios 
que sahiram á rua com o mesmo fim que nós, e iam 
saltando fora as rodas da nossa carruagem, ao tentarmos 
passar adeante dum antiguado e absurdo coche, perten- 
cente a um dos dignitários da Sé Patriarchal. Não posso 
alargar-me em louvores ás illuminações, mas alguns fogue- 
tes, que deitaram no Terreiro do Paço, surprehenderam-me 
pela grande altura a que subiram, e pelo grande numero 
de brilhantes estrellas azues claras, que d'elles sahiam. Os 
portuguezes são eminentes nos fogos dartificio; tendo o 
imbecil e beato rei, já fallecido, dispendido largas sommas 
para elevar essa arte á perfeição 

Do Terreiro do Paço dirigimo-nos á grande praça onde 
está o palácio da Inquisição. Encontrámos ahi uma enorme 
multidão, á qual estavam pregando três ou quatro capu- 
chinhos sobre as glorias e esplendores d'um mundo me- 
lhor. Teria ouvido com interesse os seus sermões, que, pela 
amostra que tive, pareciam cheios de fogo e enthusiasmo, 



142 



se o Grão-Prior, sempre com medo do rheumatismo, não se 
queixasse da noite, retirando-nos por isso para casa. 

Todos os meus aposentos estavam impregnados do fumo 
espesso das velas de cera, que ardiam como archotes. Per- 
fumei e arejei os quartos, e abri todas as janellas. Sabia o 
Grão-Prior quando entrava Polycarpo, o famoso tenor, que 
durante a ceia nos divertiu, cantando algumas árias de bra- 
vura n'um estylo magistral, e com uma surprehendente 
agilidade, contando-nos também muitas anecdotas intimas 
da haate noblesse — sua principal protectora — as quaes não 
eram muito em abono d'ella. 

Tive grandes desejos de, em paga, alargar-me um pouco 
sobre as aventuras dos santos corvos, mas contive-me 
prudentemente. Ficaria mal a uma pessoa tão bem tratada 
como eu tinha sido pelos corvi-crentes, tocar levianamente 
em tal assumpto. 



XXV 



Passeios no valle de Collares — Uma paizagem clysia — A cantiga 
da camponeza— Hospitalidade rústica— Entrevista com o Prín- 
cipe do Brazil na planicie de Cascaes — Conversação com Sua 
Alteza Real — Volta para o Ramalhão. 



19 de outubro de 1787. 

A minha saúde melhora progressivamente. Os dias ale- 
gres e claros, que disfructamos agora, dão-me a mais viva 
sensação da existência. Monto a cavallo, passeio, e subo, 
quanto quero, sem me fatigar. 

O valle de Collares é para mim uma fonte de perenne 
distracção. Descobri muitas veredas, que atravez de mattas 
de castanheiros e pomares nos levam a uns sitios acciden- 
tados e verdejantes, onde os loureiros bravos e as moitas de 
limoeiros pendem livremente sobre a margem pedregosa 
d'um pequeno rio, e deixam cair na corrente as suas flo- 
res e os seus fructos. Podeis andar milhas a cavallo ao 
longo das margens deste delicioso rio, surprehendendo infi- 
nitas perspectivas de mattos floridos, por entre os troncos 
dos choupos e das nogueiras. A paizagem é realmente 
elysia, como a que os poetas inventaram para morada dos 
espíritos bemaventurados. 

Os musgosos fragmentos de rocha, os pittorescos tron- 



144 



cos lascados, e as pontes rústicas, que se encontram a 
cada passo, trazem-nos á imaginação a Saboya e a Suissa, 
mas a natureza exótica da vegetação, o vigoroso verde dos 
limoeiros, o fructo doirado da laranjeira, a florida murta, 
e a rica fragrância da relva, matizada com as mais bri- 
lhantes e aromáticas flores, permittiam que eu, sem vio- 
lento esforço da phantasia, me julgasse no jardim das Hes- 
pérides, esperando ver o dragão debaixo de cada arvore. 

Não me é grato, de forma alguma, o pensamento de 
abandonar estas ridentes estancias, e hoje mesmo estive 
vinte vezes a ponto de revogar as ordens, que dei para a 
minha partida. Todas as objecções que eu possa ter 
contra a minha permanência em Portugal parecem desva- 
necer-se, desde que determinei sair d'aqui, porque é tal a 
perversidade da natureza humana, que tornam-se-nos mais 
queridas as coisas exactamente no momento em que esta- 
mos prestes a perdel-as. 

Esta manhã a grande suavidade da luz do sol, e a atmos- 
phera serena e embalsamada, infundiam no espirito aquella 
voluptuosa indifferença, aquelle desejo de ficar como n'um 
paraiso, n'essa mansão de delicias, que, nas ficções da 
fabula, se suppunha fazia esquecer aos que provavam o 
lotos, a pátria, os amigos, e todos os laços terrenos. 

Era isso o que eu sentia, e tornara-se-me odiosa a idéa 
de me ai rançar cfali. 

Apesar dé eu ter penetrado n* esses bellos pomares 
pouco depois do nascer do sol, os relógios dalgumas egre- 
jas dos conventos distantes tinham soado muitas vezes, 
antes que eu podesse resolver-me a abandonar aquelles 
odoríferos loireiros, a cujo abrigo estivera. Se sombras 
tão antenas e fragrantes convidavam a repoisar, devo 






145 



dizer que nunca houve veredas mais bem imaginadas para 
tentar a mais preguiçosa das creaturas a um passeio, do 
que as que se abriam em todas as direcções, sobre uma 
arêa secca, macia, compacta, que apresentava uma super- 
fície tâo dura como o cascalho. 

Estas veredas planas serpeiam por entre um labyrintho 
de esbeltas e elegantes arvores de fructo, amendoeiras, 
ameixoeiras e gingeiras, um pouco no género d'aquellas 
alamedas de Tonga-taboo, descriptas nas viagens de Cook; 
e, para ainda augmentar a semelhança, latadas de canas e 
uns abrigos abertos e baixos, com tectos de colmo e cani- 
ços, apparecem aqui e ali, quebrando as linhas horisontaes 
da perspectiva. 

Estive preguiçando e ocioso quasi toda a manha, e ainda 
que a paizagem e o ambiente perfumado me auctorisassem 
a imaginar-me um habitante do Elysio, nâo podia aspirar 
a ser ethereo a ponto de passar sem comer. 

Em bom inglez, eu tinha muita fome, e as peras, os mar- 
mellos e as laranjas, pendentes sobre a minha cabeça, com- 
quanto bellas á vista, nâo eram tâo summarentas, nem tâo 
gratas ao paladar, como promettia a sua magnifica appa- 
rencia. i 

Achava-me 

More than a mile immersed within the wood ' 

e, nâo me recordando da direcção que devia tomar para 
sahir d' ali, estive meia hora, pelo menos, deliberando sobre 
qual o caminho que seguiria. As palhoças e cerrados de que 



Dryden. 

10 



146 



fallei, estavam feitos com cuidado e até com esmero, diga-se 
a "verdade, mas pareciam não ter outros habitantes senão 
bandos de bantams espanejando-se e destruindo os ovos e 
as esperanças de muitas famílias de insectos. Estas brilhan- 
tes aves, como as suas irmãs descriptas nas viagens de 
Anson, e que animavam as profundas solidões da ilha de 
Tinian, pareciam não ter dono. 

Finalmente, quando eu já principiava a desejar-me cor- 
dealmente numa região menos romântica, ouvi as modu- 
lações fortes, porém não desharmoniosas, duma voz femi- 
nina, echoando pelas verdejantes avenidas, e appareceu-me 
uma rapariga do campo, alta e corada, com o seu pitto- 
resco trajo cor de castanha e escarlate, trazendo adeante 
de si uma mula, com dois enormes cestos de uvas. 

Pedir-lhe uma parte da sua opulenta carga e cumpri- 
mentar a formosa conductora, foi obra d'um instante, mas 
sem resultado. EUa piscou os olhos maliciosamente e res- 
pondeu-me : 

— Pertencemos ao sr. José Dias, cujo casal fica d'aqui 
a meia légua. Siga o senhor aquelle caminho, não se afiaste 
nem para a direita nem para a esquerda, que chega lá em 
pouco, e o patrão de certo terá muito gosto em lhe dar 
tantos cachos quantos o senhor quizer. Adeus. Desejo-lhe 
muitas felicidades. Vou-me á vida. 

Sentando-se entre os tantalicos cestos, ella desappare- 
ceu n'um momento, e eu tive a boa sorte de ir direito ao 
postigo d'uma parede de pedra solta, que colleava irre- 
gular e rusticamente por uns socalcos mattagosos. 

Se o exterior d'este casal era agreste e pouco promet- 
tedor, o interior apresentava o mais alegre e vivo quadro 
da abastança rural. Muitas vaccas e cabras de leite, 



ir 



fornos cTonde acabavam de tirar grandes formas de sabo- 
roso pão, fileiras de colmeias, extensos telheiros assen- 
tes sobre pillares, e inteiramente forrados de cachos ver- 
melhos e de moscatéis doirados, semi-eneandilados, que ali 
estavam a seccar. Um bom homem, um magisler pecorum, 
de aspecto antigo, acompanhado por dois cães, submissos, 
apesar do seu olhar feroz, e contidos em silencio por um 
leve aceno do dono, recebeu-me cordealmente, e com ver- 
dadeira hospitalidade não só me concedeu completa liber- 
dade nos seus dominios, mas até poz deante de mim o 
melhorio do que elles produziam, travando-se uma contenda 
entre dois ou três pequerruchos gordos e de cabellos enca- 
racolados, sobre qual d'elles me traria primeiro nozes 
descascadas, taças de leite, e queijos de nata, feitos á 
moda do Alemtejo, que é a melhor. 

A tal ponto me senti alheiado do mundo neste ermo, e 
tão completamente transportado muitos séculos atraz aos 
primitivos tempos patriarchaes, que nâo me lembro de 
haver jamais gosado horas de mais delicioso socegof 

— Aqui — dizia eu a mim mesmo — estou longe do cami- 
nho da corte, das ceremonias, das visitas banaes, das cor- 
tezias e das murmurações. 

Mas, ah! como é vão quasi sempre tudo o que pensa- 
mos no intimo do nosso espirito f 

Quando eu estava bemdizendo a minha estrella por estas 
tréguas ao fastidioso tumulto da vida que levava, desde 
que Sua Magestade viera para Cintra, altas vozes chamando 
por mim, estalidos de chicotes e tropear de cavallos, des- 
pertaram-me do aconchegado canto onde me aninhara, e 
dispersaram todas as minhas agradáveis visões. Era Luiz 
de Miranda, o coronel do regimento de Cascaes, intimo 



148 



confidente e valido do Principe do Brazil, que veiu direito 
a mim, dirigindo-me mil censuras, amáveis no seu en- 
tender, por eu ter desertado do Ramalhão na própria 
manha em que elle vinha disposto a jantar comigo, e 
propor-me uma digressão, depois do jantar, a um certo 
ponto das montanhas de Cintra, d'onde se disfructa, afíir- 
mava elle, um panorama, como eu não vira outro em Por- 
tugal. 

— Ainda não é muito tarde agora — accrescentou elle. 
Trouxe comigo os seus cavallos, que encontrei impacientes, 
escarvando o chão, debaixo d'uma grande arvore á entrada 
d'estas detestáveis azinhagas. Venha d'ahi, por Deus! po- 
nha-se a cavallo, e eu respondo que se ha de dar por bem 
pago com a vista que lhe vou mostrar. 

Como eu estava condemnado a ser distrahido e ex- 
pulso do Elysio, em que estivera escondido aquellas sete 
ou oito horas, era-me indifferente sel-o d'este ou daquelle 
modo, a pé ou a cavallo: accedi, portanto, e partimos a 
galope. Eram os cavallos muito seguros de mãos; se não 
fosse isso, teriamos rolado ao fundo dos precipícios, por- 
que o nosso caminho 

If road it could hc call'd where road was none, 

levou-nos, durante três ou quatro léguas, por zig-zags e 
pequenos atalhos sobre declivios e despenhadeiros, até 
que, chegando a uma charneca deserta, onde uma cruz 
solitária, erguendo-se acima d'umas raras moitas rese- 
quidas pelo tempo, marcava o ponto mais elevado d'este 
monte agreste, se descobriu de improviso aos meus olhos 
uma das mais dilatadas perspectivas que eu vi jamais, 



149 



o mar, a planície, e as montanhas ao longe, tornadas ainda 
mais vastas, aerias, e illimitadas pelo magico e phantastico 
esplendor do sol que declinava. 

Depois de gosar alguns momentos o effeito geral, prin- 
cipiei a distinguir os objectos principaes, que avistava, 
tanto quanto elles podiam ser percebidos, atravez do in- 
tenso e brilhante nevoeiro. 

Segui o curso do Tejo, desde a foz até elle se perder 
nos baixos estuários para além de Lisboa. Cascaes appare- 
ceu-me como uma cidade mourisca, com as suas extensas 
muralhas, e as suas casamatas á prova de bomba, e com 
o auxilio dum óculo descobri uma alta palmeira, erguen- 
do-se d'entre um massiço de casaria branca. 

— Muito bem — disse eu ao meu guia — este panorama 
tem certamente encantos dignos de serem vistos; mas não 
sâo sufficientes para me fazerem esquecer de que é já 
tempo de voltarmos para casa e repousar. 

— Não ha de ser tão depressa — respondeu elle — temos 
ainda muito mais que ver. 

Tendo adquirido — não vos posso facilmente dizer por- 
que—o costume de o seguir, como um carneiro, para onde 
elle fosse, metti o cavallo por uma Íngreme ladeira, jun- 
cada de pedras roliças e de calhaus. No fim d'esta descida 
desenrolava-se uma extensa e deserta planície adusta e 
triste. Emquanto nos apeávamos e parávamos alguns mi- 
nutos, para dar descanço aos cavallos, não pude deixar de 
dizer que a perspectiva que se nos offerecia agora, estava 
longe de compensar o risco de quebrarmos a cabeça, des- 
cendo a cavallo tão rudes encostas. Elle sorriu-se, e per- 
guntou-me se eu não via nada interessante no campo. 

— Sim, vejo — respondi eu. Distingo a um quarto de 



150 



milha uma espécie de caravana, que não deixa de ser curiosa. 
Aquelle grupo confuso de homens, vestidos de escarlate, as 
suas armas luzentes, as azémalas ajaezadas, e os toldos 
listrados, suspensos das paredes em ruinas, compõem exa- 
ctamente uma scena, que eu não me admiraria de ver nos 
arredores do Grão Cairo. 

— Então venha cá — disse elle — é tempo de lhe des- 
vendar o mysterio, e dizer-lhe para que é que demos uma 
volta tão grande e fatigante. A caravana, que lhe parece 
tão pittoresca, é formada pelos creados do Principe do 
Brazil, que veiu passar aqui o dia numa caçada, e está 
n'este mesmo momento descançando além debaixo dos tol- 
dos. Quiz elle que eu o trouxesse aqui, e ordenou-me que 
lhe manifestasse o seu desejo de ter meia hora de conver- 
sação com o sr. Beckford sem ser observado, e com rigo- 
roso incógnito. Passeie como se andasse colligindo plan- 
tas ou tirando vistas, que eu vou participar a Sua Alteza 
Real, e encontrar-se-hão aqui como por acaso e sem ne- 
nhumas formalidades. Ninguém estará a distancia de poder 
ouvir uma só palavra do que disserem um ao outro, por- 
que eu ficarei de sentinella na distancia de cem passos pelo 
menos, e livral-os-hei de todos os espiões e curiosos. 

Fiz o que elle me disse. Abriu-se uma pequena porta 
na parede junto á qual estava armado um toldo, e appare- 
ceu n'ella um mancebo de aspecto sympathico, mais bello 
e corado do que a maioria dos seus compatriotas, o qual 
caminhou para mim com um ar muito agradável e insinuante, 
tirou o chapéu com gestos dignos e graciosos, e, depois 
de insistir para que eu me cobrisse, principiou a fallar-me 
com grande precipitação, n'uma fluentíssima lingua-franca 
meio-italiana, meio-portugueza. Este jargon é muito usado 



151 



no palácio ' da Ajuda, onde os cantores italianos estão mais 
em moda e são mais requestados do que outras pessoas de 
mais profundo valor e intelligencia. 

A primeira pergunta com que Sua Alteza Real me hon- 
rou foi se eu tinha visitado o seu gabinete de physica. Res- 
pondendo-lhe que sim, e que me tinham parecido extre- 
mamente perfeitas as machinas e instrumentos, que achei 
n'uma ordem admirável, observou: 

— Estão de certo muito bem dispostos, porque foi um 
dos meus amigos particulares — homem de grande saber — 
quem dirigiu esse trabalho, mas, apesar do alto preço por- 
que os paguei, os vossos Ramsdens e Dollonds foram mais 
generosos comsigo do que comigo. Creio— continuou Sua 
Alteza Real — segundo o que o duque de Lafões repetidas 
vezes me affirmou, que estou conversando com uma pes- 
soa que não tem nenhum fraco e cego preconceito a favor 
do seu paiz, e que vê as coisas como ellas são, e não como 
foram ou deviam ser. A avidez commercial, que os inglezes 
manifestam em todos os negócios, tem-nos custado cara em 
mais duma circumstancia. 

Lançou- se então no terreno que o marquez de Pombal 
tinha tantas vezes trilhado publicamente, tanto nos docu- 
mentos ofíiciaes, como em varias obras que viram a luz 
durante a sua administração, e eu logo descobri de que 
escola Sua Alteza era discípulo. 



1 A Capella Real da Ajuda, com quanto um pouco decahida do incom- 
parável esplendor, de que se orgulhava nos lyricos tempos do fallecido rei 
D. José, ainda ostentava alguns dos mais raros specimens da manufactura 
vocal, que a Itália podia fornecer. Encontravain-se ali reunidos Cario Reina, 
Ferracuti, Totti, Fcdelino, Ripa, Gelati, Venanzio, Biagino e Marini — e 
todos estes virtuosi, com os seus nomes acabados em vogaes, eram ou con- 
traltos suavíssimos ou sopranos dos mais agudos. 



152 



— Nós merecemos tudo isso — continuou elle — e ainda 
peior, pela nossa humilde acquiescencia a todas as medidas 
que o vosso governo dieta; mas não admira, estando nós 
opprimidos e rebaixados por pesadas e inúteis instituições. 
Quando ha tantos zangãos na colmêa, é em vão que se conta 
com o mel. Não vos surprehendeu, não vos fez má impres- 
são, achardes-nos atrazados tantos séculos do resto da 
Europa? 

Eu curvei-me e sorri. Este vislumbre de approvação 
fez — creio eu — com que Sua Alteza Real se exaltasse em 
ardentes elogios a certas reformas e purificações, que se 
estavam fazendo no Brabante, debaixo dos auspícios da 
Sacratíssima Magestade Apostólica de José n. 

— Tenho a ventura — proseguiu o Principe — de me 
corresponder frequentemente com este illustrado soberano. 
O duque de Lafões, que também tem a vantagem de se 
communicar com elle, não deixa nunca de me dar os por- 
menores d'estas salutares medidas. Quando teremos nós 
sufficiente hombridade para as imitar? 

Ainda que eu me curvasse e sorrisse outra vez, não pude 
resistir a tomar a liberdade de observar que tão rápidas 
e vigorosas medidas, como aquellas a que Sua Magestade 
Imperial recorrera, eram mais para serem admiradas do 
que imitadas; que os povos, que tinham estado por tanto 
tempo em trevas, sendo despertados por uma torrente de 
luz, era mais natural que ficassem cegos do que alumiados; 
e que os golpes despedidos ao acaso por pessoas com os 
olhos fechados eram perigosos, e haviam de cahir mais pe- 
sados talvez em direcções muito oppostas aquellas a que 
eram dirigidos. Isto foi ousado de mais, e pareceu não 
agradar ao noviço em ousadias. 



153 



Depois duma curta pausa, que lhe deu, pelo menos, 
opportunidade para tomar a respiração, encarou-me fi- 
xamente, e vendo na minha physionomia estampada a 
mais admirativa expressão que eu lhe pude dar, retomou o 
fio do seu philosophico discurso, e até condescendeu em 
descrever por meudo alguns singulares projectos, que jul- 
guei perigosissimos. Continuando a fallar com um Ímpeto 
crescente — como aquelles cujos passos se vão accelerando 
com o declivio do caminho — deixou entrever algumas va- 
gas idéas de reformas, que não só me encheram de sur- 
preza, mas produziram em mim uma impressão, que se 
approximava do horror! Ahi curvei-me, mas não pude 
sorrir. A minha imaginação, assustada pela natureza ex- 
traordinária dos tópicos sobre que elle estava discorrendo, 
evocou um cortejo de pavorosas imagens, e mais duma 
vez perguntei a mim mesmo se eu não estaria sob a in- 
fluencia d'um pesadelo! 

Muito preoccupado com os seus próprios pensamentos 
para poder notar a minha perturbação, elle, como um ex- 
plorador decidido, affastou as minas do passado, tratou 
meuda e eruditamente da antiga jurisprudência e máximas 
do seu paiz, das suas relações com as potencias extran- 
geiras, e do logar de que descera nos tempos modernos, 
o que, em grande parte, segundo observou — devia attri- 
buir-se a uma cega e enganosa confiança na politica 
egoísta da nossa predominante ilha. Apesar de elle não 
ter poupado o meu paiz, não me pareceu de certo muito 
parcial pelo seu: pintou com vivas cores os seus defeitos 
militares e a sua politica fradesca. Em resumo — esta parte 
da nossa conversação foi uma deploralio Lusitanicce gentis 
— tão vehemente como aquella que o celebre Damião de 



154 

Goes, para mostrar o seu excellente latim e as suas excel- 
lentes humanidades, arremessou ha alguns séculos sobre 
os pobres desgraçados hollandezes. 

Não approvando de forma alguma a tendência de toda 
aquella exposição, eu desejava cordealmente que ella fin- 
dasse. Havia mais de uma hora que principiara, e, apesar 
de me lisonjear a protraeção d'uma entrevista tão sem ce- 
remonia, não podia deixar de pensar que estas fontes de 
honra são fontes de palavras, não fontes de misericórdia, 
e, uma vez soltas, correm sem piedade nem moderação. As 
pessoas que estão nas mais altas posições, e que ninguém 
ousa contradizer, correm como uns furiosos. Acariciaes 
muitas vezes a idéa de que estão exhaustos, mas é em vão 
que o fazeis. Algumas occasiôes, para variar, contradizem-se 
a si próprios, e então o debate passa-se dentro d'elles, para 
desespero dos seus submissos ouvintes, que, sem serem 
culpados de replicar com uma única palavra, são envolvi- 
dos na mesma penalidade do mais capcioso argumentador. 
Foi o que me aconteceu. Eu a custo proferi uma syllaba 
depois da minha mal succedida tentativa, mas apesar d'isso 
prodigalisaram-me milhares de palavras, e fizeram-me in- 
numeras perguntas, a que immediatamente respondia o 
próprio que m'as dirigia. 

Em paga da honra de ser admittido a este dialogo mo- 
nologico, eu curvava-me, e inclinava a cabeça, e quasi no 
fim da entrevista resolvi sorrir outra vez com toda a de- 
cência. 

Soube depois que Sua Alteza Real ficou satisfeito com os 
meus olhares e gestos, e concedeu-me uma patente de 
muito maior erudição do que a que eu possuia ou ap- 
parentava. 



155 



Poz-se o sol, principiou a orvalhar, o Príncipe retirou-se, 
Luiz de Miranda seguiu-o, e eu tornei a montar a cavallo 
com uma indigestão de phrases sonoras, e a mais firme 
crença de que — «a Egreja estava em perigo.» 

Cançado, e exhausto, apenas cheguei ao Ramalhâo ati- 
rei-me para cima do sophá, mas a agitação do espirito nâo 
me deixou descançar. Tomei chá com avidez, e, dirigin- 
do-me ao palácio, procurei o arcebispo confessor, que 
havia mais de meia hora se encerrara no seu gabinete inte- 
rior, e contei-lhe tudo quanto se passara n'aquella nâo 
pedida e inesperada entrevista. As consequências appare- 
ceram com o tempo. 



XXVI 



O Convento da Boa Morte— A magresa dos frades— Austeridade da 
ordem — Contrição d'alguns personagens — Um nouveau riche 
— A sua casa — Passeio na varanda do palácio de Belém — 
Multidão de servidores á mesa— A glotonaria portugueza — 
Uma collecção tétrica de superstições lendárias — Terríveis pro- 
fecias—Uma tarde triste 



9 de novembro de 1787. 

Marialva e o seu primeiro capellão, afamado missionário, 
e um dos mais eloquentes pregadores dos dominios de 
Sua Magestade, estavam á minha porta ás dez horas, para 
me levarem ao convento da Boa Morte. 

É este um verdadeiro Golgotha, um logar onde ha mui- 
tas caveiras, porque os seus habitantes, apesar de estarem 
vivos, de se moverem, e de terem uma espécie de exis- 
tência, pouco mais sâo do que esqueletos. O sacerdote que 
ofílciava era tão magro e cadavérico, que me custava a 
imaginar que elle tivesse força sufficiente para elevar o 
cálix. Não o deixou, comtudo, cair das mãos, e quando aca- 
bou a sua missa, appareceu vacillante um segundo phan- 
tasma, que começou a dizer outra. Pelas pinturas e imagens 
extraordinariamente pallidas, que cobrem as capellas e os 



157 



claustros, e pela profunda contrição patente nas lagrimas, 
gestos e jaculatórias dos fieis que a ellas recorrem, ima- 
gino que não ha em Lisboa convento algum, que se lhe 
possa comparar em austeridade e religião. 

Marialva tremia todo, tanta era a devoção, e o mesmo 
fazia o seu companheiro, cujos joelhos estão callejados 
do frequente ajoelhar, e que, se dermos credito a Ver- 
deil, acabará os seus dias n'um eremitério, ou doido, ou 
talvez ambas as coisas. Pretende elle também que este 
velho frade é que tem contribuido para augmentar o de- 
voto zelo de Marialva, e que os dois, animando-se mutua- 
mente, devem em breve produzir fructos dignos de Be- 
dlam, ' se não do Paraizo. O que é certo, é que este religioso 
pode-se gabar de ter um aspecto conspicuamente beato, e 
uma forma vigorosíssima de bater nos peitos ; porém isto 
não o deve desvanecer muito: ha em Lisboa pelo menos 
cincoenta ou sessenta mil boas almas, que, sem terem via- 
jado tanto, castigam-se tão ruidosamente como elle. Esta 
manhã, na Boa Morte, um velho peccador permaneceu 
durante toda a missa com os braços abertos, na posição e 
com a inflexivel rigidez dos antigos candieiros de braços, e 
outro contrito personagem commoveu-se tanto no momento 
da consagração, que assentou o nariz no pavimento, e 
lambeu a espessa camada de pó e lama de que elle estava 
coberto. 

Devo confessar que, não obstante estas mui superiores 
ostentações de santidade, não me desagradava safar-me 
dos sombrios claustros do convento, e respirar o ar puro, 
e contemplar o hilariante azul do firmamento. Como o tempo 

1 Nome corrompido do Hospital de Santa Maria de l(<>thlehem, em Lon- 
dres, que foi depois um asylo de alienados. 



158 



estava delicioso percorremos alguns pontos affastados da ci- 
dade, que ainda me eram desconhecidos. Á volta viemos pelo 
Bairro Alto, e vimos a nova casa, recentemente acabada 
com enorme dispêndio por João Ferreira, que de humilde 
negociante de solla a retalho, se elevou, pelo valimento do 
Arcebispo Confessor, á posse d'um dos mais lucrativos con- 
tractos em Portugal. Nunca vi aposentos mais horrenda- 
mente dispostos do que os que o pobre homem dos cou- 
ros delineou para si. As cortinas sâo de setim azul ferrete 
e do mais vigoroso e enxofrado amarello, e os estuques 
dos tectos foram ornados com pinturas allegoricas, me- 
diocremente executadas, e cobertos de ornamentos doira- 
dos, no estylo daquellas esplendidas taboletas que eram, 
ha annos, a gloria de High Holborn e de St. Giles's. 

Depressa nos enfastiámos de todo este luxo, e como se 
ia fazendo tarde, pozemo-nos a caminho para Belém, onde, 
entretanto que Marialva esteve escrevendo cartas, passeei 
com D. Pedro nas varandas do palácio, que são banhadas 
pelo Tejo, e flanqueadas de torrinhas. Era encantador o 
panorama que dali se gosava, e como o dia estava quente 
e sereno, apreciei-o em toda a sua belleza. Emquanto nós 
olhávamos por cima da balaustrada passaram muitos navios 
de grande porte, que quasi nos tocavam com as suas 
flâmulas. As próprias fragatas e as naus approximam-se a 
um quarto de milha do palácio. 

Havia hoje em volta da nossa mesa ao jantar maior nu- 
mero de servidores do que é costume, e as enormes e 
massiças iguarias eram trazidas por uma longa comitiva de 
cavalheiros e capellães, alguns dos quaes condecorados com 
as ordens de Aviz e de Christo. Esta corte tinha um aspe- 
cto inteiramente feudal, e transportava a nossa imaginação 



159 



ás épocas da cavallaria, quando os grandes chefes eram 
servidos, como os reis, pelos seus nobres vassallos. 

Devem os portuguezes ter estômagos de abestruz para 
digerirem a grande quantidade de saborosas viandas com 
que se empanturram. Os seus vegetaes, o seu arroz, as 
suas aves, são todos estufados, cozidos na substancia do 
presunto, e tão fortemente temperados com pimenta e 
cravo, que uma colher de ervilhas ou a quarta parte de 
uma cebola são sufíicientes para nos deixar a bocca a 
arder. Com uma tal dieta e o continuo gulosar de doces 
não me surprehende que se queixem tantas vezes de 
dores de cabeça e de ataques nervosos. 

Alguns dos validos e bobos do velho marquez foram-se 
approximando a pouco e pouco, para verem de perto o ex- 
trangeiro, e ouvirem o famoso missionário discorrer sobre 
martyrios e milagres. 

O scenario da Boa Morte ainda lhe estava presente na 
memoria: as suas descripções foram lúgubres e pavorosas. 
D. Pedro, as suas irmãs e o seu primo, o joven conde de 
Atalaia — depois marquez de Tancos — acercaram-se d'elle, 
com a tremula anciedade de creanças famintas e sequiosas 
de historias de almas do outro mundo. Podeis ficar certo 
que não os despediu sem os satisfazer: nunca ninguém 
distribuiu maior dose de superstição lendária. 

A marqueza parecia devorar aquellas espantosas narra- 
tivas com tanta avidez como os seus filhos, e o velho 
abbade, deixando cair a barba tristemente, puchou por um 
enorme rosário, e poz-se a correr as contas, murmu- 
rando as suas orações. 

Marialva havia sido felizmente chamado ao palácio por 
especial mandado de sua real ama. Se elle tivesse assistido 



160 



á scena, receio que se realisasse a prophecia de Verdeil, 
porque nunca mortal algum faltou com tão aterradora ener- 
gia como este fanático pregador. Acudiam-lhe á memoria 
as mais terriveis ameaças da cólera divina, proferidas pe- 
los auctores de homilias e sermões, antigos e modernos, e 
elle lançava-as sobre o auditório com gestos vingadores! 
Durante a ultima meia hora da prédica jazemos todos na 
mais completa escuridão; ninguém se lembrara de pedir 
luz. As creanças estavam todas num grupo, e quasi não 
se atreviam a mover-se, nem a respirar! Uma scena sin- 
gularissima ! 

Cheio das pavorosas imagens que o bom do frade evo- 
cara na minha imaginação, voltei para casa só na minha 
carruagem, com calafrios, e a tremer de horror. Os meus 
amigos estavam ausentes, e não havia nada mais fúnebre 
do que o aspecto dos meus frios aposentos. 



XXVII 



Ensaio de seguidillas—Scenas da tarde— A multidão dos mendi- 
gos—Caridade regia mal empregada— Lisonjas dos pobres e me- 
donho aspecto d'alguns— Uma recita no theatro do Salitre— A 
condessa de Pombeiro e as suas anãs pretas— Um bailado ex- 
travagante—Volta para o palácio e ceia em casa da Gamareira- 
mór— Affecto filial— Ultima entrevista com o Arcebispo— A cor- 
rente fatal dos acontecimentos— Profundo pesar ao deixar Por- 
tugal. 



Domingo, 25 de novembro de 1787. 

Que manha, a de 25 cie novembro! 

O sol brilhava em todo o seu esplendor, zumbiam os 
insectos, e desabrochavam as flores. As ultimas chuvas ti- 
nham feito brotar uma segunda primavera, cobrindo de 
viçosa verdura os montes em volta de Almada, na outra 
margem do Tejo. 

Almocei sosinho, porque Verdeil tinha ido para S. Ro- 
que ver a ceremonia da publicação da Bulia da Cruzada, 
que permilte aos bons christãos comer ovos e manteiga 
durante a Quaresma, mediante alguns shillings, pagos a 
sua Santidade. Eu fiquei em casa a ouvir um ensaio de se~ 
guidillasj que se estudavam para um novo entremez no 
theatro do Salitre, até que passou a hora da missa; então 



162 

mettendo-me numa sege, fui direito ao palácio da Praça 
do Commercio, dirigindo-me logo aos aposentos do raar- 
quez de Marialva. Toda a sua familia estava reunida para 
jantar com elle. 

Se nâo fosse a lembrança da minha próxima partida sen- 
tir-me-hia n'aquelle momento mais satisfeito e feliz. Ma- 
rialva, cujo serviço junto á pessoa da Rainha pode com 
justiça chamar-se um estado de completa escravidão, mal 
tinha tomado o seu logar á mesa, foi chamado ao paço. 
A marqueza, D. Henriqueta, e a sua irmã mais nova 
nâo tardaram a recolher-se ao quarto da Camareira-mór, 
e deixaram-me só com D. Pedro e D. Duarte. Elles tra- 
varam-me das mãos com força, e correndo como galgos 
pelos longos corredores, levaram-me a uma sacada, que 
domina uma das mais frequentadas ruas de Lisboa. 

Estava deliciosa a tarde, e havia ali grande multidão de 
gente de todas as classes e nações, velhos e moços, sãos 
e estropeados, frades e officiaes. De todos os bairos da ci- 
dade vinham chegando bandos de mendigos, para tomarem 
os seus logares ás portas do palácio, e esperarem a sa- 
hida da Rainha; porque Sua Magestade é mãe indulgentís- 
sima «Testes impudentes filhos da ociosidade, e raras ve- 
zes sahe na sua carruagem sem lhes distribuir considerá- 
veis esmolas. 

Esta mal empregada caridade faz com que centenares 
de robustos malandrins, em vez de aprenderem o manejo 
d'uma espingarda, aprendem o da muleta e a arte de fa- 
bricar chagas, ulceras e cabeças sarnentas com a mais 
louvável perfeição. 

D. Duarte, cheio de vida e d'alegria, pendurou-se do pei- 
toril da varanda, e esteve suspenso alguns instantes de 



163 



forma tal, que poria em convulsões de terror a mãe e as 
aias, se assim o vissem. Os pobres, que não tinham nada 
que fazer emquanto não chegava Sua Magestade, pareciam 
deleitar-se muitíssimo com estes rasgos de agilidade. 

Deram elles logo comigo, e dois alentados matulôes, 
que uma desgraçada combinação de bexigas com escrophu- 
las tinha privado da vista, informados, sem duvida pelos 
seus companheiros, de tudo o que se ia passando, começa- 
ram um curioso dialogo com vozes mais roucas e ásperas 
do que as dos sagrados corvos. 

— O ceu dê prosperidades a suas nobres excellencias, o 
sr. D. Duarte Manuel e o sr. D. Pedro, e a todos os Ma- 
rialvas, e que possam os caríssimos meninos sempre go- 
sar dos seus olhos e de todos os seus membros! Aquelle 
que está na sua amável companhia é o caridoso inglez? 

— É, sim, — respondeu o outro cego. 

— O que? replicou o primeiro. É aquelle generoso de- 
voto do gloriosíssimo senhor Santo António? 

— Sim, é elle. 

—Oh! tivesse eu os meus preciosos olhos, para poder 
contemplar o seu rosto! exclamaram elles ao mesmo 
tempo. 

Foi crescendo assim o duetto com o tempo, e coxos, 
mancos e sarnentos, atando os ensebados barretes no ex- 
tremo de compridas varas, metteram-os pelas grades da 
varanda, clamando em altas vozes — Esmola por amor do 
Santo de Lisboa! 

Nunca tive deante de mim a contemplar-me uma tão 
disforme e medonha collecção de physionomias ! 

Apressei-me a atirar-lhes uma mão-cheia de moedas de 
cobre, antes que D. Duarte sacudisse para fora os paus e 



164 



os barretes,— travessura que de forma alguma eu queria 
provocar— porque deitaria a perder a reputação que tínha- 
mos, de attender prompta e polidamente os pedidos feitos 
em nome de Santo António. 

No momento em que os oradores estavam recebendo a 
sua porção de vinténs e de cinco réis, os gritos de — Ahi vem 
a Rainha! ahi vem a Princeza! — levaram aquella hedionda 
multidão para outro ponto, deixando-me em liberdade para 
a meu turno me divertir com os pulos de gamo do meu 
alegre companheiro, um joven resoluto, vivo, e alegre, 
inteiramente diíferente da maior parte dos illustres 
mancebos, seus amigos. D. Pedro não approvou a minha 
parcialidade ingleza a favor de tão ousadas proezas, e de- 
pois de reprehender o seu primo, por estar saltando d'uma 
forma tão perigosa, pediu-me para os levar ao theatro do 
Salitre, onde por ordem de seu pae nos tinham preparado 
um camarote. 

Estive mais entretido do que esperava, apesar da recita 
durar mais de quatro horas e meia, das sete até perto 
da meia noite. Compunha-se o espectáculo d uma empolada 
tragedia em prosa, em três actos, intitulada Sesostris, dois 
bailados, uma pastoral, e uma farça. As decorações não 
eram más, e os trajos eram pomposos. 

Um joven de andar incerto, e olhar turvo, trajando o 
mais pesado luto, guinchou e roncou alternadamente o 
papel d'uma princeza viuva. Outro adolescente, mal se- 
guro nos seus sapatos de tacões altos, representava Sua 
Magestade egypcia, e garganteou duas árias com toda a 
nauseabunda suavidade dum aílautado falsete. 

Comquanto eu tivesse vontade de lhes esmurrar os ou- 
vidos, por me terem tão grosseiramente aturdido os meus, 



165 



o auditório foi de mui diversa opinião, e applaudiu-os 
com o maior enthusiasmo. 

No camarote do proscénio vi a affectada condessa de 
Pombeiro, que com os seus cabellos loiros e a alvura da 
sua cútis fazia um primoroso contraste com a cor d^bano 
das duas creadinhas pretas, que a ladeavam. O grande tom 
agora, na corte, é andar rodeado de favoritas africanas, tanto 
mais estimadas, quanto mais hediondas, e enfeitai- as o 
mais ricamente possível. Foi a Rainha que deu o exemplo, 
e na Família Real andam á competência em presentear e 
festejar Dona Rosa, a negra, beiçuda, e desnarigada valida 
de Sua Magestade. 

Um dos bailados estava admiravelmente posto em sce- 
na. Erguido o panno, appareceu um extraordinário gabi- 
nete cabalístico, onde se via um astrólogo sentado a uma 
mesa, cheia de espheras e astrolábios, e muito entretido 
a dispor umas certas figuras mysteriosas, abrindo-lhe os 
olhos com um enorme compasso preto. Uma espécie de 
Pierrot annuncia uns viajantes cheios de curiosidade, que 
entram fazendo muitas cortezias e arrastados comprimen- 
tos. Um d'elles, o chefe, um velho e vivo peralvilho, ves- 
tido de encarnado com bordados de prata, fez-me lembrar 
muito o duque de Lafões: andava de esguelha, brandia a 
bengala, e parecia fazer perguntas, sem esperar pela res- 
posta, com tanta graça como aquelle garboso general. 

O astrólogo, depois de explicar as maravilhas do seu 
aposento com muitos tregeitos pantomimicos, convida as 
suas visitas a acompanhal-o, e a scena transforma-se numa 
extensa galeria, illuminada com uma profusão de luzes- 
em lustres doirados. A perspectiva termina n'uma longa 
escadaria, em cujos degráos estão duas renques de figuras,. 



166 



palhaços, arlequins, sultões, sultanas, chefes índios, diabos 
e selvagens, todos immoveis. Pierrot traz um instrumento 
parecido com um realejo, e o seu amo principia a dar á 
manivella, acompanhado pela orchestra. Aos primeiros 
accordes todas as figuras deixam cair os braços, aos se- 
gundos cada fileira desce um degráo, e assim por deante, 
até ficarem ao nivel do tablado, e o astrólogo accelerando 
mais e mais o movimento, todo aquelle fingido bando de 
autómatos principia a dançar. Acabado o bailado, repe- 
tem-se os mesmos accordes, e vão todos subindo com os 
mesmos gestos e movimentos com que desceram. 

Os forasteiros vão-se embora, muito satisfeitos do que 
viram, e Pierrot, que está morto por ficar dando á mani- 
vela, persuade o seu amo a que vá passeiar, deixando-o 
de posse da galeria. O amo consente, porém ordena 
ao curioso idiota que por forma alguma toque na machi- 
na, nem ponha as figuras em movimento. Vãs recommen- 
daçõest Apenas elle volta as costas Pierrot deita-se á obra 
com todas as forças: as figuras principiam a tremer e pa- 
recem prestes a desconjuntar-se; a machina toda geme 
com hórrida asperesa; pernas, braços e cabeças agitam-se 
convulsamente ; e os degraus são transpostos aos três e 
três d'um salto. Pierrot, assustado e fora de si, vendo ca- 
minhar para elle a multidão dos vesgos, agarra-se ao ins- 
trumento, e não dá descanço á manivella. A musica dege- 
nera então nos mais discordes e agudos sons, e as figuras, 
indo de encontro umas ás outras, e rodopiando n'uma con- 
fusão extraordinária, acabam por estatelar-se no chão. Pier- 
rot, num estado de desespero deplorável, corre de grupo 
para grupo, e intenta em vão reanimal-os, até que por fim, 
perdendo toda a paciência, atira uns para cima dos outros, 



16: 



amontoa as sultanas sobre os selvagens, e os pastores 
sobre os diabretes, e como a maior parte d'estas persona- 
gens eram representadas por creanças de doze ou treze 
annos, elle levanta-as facilmente. Acabada esta barafunda 
cae exhausto, e finge-se morto como os outros, esperando 
escapar despercebido entre elles, mas nâo lhe aproveita 
este subterfúgio: o astrólogo chega, armado com o seu 
compasso, e ao ver aquella confusa mole recua espantado. 
Pierrot paga tudo, é immediatamente descoberto, e o as- 
trólogo principiando a tocar com toda a moderação e scien- 
cia, as figuras erguem-^e, e, voltando tudo ao statu qiio, 
finalisa o bailado. 

Deverei eu confessar que este disparate me divertiu 
quasi tanto como aos meus companheiros, cujo extasis só 
era excedido pelo das pretinhas de m. me de Pombeiro? 
Aquellas alegres e fuscas innocentes estiveram sempre a 
faltar na sua algaravia, apontando para o homem do com- 
passo preto com uns modos tão completamente africanos 
e cómicos, que para mim as suas contorsôes foram a me- 
lhor parte do divertimento. 

Acabada a representação regressámos rapidamente para 
o palácio, e atravessando muitos vestibulos escuros e ante- 
câmaras, onde roncavam os fatigados escudeiros, ficámos 
quasi cegos com a deslumbrante illuminaçâo da sala em 
que estava servida a ceia. Ahi encontrámos — além de todos 
os Marialvas, menos o Marquez velho — a Gamareira-mór 
e cinco ou seis damas de alta nobresa, devorando avida- 
mente uma immensa variedade de tâo coloridas como api- 
mentadas iguarias. 

Supponho que a branda aragem do Tejo, que dá em 
cheio nas janellas do palácio, opera como um poderoso 



168 



aperitivo, porque eu nunca vi comilões ou comilonas, nem 
mesmo M. me la Presidente, de Paris, a nossa velha amiga, 
portar-se com maior intrepidez. O serviço era esplendido, 
um banquete em forma. Tivemos manjar branco e manjar 
real, e, entre outras saborosas iguarias, um certo guisado 
de frangãos com arroz, que muito me agradou; o que não 
admira, porque este excellente prato tinha sido preparado 
pelas próprias e illustres mãos de D. Isabel de Castro, 
n'uma elegante e pequena cosinha annexa, aos aposentos 
da Rainha, e cujos utensílios são todos de prata massiça. 

Era prodigioso o numero das luzes e dos creados e pa- 
gens com ricas librés, que nos serviam ; porém o que me 
interessou mais do que todo este apparato, foi o humor 
jovial e a franqueza de todos os convivas. Custa-me a 
explicar como é que a presença de um extrangeiro não 
lhes inspirou o mínimo constrangimento, e especialmente 
quando em Portugal a classe alta é, de todas, a menos dis- 
posta a admittir n'estas reuniões familiares pessoas que 
não sejam do seu mais próximo parentesco; porém isto 
passou-se assim, e eu senti-me a um tempo lisonjeado e 
satisfeito, por me ser permittido presencear a cordeali- 
dade e a alegria que ali reinavam. 

Eram realmente sinceros a affectuosa attenção e o respeito 
com que os mais novos dos fidalgos presentes tratavam os 
seus pães, e não creio que n'este momento haja paiz algum 
na Europa, onde o sagrado preceito de honrar o pae e a 
mãe seja tão cordealmente observado como em Portugal. 
Felizes seriamos se, nas nossas relações com esta na- 
ção, tivéssemos aproveitado neste ponto o seu exemplo: a 
paz das nossas mais nobres famílias não teria sido pertur- 
bada pelas mais baixas ligações, nem o seu melhor sangue 



169 



contaminado por casamentos da mais immoral e degra- 
dante tendência. 

Não teríamos visto, n'um anno, uma actriz representar 
o papel de lady Fulana ou de lady Sicrana na scena, e no 
anno seguinte na sala; nem ao entrar em algumas das 
nossas casas principaes teríamos tentação de exclamar: — 
«Valha-me Deus! Aquelle rosto encantador é o mesmo 
que eu me recordo de ter adorado, á luz do luar, nos bel- 
los e largos passeios lageados de Bond Street ou de Port- 
land Place!» 1 

Passava já das duas horas da manhã, e devo confessar 
que, não obstante os bons bocados que tinha saboreado, e 
a amável recepção que me fizeram, principiava a sentir-me 
um pouco fatigado. 

Os meninos estavam tão espiritados e travessos, e Sua 
Ex. a a Camareira-mór, contra o seu costume, tão extraor- 
dinariamente tolerante e condescendente, que era impos- 
sível saber quando acabaria o festim. Despedindo-me por- 
tanto na devida forma, effectuei a minha retirada, escol- 
tado por meia dúzia de creados que me vieram alumiar. 

Ia em meio caminho da minha viagem atravez de cor- 
redores, que pareciam não ter fim, quando fui detido por 
um par de dominicanos— o padre Rocha, e o espantalho 
do seu satellite, frei José do Rosário. Uma pessoa menos 
habituada do que eu estou, ha tempos a esta parte, a taes 
appariçôes, ter-se-hia assustado, especialmen e achando-se, 

1 Ao tempo da ascenção ao throno do actual rei algumas senhoras d'esta 
qualidade tinham forçado a entrada do pariato, mas como não se apresen- 
taram na coroação, alguém observou que era muito de extranhar que senho- 
ras tão costumadas ao livre uso das suas pernas se negassem a dar um 
passo n'aquella occasião ! Horácio Walpole cita este dito n'uma das suas 
cartas: não me recordo a quem elle o attribue. — (Nota de Beckford.J 



170 



como eu, deante dos dois mais formidáveis sustentáculos 
da Santa Inquisição. 

—O que estaes fazendo aqui tâo tarde, meus reveren- 
dos padres? — exclamei eu. O que ha de novo? 

__Ha— respondeu Rocha com uma voz rouca e terrível— 
que temos apanhado frio á sua espera n'estes malditos 
corredores. O arcebispo ordenou-nos, ha mais de meia 
hora, que hYo levássemos vivo ou morto, porém um vil 
mequetrefe, que estava ás ordens de Sua Ex. a a Cama- 
reira-mór, não nos deixou cumprir a nossa missão, de 
forma que temos estado aqui a esfriar sem necessidade 

alguma. 

__ Sabe— disse-me o padre Rocha, levando-me para um 
quarto pequeno, onde ainda ardia uma lâmpada— que os 
negócios não correm tão bem como deviam? O arcebispo 
parece que tem perdido o tempo e o feitio, desde que en- 
trou -para o gabinete; e emquanto ao Príncipe do Brazil e 
sua mulher, Deus me perdoe se eu desejo ver os seus 
conselheiros e todas as suas intrigas no mais fundo abysmo 
da perdição. Como é que o senhor imagina fazer n'esta esta- 
ção uma viagem a Madrid? Os rios estão fora dos leitos e 
os salteadores também, e eu digo-lhe o que o arcebispo 
repete vinte vezes por dia. que, se partir, merece ser afo- 
gado ou assassinado. 

—O dado está jogado— repliquei eu-e devo sujeitar-me 
á sorte, mas o que eu realmente desejo é que tenha a 
bondade de dar em meu nome as boas noites ao arcebis- 
po, e que me deixe ir embora, pedindo-lhe a sua benção 
até amanhã, porque eu estou completamente exhausto. 

-Exhausto ou não— respondeu o frade— ha de vir co- 
migo. A estas horas já o vento anda levantado na cabeça 



171 



do arcebispo, e á mais leve contradição transformar-se-ha 
em temporal desfeito! 

Vendo que era inútil resistir deixei-me levar, por dois 
ou três pátios descobertos, muito frescos áquella hora, 
como podeis imaginar, e por uma escadinha de caracol, ao 
gabinete interior do arcebispo. 

Tudo jazia ainda. Nem um leigo bulia. O único rumor 
que ouvíamos era o da fraca respiração, que ás vezes se 
elevava a um gemido abafado, do inquieto Confessor, que 
encontrámos enterrado em papeis até aos joelhos, e absorto 
nos seus pensamentos. 

— Até que finalmente chegou ! . . disse elle. O que esteve 
a fazer todo este tempo? Quem, a não ser o bruto d^m 
inglez, me havia de fazer esperar? Ai de mim! Ai de mim! 
Disse-me o que havia de acontecer, e tinha rasão. Elles 
atormentam-me o espirito. Temos aqui Tinte marotos, a 
puchar cada um para o seu lado. A sua nação também não 
é o que costumava ser, apesar do Mello querer fazer-nos 
acreditar o contrario. Uma coisa tenho eu por certa, é que 
se approxima alguma terrível desgraça; e, a não ser que a 
misericórdia divina se manifeste promptamente, não vejo 
fim a esta confusão, e desejo-me para fora d'aqui, seja onde 
fôr. Estes melifluos palradores afrancezados, italianados, 
voltaireanos, e encyclopedistas, teem envenenado todas as 
sãs doutrinas. — Ai de mim! — continuou elle, levantan- 
do-se, com uma expressão de cólera e de indignação que 
eu nunca vira no seu rosto — os ouvidos de alguém ' , que 



1 O personagem a que se allude pagou caro o ter dado ouvidos a maus 
conselheiros e despertado as suspeitas da egreja. Um anno, pouco mais ou 
menos, depois d'esta conversação, um ataque de bexigas — que não foi com- 
batido tão habilmente como deveria ser — arrebatou-o, e reduziu a sua vo- 



172 



eu podia nomear estão envenenados Mas para que 

serve estar eu a fallar com o senhor? O senhor está resol- 
vido a deixar-nos: pois seja assim. A Divina Providencia 
está acima de tudo. Ella bem sabe o que é melhor para o 
senhor, para mim, e para estes reinos. Aqui tem o seu pas- 
saporte, rubricado pelo seu amigo Mello, e aqui está uma 
carta para Lorenzana, e outra para o confessor de Sua Ma- 
gestade Catholica, em que eu lhe digo que estupendo doido 
o senhor é ; e, a não ser que o senhor continue o mesmo, 
sem emenda alguma, cá o teremos em breve outra vez. 
Diga a Marialva — accrescentou elle, dirigindo-se a Rocha, 
porque o outro frade nâo tinha sido recebido, — diga a 
Marialva e a todos os seus amigos, que se me seccou a 
lingoa mais de uma vez, tentando combater os mil caprichos 
e extravagâncias d'estes estouvados miolos inglezes. Mas 
venha cá — disse elle, voltando-se para mim e abrindo os 
braços. — Eu não lhe quero mal; tenho dó, não condemno. 
Deixe-me dar-lhe um abraço, e praza a Deus que nâo seja 
o ultimo, que receba de mim. 

Foi infelizmente aquella a ultima vez que eu senti bater 
o pobre e honrado coração do bom velho í 

Os melancólicos presagios, que pareciam envolver 
tudo o que elle disse n'esta entrevista, deviam em breve 
realisar-se. A corrente fatal dos acontecimentos, precipi- 



luntariosa viuva a um simples zero na politica da corte, que ella princi- 
piara a agitar com grande êxito. 

Podemos datar d'este período a alteração do espirito da rainha D. Maria i. 
É de suppor com muito maior probabilidade que o que occasionou a sua fatal 
loucura foi antes a lucta entre a ternura maternal e o que ella considerava 
dever politico, do que todos os escrúpulos da confiscação dos bens dos Avei- 
ros e dos Tavoras, despertados pelo fanático, e interessado padre, succes- 
sor do meu excellente amigo. — (Nota de Beckford.J 



173 



tando-se com redobrada e tremenda velocidade, arrebatou 
no decurso de poucos mezes o Príncipe do Brazil, a inte- 
ressante e amável Infanta, sua irmã, o seu marido D. Ga- 
briel de Hespanha, e o velho e bom Carlos m. Não muito 
depois o próprio Arcebispo-confessor, na plenitude do poder 
e no goso duma influencia sem rival, era chamado á pre- 
sença d'aquelle perante o qual «nenhum homem vivo se 
justificará;» porém, como em muitos casos penosos e sin- 
gulares elle mostrou a mais terna piedade, podemos 
esperar humildemente que também seja acolhido com mi- 
sericórdia. 

Não obstante a aspereza das suas maneiras, a bondade 
do seu coração, tão manifesta no seu olhar prasenteiro e 
benévolo, penetrava, quasi sem elle o perceber, no coração 
dos outros, e temperava a despótica rudeza, que ás vezes 
apparentava na voz e nos gestos. 

Parece-me que ainda estou vendo o ultimo, sentido, e 
solemne olhar, que elle me lançou, quando fechou a porta, 
voltando para os seus negócios do estado. Eu, com a 
minha escolta de dominicanos e de creados com luzes, ca- 
minhava apressado em busca do ar livre, de que tanto pre- 
cisava : sentia-me oppresso por muitas coisas que ouvira, 
e outras que eu conjecturava, e sobre tudo pela intima 
reluctancia do meu coração em deixar um paiz onde rece- 
bera tão extraordinárias provas de amisade. 

Quando cheguei a casa, duas horas antes do romper do 
dia, e tentei dormir, não encontrei nem descanso, nem 
alivio, no meu somno inquieto e febril. 



XXVIII 



A missa de finados na egreja dos Martyres -Imponente musica 
de Peres e de Jomelli— Commovente despedida de Marialva— 
A minha acerba dôr. 



26 de novembro de 1787. 
Fui á egreja dos Martyres assistir ás matinas de Peres 
e á missa de defunctos de Jomelli, executadas pelos prin- 
cipaes músicos da Capella Real, pelo descanço das almas 
dos seus fallecidos predecessores. Nunca ouvi, e talvez 
nunca mais torne a ouvir musica tão grandiosa e commo- 
vente, porque a chamma do enthusiasmo religioso vae 
empallidecendo em quasi toda a Europa, e ameaça apa- 
gar-se dentro em muito poucos annos. Por ora ainda res- 
plandece em Lisboa, e produziu n'este dia o mais admirá- 
vel effeito musical. 

Todos os que estavam presentes pareciam possuídos do 
espirito das solemnes palavras, que Perez e Jomelli inter- 
pretaram com tremenda sublimidade. Não só a musica, 
mas também a compostura dos executantes, dos sacerdotes 
que officiavam, e de toda a congregação, eram próprias 



n: 



para infundir um solemne e pio terror do mundo d'além 
da campa. A esplendida decoração da egreja fora transfor- 
mada em luto, as tribunas estavam forradas de crepe, e 
um veu de oiro e purpura cobria o altar-mór. No meio do 
coro erguia-se uma eça ladeada de tocheiros em altos can- 
delabros, tendo em cada uma das suas faces uma renque 
de sacerdotes immoveis. Durante alguns minutos reinou 
um pavoroso silencio, e então começou a missa solemne 
dos finados. Os cantores empallideceram, quando entoaram: 
Timor mortis me conturbai. 

Depois do rcquiem executou-se a missa cantada de Jo- 
melli, em commemoração dos defunctos, essa celebre com- 
posição, que principia por um movimento imitando o dobre 
dos sinos, volteando vagarosos com um triste clamor: 

«Swinging slow with sullen roar.» 

Este canto profundo e magestoso, d'envolta com outros 
que pareciam os gritos de misericórdia dos desgraçados 
em redor dos quaes cresciam as sombras da morte e os 
tormentos do inferno, agitaram-me a tal ponto, e trouxe- 
ram-me á memoria tantas imagens dolorosas, que eu não 
pude conter as lagrimas 

Não dei quasi pelo meu regresso ao palácio, onde Ma- 
rialva me esperava com a maior impaciência. A nossa 
conversação teve um caracter muito serio. O marquez ro- 
gou-me encarecidamente que não me esquecesse de Por- 
tugal, que meditasse no acto solemne a que assistira 
n'aquelle dia, e que me lembrasse de que elle não mor- 
reria descançado, se eu não estivesse presente para lhe 
cerrar os olhos. 



176 



No estado actual do meu espirito senti-me duplamente 
impressionado por esta melancólica e affectuosa despe- 
dida. Parecia que me trespassavam o coração, e execrei 
Verdeil e todos os que tinham contribuído para eu aban- 
donar um tal amigo. O Grão-Prior chorava amargamente, 
vendo-me tão agitado. Marialva partiu para o paço, e o 
Grão-Prior acompanhou-me a casa. Jantámos sós, mas o 
meu coração estava cheio de tristeza, e não pude comer 
nada. Á noite voltámos ao palácio, e ahi se renovou toda 
a minha magoa e anciedade. 



XXIX 



Partida para Aldegallega — Mendigos no cães, do typo clássico 
— Tristeza de Beckford por deixar os Marialvas, familia onde 
escolhera noiva e de onde fora repellido — Paysagem do Tejo 
e suas margens— A missa d'alva— P'ra Vendas Novas! — 
Palácio de D. João v no meio da charneca — Manhã d'outono 
nos mattos — Montemór-o-Novo e Arrayollos. 



28 de novembro de iJSl 

Os ventos amainaram ; unida a superfície do Tejo como 
um espelho, as nuvens dispersam-se após a grande tem- 
pestade da noite, e o sol doura os cimos dos longinquos 
montes de Palmella. Que tempo encantador para ir até Al- 
degallega, a bonita villa de que Barreti fala com tanto 
enthusiasmo. Horne e seu sobrinho acompanharam-me até 
ao cães da Pampulha, onde o escaler do velho marquez de 
Marialva me aguardava com os seus vinte e oito remado- 
res, ostentando brilhante libré escarlate. 

Grande numero de mendigos, cegos, mudos e chaguen- 
tos seguiram-me quasi até á agua. Não ha mendigo em 
parte alguma que possa luctar com o de Portugal: pela 
força dos pulmões, a riqueza das ulceras, a profusão da 
bicharia, a variedade dos farrapos, — tudo isto junto a uma 
indomável perseverança. 



17cS 



Uma hora soava em muitos relógios, quando nos affas- 
támos da margem, e ás duas horas menos alguns minutos 
encontravamo-nos em Aldegallega, que se encontra situada 
a quatro léguas de Lisboa. 

Um sem numero de bateis e de lanchas passou junto 
de nós durante o trajecto, — que em outra qualquer occa- 
sião me pareceria agradável. Mas não podia eu vencer a 
tristeza, pensando sobretudo na minha separação dos Ma- 
rialva. Nem a vista imponente do Tejo, nem as suas mar- 
gens guarnecidas de egrejas e de conventos, torres e pa- 
lácios, podiam alegrar-me o coração, por um momento só 

que fosse. 

O sol desapparecera por detraz de nuvens carregadas 
(Tagua; a vasta extensão do Tejo tomara uma côr obscura, 
plúmbea, lúgubre; sombras espessas cobriam Lisboa; ape- 
nas se distinguia o mosteiro de S. Vicente de Fora, cons- 
truído sobre uma eminência, e envolto n'um aspecto im- 
ponente e tristonho. 

As margens baixas de Aldegallega são ridentes e um 
tanto montanhosas ; alli se encontram muitas espécies da 
tulipa, do iris, e de differentes plantas bulbosas, crescendo 
junto dos pinheiros, que embellezam a região, e cuja som- 
bra se estende até muito longe. 

Em vez de me fazer parar em qualquer locanda infe- 
cta, o meu guia, que era o mesmo que Martinho de Mello 
empregava nas mais secretas commissões, conduziu-me a 
casa do encarregado dos correios, habitação tão limpa como 
commoda, onde me encontrei bastante á vontade. 

Alli nos serviram o jantar, no meio d'um espesso fumo 
de matto queimado, que esteve a ponto de me tirar o appe- 
tite. 






179 



Antes de me assentar á meza, escrevi a Marialva, e a 
carta seguiu com o regresso do escaler. 

Não foi sem difficuldade que escrevi então, ou escrevo 
agora, porque o meu excellente hospedeiro, o encarregado 
dos correios, possuia uma grande facilidade de palavra, e 
uma memoria de primeira ordem; e como lera tudo quanto 
se pode imaginar em operas, madrigaes, sonetos e roman- 
ces, — tudo isto lhe saía pelos poros. Durante três horas, 
a sua lingua não descançou. Declamou paginas inteiras de 
Metastacio até tornar-se violeta. E depois de louvar os sen- 
timentos heróicos de Megaelès, de Artaxerxes e de Demé- 
trio, no meio de copiosas libações de chá, começou a citar 
auctores hespanhoes e latinos, — Ovidio, Séneca, Lopo da 
Vega e Galderon, — tudo isto com a mesma volubilidade. 

Assim como os moleiros adormecem aro ruido continuo 
das rodas do seu moinho, assim eu, depois de ouvir duas 
horas de tagarelice, comecei a ler ou a escrever com tanto 
sangue frio e socego como se me encontrasse em um con- 
vento de cartuxos. 

Durante toda a noite, houve continuo barulho fora e 
dentro da habitação; e ás quatro horas da madrugada, os 
carros contendo as minhas bagagens partiram com um ter- 
rivel ruido de guizos. 

Dir-se-ia uma manhã de primavera; isto convidou-me 
a tomar chocolate n'um terraço, d'onde se descobria uma 
paisagem agreste e rural, campos immensos limitados ao 
longe por uma comprida cadeia de collinas azuladas, da 
forma mais variada e pittoresca. 

Depois, do almoço, fui á egreja que Golmenar pretende 
seja ornamentada e dourada com a maior magnificência, 
mas que de facto não pode vangloriar-se d'outras decora- 



180 



çõos a não ser as de alguns altares muito mesquinhos, 
onde se vêem as imagens de Nossa Senhora e d'um santo 
que é o padroeiro da localidade, cobertos de vestes que 
ontr'01-a foram ricas e bellas. 

Ajoelhei-me no lagedo já gasto, e senti um vento gelado 
sair d'entre as fendas das pedras tumulares, que tiveram 
um som oco e lúgubre quando, levantando-me, as percorri. 

O padre que dizia a missa, officiava lenta e solemne- 
mente; nas capellas lateraes, a escuridão era quasi com- 

Eram oito horas quando deixei Àldegallega, atraves- 
sando com difflculdade grandes espaços areientos, á razão 
de duas milhas e meia por hora. 

Para todos os lados que me voltasse, apenas via uma 
região estéril, exceptuando alguns troncos de pinheiros 
enfezados, de oliveiras e de azinheiras. Não vimos outra 
coisa durante cinco léguas, até á estalagem dos Pegões, 
onde escrevo agora em um grande quarto sombrio, apesar 
de ter as paredes caiadas. Tenho os pés no solo húmido, 
e o vento entra pelas fendas de todas as janellas. 

Uma matilha de cães esfomeados saltava em volta de 
mim; os olhos saiam-lhes das orbitas, e os ossos furavam- 

lhes a pelle. . . 

Depois de termos comido algumas provisões, que levá- 
vamos comnosco, e em que a família canina teve grande 
parte, continuamos o caminho por áridos desertos ; nem 
uma única habitação se via ; até que á luz incerta das es- 
trellas (eram sete heras e meia da tarde), distinguimos a 
bella fachada d'um palácio, construído em 1729 por João v, 
a fim de receber a infanta de Hespanha que desposou seu 
filho José i. 



. 181 

Foi alli que descançámos; e fiquei bastante admirado 
de, ao entrar, vêr-me em bellos aposentos, onde havia por- 
tas e. janellas que fechavam, fogão que não deitava o fumo 
fora, tectos inteiros e pintados com gosto. 

Um moço sacerdote, guarda d'aquelle palácio solitário, 
e a quem não faltava nem a delicadeza, nem a distincção, 
fez todos os esforços para que a nossa paragem alli fosse 
o mais agradável possivel. 

Por sua ordem, appareceram cadeiras estofadas, e um 
magnifico fogo, que eu adorei com o fervor d'um persa 
da antiguidade. 

Necessitava doesta consolação depois d'um dia de dili- 
gencia por entre areiaes e desertos ; além d'isso, sentia-me 
febril e fatigado. 

Levei muito tempo antes de adormecer; e como me 
chamassem logo de madrugada, senti-me mais indisposto 
• ainda que quando me recolhera. 

Tomei alguns refrescos, e percorri tristemente os vas- 
tos aposentos desertos do palácio, até que os raios do sol 
entraram pelas janellas. 

O horisonte scintillava de mil cores; as planícies que 
se descobriam do terraço do palácio, apresentavam uma 
côr verde-rosada. Respirei o ar fresco da manhã, carregado 
dos perfumes das plantas aromáticas e das flores, cujas 
corollas se entreabriam. 

Não podia eu acreditar que fosse o ultimo dia de no- 
vembro ; antes me parecia que dormira durante todo o in- 
verno, e que acabava de acordar no mez de maio. 

A fim de gosar d'aquellas brisas odoríferas, em plena 
liberdade, saltei da carruagem, que rodava lentamente ao 
capricho dos cavallos; deixei os conductores saborearem 



182 



á vontade os seus cigarros, e montando a cavallo, assim 
percorri a maior parte do caminho de Montemor, villa 
construída na vertente d'uma montanha, e rodeiada de to- 
dos os lados por bosquetes de oliveiras. A mesma vegeta- 
ção cobria toda a região, o que a tornava um tanto monó- 
tona. 

Deixando Montemor, passamos um riacho limpido, de 
margens ensombradas de alamos e de giestas, entremeia- 
dos de figueiras bravas e de loureiros em flor. As abelhas 
zumbiam em volta das flores. 

Emquanto nos apromptavam o jantar, subimos as ver- 
dejantes encostas d'uma elevada collina, e lá no cimo para- 
mos junto de minas; atravessando uma arcaria estreita, 
descobrimos um perystilo que conduzia a uma egreja go- 
thica, de architectura grosseira; o solo era composto de 
pedras tumulares. 

Passeiámos algum tempo por uma plataforma que havia 
á entrada ; mas o sol era tão ardente, que tivemos de pro- 
curar a sombra, refugiando-nos em uma espécie de caverna 
— a que chamavam quarto d'uma locanda, — e onde havia 
frio e sombra demasiados ; comtudo, encontramos alli um 
excellente jantar. 

Quando partimos, o sol era tão bello, que tornei a mon- 
tar a cavallo até Arrayolos, villa feia e antiga, que, como 
Montemor, se encontra situada n'uma eminência. 

Chegamos alli no momento em que caía a noite ; mas 
o chefe do correio appareceu e guiou-nos até sua casa. 

Tive o prazer de me encontrar n'um bonito aposento, 
mobilado com luxo, e junto d'um bom fogão. 

É d'aqui que escrevo á familia Marialva, ao mesmo tem- 
po que tomo café, e sem tiradas de Virgilio e de Metastacio. 



XXX 



Fabrica de tapetes em Arrayollos — Venda do Duque, solar dos 
Gadavaes — Estremoz e a feira — Uma estalagem da epocha 

— Aspectos da villa histórica — Chegada a Elvas— Recepção 
de Vallaré, honrando a tradiccional bizarria luzitana — O ab- 
bade Correia da Serra, homem de génio e homem de espirito 

— As fortificações d'Elvas e os quartéis— Ultimo almoço de 
Beckford em Portugal. 



1 de dezembro de Í181 

Por emquanto, não tenho que me queixar da minha via- 
gem em Portugal. 

Uma ordem do administrador da villa, fez-me obter leite 
para o almoço, apesar da má vontade do proprietário da 
casa, que queria guardal-o para si só. Pensando que aquelle 
liquido fora obtido á força, achei-o azedo, e pul-o de parte. 

Fiz uma provisão de tapetes para a minha viagem, to- 
dos d'um desenho grotesco e de cores retumbantes, — 
producto d'uma fabrica da villa que dá trabalho a trezen- 
tos operários. 

Se me não engano, começo a escrever em estylo tão 
frio e aborrecido como o do major Dalrymple, auctor d 'um 
livro de viagens na Iíespanha, e que tive a desgraça de 
lêr esta manhã durante o trajecto, emquanto a diligencia 
me levava de Arrayolos a Venda do Duque. 

Atravessamos uma vasta extensão de paiz coberto de 
exótico arvoredo, e onde rebanhos de porcos roíam luxu- 
riosamente a carea das plantas e arrancavam a relva. 



184 



Venda de Duque é um estabulo digno de ser a capital 
d'uma região de porcos. Pôde comtudo vangloriar-se de ter 
chaminés, junto das quaes ao menos nos podemos aquecer. 

A tarde tornou-se nebulosa e fria. 

Antes de chegar a Extremoz, outra villa situada n'uma 
collina, a chuva começou a cair a torrentes. Atravessando 
verdadeiros lagos, chegámos emQm á grande praça do mer- 
cado, onde se encontrava a nossa hospedaria. 

Ao menos, ali, as paredes e os tectos eram caiados ; e 
havia também mezas e cadeiras. Os meus tapetes foram 
úteis para me preservarem os pés da humidade do ladri- 
lho. Mandei-os estender em volta do leito; e olhando-os, a 
sua diversidade de cores offereceu-me um aspecto comple- 
tamente exótico. 

Quando abri os olhos, pelas sete horas da manhã, o 
céo continuava sombrio e ameaçador; um s.em numero de 
figuras humanas, envoltas em capotes escuros, saiam de 
muitos buracos de cada lado da hospedaria. 

Uma feira que naquelle dia se realisava, era a causa 
d'aquella reunião; e todos lamentavam o máo tempo, que 
os não deixava ostentar á vontade os seus atavios. A maior 
parte d'aquella boa gente tinha passado a noite na caval- 
lariça e na cosinha da hospedaria. 

Descendo a escada, vi muitos dos seus companheiros 
d'ambos os sexos estendidos, parecendo mortos e feridos 
d'um campo de bataiha, ou, para me servir de expressão 
menos lúgubre, os ébrios d'uma eleição disputada em In- 
glaterra. 

Das janellas da hospedaria, vi uma grande praça, de 
mil pés de largo, rodeiada de construcções irregulares, 
entre as quaes não descobri nenhum d'esfces bellos edifícios 



185 



com columnas de mármore, que alguns escriptores erran- 
tes indicaram com pomposo elogio. 

A torre mandada construir pelo rei D. Diniz, e de que 
elles fazem menção, perdera inteiramente o seu brilhantis- 
mo, se alguma vez o tivera. 

Perto da hospedaria, havia uma pequena capella, onde 
ouvi um sermão furibundo, pronunciado por um capuchi- 
nho de cabellos prateados e de olhar inflamado ; escutava-o 
um sem numero de mulheres choramingas. 

Gomo já não chovia, montei a cavallo, e fui até Elvas. 

Passei por intermináveis planicies cheias de arvoredo, 
cujo verde sombrio dava um tom melancholico áquella re- 
gião. 

A uma ou duas milhas de Elvas, a apparencia dos cam- 
pos muda, e torna- se n'uma vasta floresta de oliveiras, com 
fontes nas bordas dos caminhos, e avenidas de alamos, 
que não estavam ainda despojados da sua folhagem. 

Dominando os seus cimos, as arcarias d'um aqueducto 
offerecem em perspectiva, d'alguns pontos, o aspecto d'uma 
cathedral gothica caindo em ruinas. 

As muralhas de Elvas são distribuídas no género dos 
jardins inglezes, — formando passeios deliciosos. 

Entrando na cidade, que me pareceu populosa e flores- 
cente, conduziram-me a uma casa tão luxuosa como ele- 
gante, e que fora preparada, para nos recolher, por ordem 
do governador da praça, sr. de Vallaré(?). 

Uma espécie de escudeiro, de aspecto digno, com ca- 
saca azul ricamente agaloada, e ostentando a fita da ordem 
de Santiago, — esperava-nos á porta. 

Seguindo o systema da delicadeza portugueza, nem por 
um momento sequer nos deixou. 



186 



Apenas entrei no aposento que me fora designado, an- 
nunciaram-me o sr. de Vallaré. 

Acompanhava-o o abbade Corroa, um dos luminares da 
litteratura portugueza. A sua conversação foi para mim das 
mais agradáveis. 

Saímos juntos a visitar as fortificações e os quartéis, 
que são admiráveis de limpeza, graças ao governador, que 
é infatigável n'este assumpto, e que, apesar da sua idade 
avançada, conservava o espirito e a viveza d'um rapaz de 
vinte e cinco annos. 

Encantavam- me a sua franqueza militar e as suas at- 
tenções naturaes. Assistira á batalha de Fontenoy, e nunca 
na sua vida fora tão feliz como no meio do fumo e dos es- 
tragos d'uma guerra. 

D'um dos bastiões onde nos conduziu, vimos perfeita- 
mente o forte de Lipe, construído no alto d'uma collina. 

Se o tempo estivesse bom, talvez não resistisse á ten- 
tação de subir a collina e visitar o forte. Mas começou a cho- 
ver, e preferi ir abrigar-me junto do fogão do meu quarto. 

O abbade e eu conversámos de Lisboa e dos seus habi- 
tantes, emquanto Verdeil se divertia em examinar alguns 
mineraes que o governador conseguira juntar, e que se en- 
contravam dispersos pelas mesas. 

Foi assim que o tempo decorreu até ao almoço. Servi- 
ram-nos carne de porco, perdizes deliciosas, e muitas espé- 
cies de saladas. A nossa conversação foi viva e ligeira, por- 
que o abbade Corrêa possuía uma originalidade de génio e 
uma liberdade de sentimentos que todas as torturas da In- 
quisição não tinham podido extinguir. 

Uma hora depois, puzemo-nos a caminho para Badajoz. 



INDICK 



PAG. 

I — Excursão a Palhavã — palácio — Tristes labyrinthos 

no estylo dinamarquez — Rosas — Um mestre de picaria 
anglo-portuguez — interior do Palácio — Os moveis 
com saias — A força da educação — Realeza sem poder 
— Regresso do palácio 3 

II — O ceu deslumbrante de Portugal — luxo simiano — 

Jardim Botânico — As açafatas — Descripção do Jar- 
dim e dos terraços 7 

III — A sagração do Bispo do Algarve — Musica pathetica— 
O valle de Alcântara — O enorme aqueducto — Visita ao 
palácio dos Marialvas — Grande veneração pelos seus 
senhores — Uma collecção de raridades — O vice-rei do 
Algarve — Polyglottismo — Uma scena nocturna — As 
modinhas — Uma procissão extraordinária — Venturas 

do governo patriarchal 41 

IV — A festa do corpo de Deus — Admirável decoração das 

ruas— A Sé Patriarchal —Sahida do Sacramento com 
grande pompa — A explendida procissão .... 20 

V — Jantar na casa de campo de Mr. Street — Sua mulher 

brazileira — Um banquete magnifico — Uma donzella 
trágica 23 



2G 



29 



35 



188 

paG, 

VI -Um dia passado em casa dos Marialvas -Visita ao 

Mosteiro de Belém -Os aposentos do rei D. Manoel - 

Uma custodia d'oiro de primoroso lavor -A egreja- 

Fogueiras na margem do Tejo -Os fogos d'artificio . 

VII __ a nova egreja de Santo António —A musica alegre - 
Um sermão fanático -O bom Prior d'Aviz - Visita ao 
convento dos Cartuxos de Gachias - Espectros monás- 
ticos - Notável imagem do Salvador -Um frade novo 
e triste — O cemitério 

Viu -Uma curiosa serie de visitas -Um doutor seraphico 
-Monsenhor Aguilar-Um bando de velhas bruxas, 
rapazes e mendigos esfarrapados - Visita ao theatroda 
rua dos Condes -0 Arcebispo Confessor -Modinhas 
brazileiras — Encantos d'aquella musica - Procissões 
nocturnas — Devoção do joven conde de Villa Nova- 
Os gostos são livres 

IX -0 calor excessivo de Lisboa- Vozes nocturnas da ci- 
dade -Festa publica no jardim do conde de Villa Nova 
-Visita ao palácio do marquez de Angeja-0 herdeiro 
da casa — Narrações maravilhosas d'um jovem padre — 
Convento de freiras saboyanas-As pupillas do padre 
Theodoro d'Almeida— O grupo das formosas enclausu- 
radas—O canto de Scarlatti ^ 

X- Altos e baixos de Lisboa -Pretas bruxas -A quinta 
de Marvilla — Lisboa vista ao luar- As janellas illumi- 
nadas do Palácio — O velho marquez de Penalva— O 
Padre Duarte, famoso jesuita -Conversação d'este com 
um presumido medico - Sua ridicula ignorância - Adu- 
ladores— Sonatas - Menuetes portuguezes ... 50 

XI— O uivar dos cães - Visita ao convento de S. José de 
Ribamar -Almoço em casa dos Penalvas- Magnifica e 
hospitaleira recepção — Segredos na penumbra dos mys- 
teriosos aposentos -0 bispo do Algarve - anoitecer 
no jardim de Marvilla 56 

XII — Excursão a Cintra — palácio do Ramal hão — A quinta 



189 

PAG. 

— Collares — pavilhão desenhado por Pillement — Um 
galope furioso —Frio em Julho 62 

XIII — A sympathia entre os sapos e as velhas — O palácio 
de Cintra— tanque dos peixes doirados e prateados 

— Um jardim n'um alto terraço — A sala da prisão de 
Aííonso VI — A capella — Barbara profusão d'oiro — 
altar em que estava ajoelhado D. Sebastião, quando re- 
cebeu o aviso do ceu — Os aposentos para a Rainha e 

as infantas — Regresso para o Ramalhão . ... 67 

XIV — Grande gala na corte — Festa em honra do anniver- 
sario de Guildermeester — Furiosas venetas d'um fran- 
cez — A indiscreta luz da verdade — Invectiva contra os 
inglezes 71 

XV — A capella da rainha de Portugal— A orchestra — En- 
saio d'uma reunião de conselho — Proposta para visitar 
Mafra 76 

XVI — A estrada de Mafra — O convento visto de longe — 
As suas vastas frontarias — Magnificência geral do edi- 
fício— A egreja— O altar-mór— A véspera da festa de 
Santo Agostinho — As capellas collateraes — A sacris- 
tia— O abbade — A livraria — Vista do terraço do con- 
vento — O carrilhão — A casa do Gapitão-mór — O jantar 

— Vésperas— O magestoso som dos órgãos — O palácio 

— Volta para o convento — A multidão dos curiosos — O 
jardim — Matinas — Uma procissão — A sala de Profun- 

dis — Banquete solemne — Geia em casa do Gapitão-mór 79 

XVII — A missa cantada — A quinta do visconde de Ponte 
do Lima — Deixo Mafra — Um accidente — Volto para 
Cintra— O meu salão — Linda vista que d'elle se dis- 
fructa 91 

XVIII — Um salão decorado no mais alto estylo oriental — 
Divertidas historias do rei D. João V e das suas freiras 
—Um funeral alegre — Passeio até ás alturas de Penha 
Verde 94 

XIX — Anecdotas do conde de S. Lourenço — Visita a Mrs. 



190 

PAG. 

Guildermeester — Sapas activas e sapas passivas — O 
velho cônsul e a sua bandeja de jóias 101 

XX— Espera-se em Cintra a Rainha e o seu séquito— O 
duque de Lafões — Excursão a uma feira do campo — 
Uma orgia de camponezes — Scena nocturna na quinta 
de Marialva 106 

XXI — Curiosa scena no interior do palácio de Cintra— Um 
convite singular— Janto com o Arcebispo — Confessor 

— Jovialidade e maliciosas observações d'este extraor- 
dinário personagem 110 

XXII — Exploro os montes de Cintra— O convento de Nossa 
Senhora da Penha— Ruínas mouriscas — O convento de 
cortiça — O cabo da Roca — Aspecto do mar — Exemplos 

da susceptibilidade de imaginação dos antigos . . 118 

XXIII — Excursão a Penha Verde — Semelhança entre 
aquelle palácio e os edifícios das paizagens de Gaspar 
Pouissin — Os antigos pinheiros plantados, segundo di- 
zem, por D. João de Castro — Velhas florestas substi- 
tuídas por pomposos jardins— Affluencia de visitantes 

— A erudição de um celebre prior e os seus singulares 
anachronismos — A besta do Apocalypse— (Ecolampadio 

— Um rancho de damas do Palácio — Festa na quinta 
de Marialva — A Rainha e a Familia Real— A anã preta 
favorita — Aspecto imponente da Rainha — Profundo 
respeito que a sua presença inspira — A etiqueta rigo- 
rosa _ Grande fogo de artificio — A jovem condessa de 
Lumiares — Impressionadora semelhança. . . .125 

XXIV — A cathedral de Lisboa — Vestígios dos dedos de 
Santo António — Os corvos sagrados — Organisa-se um 
rancho para os visitar — Um poeta portuguez — Com- 
moda installação dos corvos sagrados — Singular tradi- 
ção acerca d'elles — Illuminações em honra do parto da 
infanta— Sermões públicos — O cantor Polycarpo e as 
suas anecdotas da alta nobreza 134 

XXV — Passeios no valle de Collares — Uma paisagem ely- 
sia — A cantiga da camponeza — Hospitalidade rústica 



191 

PAG. 

— Entrevista com o príncipe do Brazil na planicie de 
Cascaes — Conversarão com Sua Alteza Heal — Volta 
para o Ramalhão 143 

XXVI — O convento da Boa Morte —A magresa dos frades 

— Austeridade da ordem — Contrição d'alguns persona- 
gens — Um nouveau riohe — A sua casa — Passeio na 
varanda do palácio de Belém — Multidão de servidores 
á mesa — A glotonaria portugueza — Uma colleceão té- 
trica de superstições lendárias — Terriveis profecias — 

— Uma tarde triste 156 

XXVII— Ensaio de seguidillas — Scenas da tarde — A mul- 
tidão dos mendigos — Caridade regia mal empregada— 
Lisonjas dos pobres e medonho aspecto de alguns — Uma 
recita no theatro do Salitre — A condessa de Pombeiro 
e as suas anãs pretas — Um bailado extravagante — 
Volta para o palácio e ceia em casa da Camareira-mór 

— Aftecto filial —Ultima entrevista com o Arcebispo — 
A corrente fatal dos acontecimentos — Profundo pezar 

ao deixar Portugal 161 

XXVIII — A missa de finados na egreja dos Martyres — Im- 
ponente musica de Peres e de Jomelli — Commovente 
despedida de Marialva — A minha acerba dôr . . . 174 

XXIX — Partida para Aldegallega — Mendigos no cães, do 
typo clássico — Tristeza de Beckford por deixar os Ma- 
rialvas, família onde escolhera noiva e de onde fora re- 
pellido — Paysagem do Tejo e suas margens — A missa 
d'alva — P'ra Vendas Novas! —Palácio de D. João v no 
meio da charneca— Manhã d'outono nos mattos — Mon- 
temór-o-Novo e Arrayollos 177 

XXX — Fabrica de tapetes em Arrayollos— Venda do Du- 
que, solar dos Cadavaes — Estremoz e a feira — Uma es- 
talagem da epocha— Aspectos da villa histórica— Che- 
gada a Elvas — Recepção de Vallaré, honrando a tradi- 
ccional bizarria luzitana— O abbade Correia da Serra, 
homem de génio e homem de espirito — As fortificações 
d'Elvas e os quartéis — Ultimo almoço de Beckford em 
Portugal 183 




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